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31 mar

Por Que Precisamos Dela?

A VOZ E O ROSTO VOCÊ JÁ CONHECE; OS POSTS — NOS TRENDING TOPICS DAS REDES SOCIAIS —, PROVAVELMENTE TAMBÉM. MAS SERÁ QUE VOCÊ SABE A FUNDO O QUE PENSA E SENTE ESSA ARTISTA QUE TEM SE PROVADO CADA VEZ MAIS ESSENCIAL PARA OS DIAS ATUAIS? ENTÃO COLA AQUI

POR Melissa Lenz 5 MIN

31 mar

5 Min

Por Que Precisamos Dela?

POR Melissa Lenz

	

“Você não precisa de artistas? Então me devolve os momentos bons. Os versos roubados de nós. As cores do seu caminho. Arranca o rádio do seu carro, destrói a caixa de som”, diz a cantora e compositora Zélia Duncan, 55, em um dos autênticos vídeos da série “ZD Zóionozóio” postados com frequência em seu perfil do Instagram (ver pág. 108). “Foi poderoso, porque foi espontâneo”, ela comentou dois dias após o post ter ido parar nos Trending Topics, a lista dos assuntos mais comentados do Twitter — rede na qual ela é ainda mais assídua. Mas quem a segue pensando só em stalkear sua rotina na música, vai cair do cavalo. Mesmo que likes e conteúdo sobre uma artista prestes a completar 40 anos de uma bem-sucedida carreira jamais seriam problema para timeline — especialmente com turnê e dois álbuns novos para promover (Tudo é Um e Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz, com Ana Costa) —, ela prefere apostar em outros temas. “É evidente que preciso de marketing, mas não faço isso o tempo todo. Tenho um pouco de pudor. Num mundo tão cheio de questões, num Brasil indo pro abismo todo dia, não dá pra simplesmente botar fotos do meu show toda hora.” Confira abaixo os melhores momentos de nosso bate-papo, realizado no Studio Mundo TOP, em São Paulo, com a presença de uma seleta plateia de fãs de ZD.

Zélia, em 2021 você fará 40 anos de carreira. Que perguntas tem se feito ultimamente? Como artista, sempre me pergunto: para que vou subir no palco? Tenho uma obsessão que é não fazer isso à toa. Claro que é meu trabalho e preciso ganhar dinheiro como qualquer pessoa. Mas é uma atividade delicada, que só se completa no outro. Às vezes você se repete por medo, por achar que uma coisa deu certo e temer não conseguir mais encontrar ninguém. Mas aí a possibilidade de perder pessoas é muito grande também. Você não tem garantia de nada. Vai envelhecendo enquanto os mais jovens, chegando. Existe uma parte enorme do público que é o do sucesso, não o do artista. São muitos mistérios que permeiam essa carreira e nossa vida, de modo geral. Então a pergunta principal é: para que subir no palco? Tenho que dar algo genuíno, honesto. É óbvio que quero agradar, mas não posso viver para isso. É muito sutil. O princípio é até um pouco egoísta: quero que eles gostem do que faço, mas, principalmente, eu preciso gostar e acreditar naquilo para convencê-los de que é bom e que vale a pena ser visto. Pro Fabiano (na plateia) vir de Brasília e querer me ver, não posso simplesmente fazer as coisas de sempre. E não sinto isso como um peso, mas um estímulo. Realmente quero trazer um frescor. Então me pergunto o tempo inteiro: o que pode ser um frescor? Ou, dentro do que já fiz, algo que seja motivo para continuar fazendo? Como artista me faço essas perguntas o tempo todo. Por um lado é torturante, mas por outro você vai achando o jeito.

Você está nua e cheia de frescor na capa de Tudo é Um! (risos na plateia) Na época, quando vi o que estava por acontecer, falei: mas que loucura, você vai pagar peitinho aos 54! (risos) Mas não é o desejo absolutamente de estar nua — mesmo que fosse, não teria nenhum problema —, mas tem a ver com querer se expor no sentido artístico, musical, e ser pessoal pra tentar ser universal. A minha dor é a sua dor, só vai mudando de endereço e de maneira de dizer, assim como minha alegria e todos os sentimentos. Então é um desejo de estar no essencial, é assim que você nasce. E o começo do meu novo show tem a ver com isso também. A música surge do silêncio, e a gente, em geral, está num ambiente íntimo para criar. Aquela cadeira que acabou ficando pelo show inteiro é a do meu quarto mesmo. E essa nudez aos pedaços (da capa do disco) é porque faço tantas coisas, mas na verdade eu sou eu, a Zélia, a Zélia Cristina, que nasceu em Niterói, foi pra Brasília… É sempre a mesma pessoa tentando arranjar motivo todo dia para sair da cama. E, como artista, tenho que fazer isso em dobro. Porque ainda tenho que fazê-los irem me ver. Ou terem vontade de botar uma música em que eu possa dizer algo que os alegre, ou dê vontade de dançar, de chorar… Sei lá, a gente está numa época em que as pessoas querem remédio para tristeza. Se eu não tivesse ficado triste, não teria feito várias letras. Não que eu precise necessariamente ficar triste, mas no sentido da introspecção. De precisar de vida interior para enfrentar os dias. Não tem jeito, você tem que procurar isso. E como artista, vai tudo se misturando nesse lugar.

Existe uma responsabilidade como artista? É até engraçado, comecei a cantar com 16, estou com 54, e com cada vez mais vontade de me desnudar, de ser quem sou, com todas as minhas opções, e de falar sobre isso. Quando a gente é artista e tem um microfone na mão, também tem um pouco de acolher as pessoas. É legal que o teu som de alguma maneira faça isso, o que saquei até cantando algumas músicas de novo, que elas também eram um encorajamento. Não dou para mim essa missão, porque acho que fica parecendo que você se acha de alguma maneira superior. Tenho uma coisa pra dizer: não é isso, mas o artista está aqui dizendo coisas. Como diz Rappin’ Hood, “eu tô com o microfone, é tudo no meu nome”. Naquele momento em que estou ali, existe, sim, uma responsabilidade.

Por que causas você acha que vale a pena lutar hoje? Acho que por todas. Onde tem pessoas sofrendo vale a gente olhar e se ajudar. Tô sempre pronta a aderir a alguma coisa. Claro que tenho as minhas pessoais, que me afetam mais. Contra a homofobia, é óbvio que vou sempre lutar; pela vida que tenho, pelo que eu sou, pelos amigos, pelas pessoas. A agressão contra a mulher também, vai sempre me causar espanto. Hoje aprendi que não basta não ser racista, tem que ser antirracista, um ensinamento de Angela Davis (ver pág. 144) que jamais abandonarei. É preciso reconhecer no dia a dia nossos privilégios, questões que batem em nossos ouvidos e parecem frases feitas, só que não. Tem que rever todo dia, toda hora. Quando entrar num ambiente, reparar quantos pretos estão ali, quantos deveriam estar. Isso me interessa profundamente hoje em dia. E a causa feminista também.

Nas redes sociais você mais expõe suas convicções do que sua música… Hoje acordei e escrevi: não acredito que em plena segunda-feira eu, como cidadã, preciso falar e defender a luta contra o trabalho infantil. Não é possível que a gente não saiba que isso é um absurdo! No Brasil, hoje em dia você tem que falar e lutar pelo óbvio todo dia. E não vou deixar de falar sobre isso. É evidente que preciso de marketing, mas não faço isso o tempo todo. Tenho um pouco de pudor. Num mundo tão cheio de questões, num Brasil indo pro abismo todo dia, não dá pra simplesmente botar fotos do meu show toda hora. Tem coisas mais urgentes acontecendo sobre as quais tento falar antes. Procuro reparar em como posso contribuir e, como artista, não parecer estar me achando mais importante do que as causas todas, porque ninguém é. Nem do que a música, muito menos. Confesso que fico com preguiça, não tenho muito saco pra muitas coisas. Já não tinha quando era mais nova. Hoje em dia olho, “não, obrigada, vai indo que eu não vou.” Não tenho paciência pra várias coisas que envolvem o mundo artístico. Às vezes escrevo algo e digo “que besteira”, e apago antes de enviar. É um paradoxo. Fico entre não querer me promover e precisar, de alguma maneira, divulgar o meu trabalho. Mas acho que essas causas todas que você me perguntou, isso tudo é muito mais importante. E se eu, como artista, tenho alguma voz, vou tentar falar disso.

