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11 jun

Uma jornada literária pelos territórios do amor e da cultura

POR Marcio Aquiles* 0 MIN

11 jun

0 Min

Uma jornada literária pelos territórios do amor e da cultura

POR Marcio Aquiles*

	

Tanto o título original, “Immigrant, Montana”, quanto sua tradução (adaptação) para o português, “Os Amantes”, revelam aspectos dos dois principais vetores que atravessam todo o romance de Amitava Kumar: os tópicos da imigração para os Estados Unidos de um jovem acadêmico vindo da Índia e suas peripécias amorosas no novo território.

Essas linhas narrativas assentam-se sobre o plano quase infinito da teoria, principalmente dentro do panorama dos estudos culturais, do pós-colonialismo e da pesquisa etnográfica. Menções, citações e/ou histórias relativas a notáveis pensadores, sobretudos expoentes de algumas dessas correntes, como Bhabha, Said e Hall, pipocam no texto junto com Chomsky, Barthes e companhia, deixando claro o campo de estudo do pós-graduando.

A discussão sobre alteridade aparece com força no livro, seja em autoironias cínicas – o narrador Kailash que é chamado de AK-47 por alguns dos novos colegas – ou na reflexão séria sobre o olhar para e o ser olhado por uma cultura estrangeira. Com sofisticação, o volume expõe esse complexo mecanismo social pelas vias ontológica e relacional.

A perspectiva da alteridade em relação a questões de gênero, contudo, não tem a mesma riqueza, haja vista que temos uma ótica visivelmente masculina e restritiva, em certos pontos. Não que se exija um suposto ponto de vista universal; em primeiro lugar porque isso é impossível, em segundo por termos um narrador homem retratando seu amadurecimento emocional e intelectual, e, finalmente, por o autor ter a liberdade de adotar o ângulo que mais lhe convenha. Entretanto, os sucessos e seduções do protagonista tais quais suas descobertas desajeitadas no reino da sexualidade talvez tenham, para leitoras, uma visão male-oriented demais, quase naifmesmo para o universo referencial do narrador, espécie de alter ego do autor, com seu lugar de fala bem delimitado estruturalmente.

Se o ritmo da vida universitária é lento (aulas, leituras, jantares), o mesmo não se pode dizer da cadência da narrativa. São muitos acontecimentos que surgem à tona entrelaçados: lembranças, histórias verídicas e ficcionais de personagens reais ou inventados, e ponderações metafísicas entrecruzam-se em alta velocidade; são várias geografias – Estados Unidos, Índia, China – unidas pela distância de um parágrafo. Essa marcha frenética é mais um dos signos recorrentes da dita pós-modernidade literária presentes no livro de maneira aguda, assim como as notas de rodapé abundantes, fotografias e colagens que adentram o corpo do texto, epígrafes constantes, e por aí vai.

Seguindo a tradição na qual Enrique Vila-Matas, na prosa, e Matéi Visniec, no drama, por exemplo, são genuínos representantes, Amitava Kumar recorre à intertextualidade em máxima potência como dispositivo para retratar a realidade polissêmica da experiência moderna e contemporânea. Em nota no final do livro, ao autor afirma que “este romance é sobre o amor”. Certamente o prisma afetivo salta aos olhos, mas não apenas, pois o sentimento, na obra, transcende à cultura e à humanidade, em todas as suas acepções.

*Marcio Aquiles é escritor, crítico literário e teatral, autor dos livros “A Odisseia da Linguagem no Reino dos Mitos Semióticos”, “O Eclipse da Melancolia”, “O Amor e outras Figuras de Linguagem” e “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário”, entre outros.

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