TOP Magazine

Viagem no tempo em cenário espetacular

Mille Miglia, entre os anos de 1927 e 1957, era conhecida como “a corrida mais bonita do mundo”. Renasceu como encontro de fãs de modelos vintage

POR Kike Martins da Costa 6 MIN

16 jun

6 Min

Viagem no tempo em cenário espetacular

POR Kike Martins da Costa

	

Na Itália, existe um ditado segundo o qual é gasolina, e não sangue, o que circula pelas veias dos moradores de Brescia, cidade na região da Lombardia e um dos pioneiros polos industriais do país. A paixão dos brescianos por veículos a motor: autos, motos e aviões, data do final do século XIX, quando alguns fabricantes começaram a se estabelecer na região. E, em 1921, foi lá, no circuito de Montichiari, a primeira edição do Gran Premio d’Italia, que no ano seguinte, 1922, foi transferido para Monza, nos arredores de Milão.

Sem o GP, dois brescianos ilustres – os jovens condes Aymo Maggi e Franco Mazzotti – decidiram organizar outra prova, igualmente grandiosa, mas não restrita a um autódromo. Nascia assim a Mille Miglia, que consistia em longo circuito de estrada, em forma de oito, que começava em Brescia, ia até Roma e retornava, totalizando algo em torno de 1.600 quilômetros, ou 1.000 milhas – daí o nome.

Limitada a modelos de produção em série, sem modificações, a primeira edição, em 1927, reuniu 77 duplas – todos italianos. O vencedor foi Giuseppe Morandi, com um OM (Officina Mechaniche, uma das fábricas sediadas em Brescia), que percorreu o circuito em 21 horas e 5 minutos, com velocidade média de 78 km/h.

Em seguida, a Alfa Romeo passou a dominar a competição vencendo 10 das 11 edições realizadas de 1928 até 1938, sendo superada somente pela Mercedes-Benz, em 1931. Porém, um grave acidente ocorrido na 12ª edição, em 1938, na qual faleceram 10 pessoas (sendo sete crianças) fez o governo italiano proibir a competição, que não foi realizada em 1939.

Os dirigentes brescianos não desistiram e a 13ª edição da Mille Miglia, realizada em 1940, foi disputada em um circuito menor ligando as cidades de Brescia-Cremona-Mantova, com 167 km de extensão. Para completar as mil milhas teve nove voltas.

Esta edição marcou a estreia de um novo fabricante: a Auto Avio Costruzione, de um certo Enzo Ferrari. Na ocasião, devido ao acordo de rescisão de seu contrato com a Alfa Romeo, ele ainda não podia utilizar o próprio nome. Mesmo assim, os dois primeiros protótipos construídos nas oficinas da Scuderia Ferrari, em Modena, logo se destacaram. Lideraram as primeiras voltas, mas abandonarem por problemas mecânicos, deixando a vitória para a BMW.

De 1941 a 1946, a corrida foi suspensa devido à Segunda Guerra Mundial. Em 1947 retornou na sua configuração original. A Mille Miglia, mesmo envolta em uma aura de alta competitividade e muito charme percorrendo algumas das paisagens mais belas do planeta, foi também uma das mais letais: de 1927 a 1957, causou a morte de 56 pessoas: pilotos, mecânicos e espectadores.

E uma nova tragédia ocorreu em 1957, na localidade de Guidizzolo, resultando em 11 mortes – incluindo o piloto espanhol, Alfonso de Portago e seu acompanhante, o jornalista americano Ed Nelson, além de cinco crianças que acompanhavam a corrida na beira da pista. Foi o fim da histórica competição.

Em 1977, o Automóvel Clube de Brescia resolveu ressuscitar a prova, mas em outro formato. Foi assim que a Mille Miglia “renasceu” como corrida de regularidade (semelhante a um rallye) reservada a veículos produzidos de 1927 a 1957, mas somente de modelos dos quais algum exemplar foi inscrito em uma das 24 edições da competição original.

A rota (Brescia–Roma-Brescia) é semelhante ao percurso das décadas de 1920 a 50, mantendo largada e chegada na Viale Venezia, em Brescia. Dividida em quatro etapas, passa por cidades como Milão, Ferrara, Ravenna, Roma, Siena, Bolonha e Parma. Além disso, tem uma série de eventos paralelos, como desfiles de moda, festas, missas e jantares.

A edição de 2019, realizada entre 15 e 18 de maio, reuniu 430 carros, incluindo 44 modelos Alfa Romeo, 35 Jaguar, 33 Fiat, 29 Mercedes-Benz, 29 Lancia e também modelos da BMW, Ferrari, Aston Martin, Porsche, Triumph e Maserati.