Por que mudou a letra da música Sexo na nova turnê? Na versão do disco (Acesso, 1998) eu queria falar de homem e de mulher (“seu corpo forte e bonito não é só por prérequisito pra minha satisfação (…) mas suas mãos de veludo nem sempre dizem tudo o que meu corpo quer saber”). Não é porque você tem uma beleza óbvia que dará prazer pro outro, ou que na hora que ficarem juntos vai ser incrível, era isso que eu estava questionando. Mas hoje me considero uma feminista. Esses últimos anos me serviram muito para observar a posição da mulher, entender o que é sororidade. Você tem que ter esse olhar: se somos mulheres, somos irmãs. Não comprar esse negócio de somos rivais. Não somos inimigas. A gente tem que se cuidar. Então essa letra não é mais o que quero dizer. Eu disse: “Sexo é consentimento, não é abuso, não é assédio. Você pode desistir em qualquer estágio, do medo ao tédio, de longe ou de perto. Mulher, atenção: saia curta não é convite, lésbicas não precisam de corretivo e nem de palpite. Mulheres negras não estão à disposição. Nossos corpos não estão à disposição. Pode ser bom, e tem que ser bom”. O primeiro refrão dizia: “Pode ser bom e pode ser não”. Agora eu digo: “pode ser bom, deve ser bom, tem que ser bom ou não vai ser”. É isso.

Você sempre disse querer ser uma artista do seu tempo! É, e continuo tentando, desesperadamente.

E nasceu no “dia do santo das causas impossíveis”… São Judas (28 de outubro), exatamente! (risos)

Já apelou muito para ele? (risos) Talvez tenha nascido nesse dia pra me ajudar (risos), mas não sou uma pessoa religiosa. Porém, respeito muito a crença das pessoas. Acho bonito o que ele representa. É que nem quando a gente é bairrista: sou bairrista com São Judas, tenho uma intimidade com ele. Fico achando até que é meu chapa! (risos)

Você não sente medo? Ainda hoje minha mãezinha, que tem 83 anos e é muito lúcida e participativa na minha vida, mandou uma mensagem: “Zélia, eu não acompanho as suas redes, mas as pessoas me enviam coisas que você diz e, às vezes, tenho medo. Você não tem?” Eu não. Claro, não sou maluca, burra nem kamikaze. Mas a gente tem que falar as coisas de uma maneira que seja razoável, mas tem que falar. Respondi: “Mãe, sou só uma pessoa aqui e não tenho essa importância toda. Tô falando o que penso, mas sem agredir ninguém ”. A não ser que você se sinta agredido com o que falo contra o trabalho infantil. Mas aí, dane-se. Se acha normal uma criança trabalhar numa carvoaria, num canavial, se isso vai me fazer correr perigo, paciência. A gente não pode virar um rato. Claro, eu quero me manter íntegra, mas não vou deixar de falar.

Até porque a arte pode ajudar na transformação da consciência. Eu acho. Pode e deve, tá implícito nisso. Mas, de novo eu te falo, não me coloca essa missão. E nem gosto dessa palavra, nesse sentido. Eu tenho a missão? Não. Mesmo porque, como acabei de confessar, cantar nasce de um desejo egoísta. Egoísta de me fazer feliz, e deságua nos outros…

Nós, que vamos aos seus shows, somos todos egoístas também. O amor é egoísta, né? E é importante que a gente saiba disso. Quero você porque me dá prazer. Mas isso não precisa ser selvagem. Eu posso ter compaixão, que é uma palavra que adoro. Posso ter generosidade, solidariedade, embora o meu princípio primeiro seja ser feliz, eu. Mas não vou ser feliz se todo mundo estiver infeliz.

 

Vida em branco

Vida em Branco Você não precisa de artistas? Então me devolve os momentos bons. Os versos roubados de nós. As cores do seu caminho. Arranca o rádio do seu carro, destrói a caixa de som. Joga fora os instrumentos e todos aqueles quadros, deixa as paredes em branco, assim como a sua cabeça. Seu cérebro cimento, silêncio, cheio de ódio. Armas para dormir, nenhuma canção de ninar, e suas crianças em guarda, esperando a hora incerta para mandar ou receber rajadas. Você não precisa de artistas? Então fecha os olhos, mora no breu. Esquece o que a arte te deu, finge que não te deu nada. Nenhum som, nenhuma cor, nenhuma flor na sua blusa. Nem Van Gogh, nem Tom Jobim, nem Gonzaga, nem Diadorim. Você vai rimar com números. Vai dormir com raiva, e acordar sem sonhos, sem nada. E esse vazio no seu peito não tem refrão para dar jeito, não tem balé para bailar. Você não precisa de artistas? Então nos perca de vista. Nos deixe de fora desse seu mundo perverso, sem graça, sem alma. Bom dia para quem tem alma. @zeliaduncan

 

Foto: Divulgação/Roberto Setton

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