A dupla formada pelo médico Giovanni Moceri e o jornalista Daniele Bonetti foi a vencedora, a bordo de um Alfa Romeo 6C, de 1928. Na Coppa Delle Dame, categoria reservada às mulheres, Silvia Marini e Francesca Ruggeri venceram com um Aston Martin 1937. E, entre os pilotos profissionais, Romain Dumas foi o vencedor, com um Porsche 550A Spyder 1957.

A Mille Miglia já se consolidou novamente como evento importante para os fãs de automobilismo e aqueles que sabem apreciar a beleza das incríveis máquinas construídas no século passado. Mais do que uma simples corrida, é uma exaltação ao estilo de vida dinâmico e sofisticado, que mistura criatividade, tecnologia e design.

Sempre destacando essas palavras de ordem, o Automóvel CIube de Brescia promove todos os anos a lendária e histórica prova, que durante décadas foi considerada a “corrida mais bonita do planeta”. Nenhuma outra competição percorre paisagens tão arrebatadoras como as encontradas entre Brescia e Roma. E não estamos falando apenas de natureza, mas também de bucólicos povoados medievais, de obras arquitetônicas, de maravilhas artísticas e de outras belezas que só podem ser encontradas na Itália.

Um dos momentos mais especiais é o desfile de carros pela Via Veneto, um dos endereços mais badalados de Roma. A plateia, formada por “diesel freaks”, aficionados, colecionadores e turistas do mundo todo, vai à loucura com essa viagem ao passado proporcionada pela visão de automóveis antigos que misturam charme, glamour e esportividade.

Coordenada por profissionais jovens e cheios de energia, a empresa está se expandindo rapidamente e se transformando em uma marca global. Em 2018, por exemplo, o grupo promoveu em Washington, Carmel e Monterey, nos Estados Unidos, ações organizadas em parceria com a HVA (Historic Vehicles Association of America) para divulgar a corrida italiana e disseminar internacionalmente a paixão pelos carros antigos.

Os eventos, na realidade, serviram também para reforçar a identidade contemporânea da Mille Miglia, que funde modernidade com tradição. A ideia é que a marca funcione como embaixadora dos produtos Made in Italy, com essa mistura única de rica herança cultural, engenharia de ponta e apurado senso estético.

A propósito desse mix de tradição e modernidade, a Mille Miglia faz questão de deixar claro que não vive apenas de olho no passado, no retrovisor. Em setembro do ano passado, promoveu a primeira edição da Mille Miglia Green, a primeira corrida de endurance (resistência) especialmente concebida para carros elétricos e híbridos. O evento nasce para ser uma vitrine da inovação e do compromisso das empresas italianas dos setores energético e automotivo com a sustentabilidade.

Como não poderia deixar de ser, em se tratando de uma marca que cultua tanto os aspectos históricos da indústria automotiva, participaram do evento não só modelos atuais, mas também os carros vintage e protótipos produzidos anteriormente ao ano de 1990.

No centro desse projeto, fica Brescia, o polo industrial que nos últimos anos vem vivenciando uma bem-sucedida transição para a era das máquinas movidas a energia renovável e das cidades inteligentes. Paralelamente à corrida, a série de conferências Green Talk reuniu representantes de universidades, centros de pesquisa, fabricantes de veículos e empresas de energia para discutir o futuro da mobilidade.

E Milão, a capital financeira e industrial da Itália, também desempenhou um papel importante nesse evento. Promove uma experiência imersiva no futuro das soluções alternativas para a questão da mobilidade, não apenas exibindo protótipos, mas também permitindo que as pessoas façam test drives nos veículos elétricos.

Por fim, se você não tiver a oportunidade de passar por Brescia ou Milão na primavera do ano que vem (a próxima edição da Mille Miglia está programada para os dias 13, 14, 15 e 16 de maio de 2020), não se desespere: dá para ter uma boa amostra do espírito da prova visitando o Museu Mille Miglia, instalado no monastério beneditino de Sant’Eufemia della Fonte, edificado há dez séculos, no ano de 1008, nos arredores de Brescia.

O acervo da instituição reúne documentos, fotos e objetos relativos às 24 edições, além de vários modelos da época de marcas, como: Ferrari, Bugatti, Alfa Romeo, Lancia e Fiat. A entrada custa 8 euros. Ao percorrer a estradinha que leva até o museu, o visitante poderá sentir-se numa das 24 edições da Mille Miglia, passando por vinhedos, colinas verdejantes, campos de trigo e vilarejos que remetem à Itália do início do século passado. Buon viaggio!

 

 

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO