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Um país tão cheio de segredos que é quase uma matéria investigativa

Saí da zona de conforto para conhecer as maravilhas e as particularidades de um destino praticamente desconhecido para o Ocidente. A Arábia Saudita, um dos países mais fechados do mundo, tem personalidade forte, mas pode ser uma grata descoberta para quem está de mente aberta para conhecê-la

POR Mariana Gentile, de Riad 9 MIN

22 jun

9 Min

Um país tão cheio de segredos que é quase uma matéria investigativa

POR Mariana Gentile, de Riad

	

Quando avisei familiares e amigos do meu próximo destino, todos reagiram com surpresa. “Por que vai para lá? Mas você pode sequer viajar para esse país?” Estes foram alguns dos questionamentos compreensíveis que recebi, dado o histórico de turismo na Arábia Saudita. Até outubro de 2019 somente visitas religiosas, a negócios ou para visitar a família eram permitidas no país. A abertura recente para o turismo é parte da estratégia do jovem príncipe herdeiro Mohammad bin Salman de diversificar as fontes de renda da Arábia Saudita, além de modernizar alguns costumes. O país é uma monarquia absoluta teocrática, seguindo os ensinamentos do Corão de forma rígida. Não existe liberdade religiosa e as mulheres ainda têm muito menos direitos que os homens, apesar de terem feito alguns progressos importantes nos últimos anos. O mais recente deles é que elas agora podem se divorciar dos maridos, mesmo que eles não apareçam nas audiências de divórcio (o que até três meses atrás inviabilizava a separação). Já podem dirigir e viajar sem autorização necessária de um homem da família. Para nós parece pouco, mas para as mulheres sauditas são liberdades importantes.


Antes de ir, ouvi várias recomendações sobre como me comportar/me vestir; me contaram dezenas de histórias de terror de “alguém que conhece uma pessoa que…” Mas também li em fontes confiáveis sobre a experiência de quem já lá esteve e fui atrás das recomendações oficiais do governo Saudita para turistas. O fato é que para embarcar nessa viagem tive de me despir de todos os meus pré-conceitos. Abrir a mente e espírito para a o desconhecido e desapegar de verdades dantes consideradas absolutas. E mesmo com todo o preparo, confesso que cheguei apreensiva.

Já estive em muitos países de maioria muçulmana, mas aqui senti o impacto logo na chegada ao ver a grande maioria das mulheres usando um niqab (véu que cobre quase todo o rosto, deixando apenas os olhos a mostra). Em países como Emirados Árabes, a maioria das mulheres usa o hijab, que cobre apenas os cabelos. Como turista precisei seguir algumas regras de vestuário, como não mostrar os ombros e joelhos e usar roupas largas, mas pude andar com os meus cabelos soltos ao vento.

A primeira parada foi Riad, maior cidade e capital do país. Ao chegar ao hotel, outro choque. Foi a primeira vez, em mais de 60 países visitados, que meu passaporte não foi necessário para o check-in, somente o do meu marido. Antes da abertura para o turismo, um casal só podia ficar no mesmo quarto com provas de que eram casados. Isso mudou, mas o fato de não pedirem minha identificação diz muito sobre a posição da mulher na sociedade. No primeiro dia na capital, fomos a um dos diversos centros comerciais da cidade comprar algumas coisas básicas para a viagem. Já era final de tarde e percebemos a grande maioria das lojas com as portas fechadas, apesar das placas indicarem que tudo ficava aberto até às 23h. Vimos pessoas sentadas no chão esperando que tudo reabrisse.

Logo descobrimos que era a hora de uma das cinco rezas diárias e, por isso, todo o comércio fecha durante pelo menos vinte minutos nestes períodos. Havíamos ouvido o chamado para a reza ao sair do táxi, mas não fazíamos ideia de que tudo estaria fechado. Nos shoppings, todas as lojas e restaurantes que estamos habituados a ver pelo mundo: de Victoria’s Secret ao The Cheesecake Factory.

No dia seguinte fomos conhecer a vila de Ushaiqer, originalmente contruída por beduínos há mais de 1500 anos e que mantêm sua arquitetura original conservada. O silêncio era tanto que meus passos secos agrediam os ouvidos e até mudei minha forma de caminhar. As paredes têm tons terrosos com detalhes em branco suntuosos e pareciam estar emolduradas por palmeiras.

E foi ali, nas vielas de uma aldeia milenar, somente ao som de uma leve brisa fria que ouvi nosso guia Badr falar sobre a sua religião. Ele me contou de uma fé em que até o “Olá” (“Salaam Aleikum” como dizem) quer dizer “A paz esteja com você.” Falou sobre a sensação de tranquilidade ao realizar as cinco rezas diárias. Lamentou a imagem contrária que muitos estrangeiros têm da religião. Me emocionei com a paixão dele ao descrever como aquela crença o conforta. Foi também ali que ouvi pela primeira vez sobre as mulheres do país. Contou sobre a mulher: “Ela é minha rainha. Agradeço a Deus todos os dias por a ter encontrado.” Ela tem a opção de trabalhar, mas prefere ficar em casa e cuidar dos filhos. Que tem a opção de andar descoberta, mas se sente melhor escondida pelo naquib. Que tem a opção de tirar a carta de motorista, mas prefere continuar usando o motorista que mora com eles. Que foi a mãe dele que apresentou, afinal, homens e mulheres não convivem juntos, nem nas escolas, nem nas universidades, nem nos restaurantes e nem no trabalho…

A volta de Ushaiqer nos presenteou com uma vista das dunas vermelhas num aparente bailado ao pôr do sol, mudando de cor a cada movimento do sol. Paramos para caminhar na areia já fria e tomar um tradicional café arábico com doces tâmaras. O jantar foi em um restaurante típico, que mantém a separação de andares para famílias e solteiros (somente homens sozinhos). Nosso andar era composto por várias salas fechadas, onde fomos servidos e provamos um prato tradicional Kabsa (frango cozido com arroz de açafrão) e as mulheres das famílias podem tirar o niqab e comer com mais conforto.

Decidimos fazer um passeio noturno pelo centro antigo de Riad para conhecer o forte e o mercado, que é um deleite para os sentidos. O cheiro fresco de especiarias se mistura com o aconchego do odor de madeira queimada. A cada loja um cumprimento, um convite a entrar e um sorriso.

A última parada foi a falésia chamada “Edge of the World”, a apenas uma hora e meia do centro da cidade. Chegamos ao final do dia, o sol já estava baixo e todos procuravam um bom lugar para ver o entardecer. Eu ainda me aventurei, com ajuda, a sentar na beira do Edge of the World, mas não recomendo para quem sofre de vertigem. Observar a paisagem de longe já faz valer a viagem.

Nosso próximo destino era Jeddah, e toda a experiência de pegar um voo doméstico na Arábia Saudita foi diferente. No aeroporto havia fila de segurança separada para mulheres, com uma sala fechada para passar pelo “raio x” e revista. Inclusive, no último aeroporto que passamos na viagem ainda se via placas de sala de espera separadas para mulheres expatriadas. As salas já estavam desativadas, mas era mais um atestado da separação rígida que existia em um passado não tão distante.

Antes do avião decolar, logo após o vídeo de segurança, passam uma reza muçulmana para proteção dos viajantes, que dura cerca de dois minutos. Não servem bebidas alcoólicas, visto que é substância absolutamente proibida no país (sim, inclusive para turistas e expatriados) e durante o voo avisam quando estamos próximos de uma terra santa, como Meca.

Jeddah, um antigo porto de comerciantes e porta de entrada para Meca, é a cidade das misturas. Ao longo dos séculos milhares de muçulmanos de diversas nacionalidades ficaram na cidade gerando uma pluralidade. Dizem, inclusive que é das cidades mais “abertas” da Arábia Saudita.

Mas mesmo assim a ida para Jeddah me gerou muita ansiedade. Lá iriamos encontrar com o Mohammed, amigo do meu marido que é religioso, conservador e ele não via há 20 anos. Comprei uma abaya (uma espécie de robe longo fechado para colocar por cima das roupas) por recomendação do Mohammed e ele adiantou que não poderia me cumprimentar, nem com um aperto de mão. Ele é proibido de encostar ou ficar sozinho em ambientes fechados com outras mulheres com exceção, claro, a sua mãe, esposa e filhas.


O Mohammed foi nos buscar para conhecer o centro histórico acompanhado de sua mulher e filha mais velha, e 18 anos. Considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, a principal característica dos prédios é o uso da mashrabiya, varandas de madeiras entrelaçadas para assegurar não só a ventilação, como também a privacidade das famílias. Com essa proteção, as mulheres podem andar mais à vontade dentro de casa e ver o movimento da rua. Entramos em algumas casas antigas que viraram museus para entender como era a rotina da família tradicional. Já no final do passeio, ouvimos o já conhecido chamado para a reza e o Mohammed avisou que ele e a família iriam rezar. As mulheres entraram em uma “casa-museu” e ele foi até uma mesquit próxima. E tudo fechou novamente.

No dia seguinte, almoçamos na casa do Mohammed. Conhecer sua casa e ter a oportunidade de conversar com sua mulher e filhos de diversas idades foi das experiências mais enriquecedoras e transformadoras dessa viagem. Conhecemos as diferentes divisões onde recebem visitas de mulheres e outra para homens. Demos risada com os filhos adolescentes e a filha mais nova, de sete anos que quer ser youtuber para desespero da mãe (#estamosjuntas). E também conversei muito com a mulher e filha mais velha sobre tradição. Elas, apesar de terem morado nos Estados Unidos por dois anos, gostam e valorizam os costumes. Respeitam outras escolhas, mas elas querem estar cobertas porque é assim que se sentem mais confortáveis. Querem que as escolas e universidades mantenham a separação entre homens e mulheres. Acordam antes do céu nascer para fazer a primeira reza do dia e se sentem culpada se perderem alguma. Gostam da serenidade que a religião traz para a família. Isso fez e faz parte da criação delas, toda a vida gira em torno da religião.

E foi desse entendimento que surgiu o meu mais profundo respeito pela forma como vivem. Posso escrever um livro sobre a razão pela qual é assim, mas o fato é que a religião prega a paz e se funde com a rotina diária desde muito cedo. E vindo de uma cultura muito diferente, muita coisa parece difícil de aceitar. Mas se tem uma convicção que aprofundei nessa viagem: é de que é preciso respeitar. A última etapa da viagem foi para conhecer Madain Saleh, tumbas da civilização Nabatéia, que tinha Petra como sua capital. Ainda sem as multidões que estamos habituados a ver em lugares históricos, Madain Saleh é uma espécie de oásis turístico. Situadas no meio do deserto na região de Al ula, as tumbas da civilização que ali viveu há 2500 anos estão muito bem conservadas. As inscrições antigas contam a história de um povo comerciante, que encontrou uma fonte de água no meio do deserto e se estabeleceu para vender especiarias consideradas sagradas na época

Ao redor, as formações rochosas lembram um cenário de um filme passado em outro planeta. As rochas tomam, naturalmente, formas tão diferentes que fazem uma competição anual para dar nomes “oficiais” a elas. Nós visitamos várias, inclusive a mais famosa delas, a Elephant RockConheci só uma parte deste país enorme e espero voltar. O povo é dos mais receptivos que já conheci e, em geral, estão muito animados em receber turistas estrangeiros. Para mim, foi um equilíbrio perfeito entre beleza natural, história e cultura. Mas é certo que vivenciar uma cultura tão diferente do que estamos habituados não é tarefa simples. Mas com certeza é algo que vale a pena.

DICAS QUENTES

Como chegar

Não existem voos diretos do Brasil para a Arábia Saudita. A melhor opção é voar com a Emirates, via Dubai, e de lá pegar um voo para Riad. Outra boa alternativa é voar via Londres, com a British Airways, e depois para o país.

Documentos e vacinas

Para solicitar qualquer tipo de visto na Arábia é necessária a carteira internacional de vacinação e ter a comprovação da vacina de febre amarela, e em algumas regiões do país também é exigido a vacina de meningite.

É necessário passaporte com, no mínimo, 6 meses de validade e ao menos duas páginas em branco.

Qualquer cidadão com o passaporte contendo o visto ou carimbo de Israel, ou ainda, carimbo das fronteiras do Egito ou da Jordânia (sugerindo que o viajante entrou ou saiu de Israel), pode ter sua entrada no Reino da Arábia recusada.

Mulheres abaixo de 30 anos não podem entrar no Reino desacompanhadas.

O turismo é um dos principais pontos de um ousado programa de reformas chamado “Visão 2030”, criado pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que estudou no exterior e visa preparar a economia do país para a era pós petróleo. A expectatita é que, até 2030, o turismo seja responsável por até 10% do PIB. Para obter o visto: visa.visitsaudi.com

Idioma oficial e moeda

O idioma oficial é o árabe.
A moeda é o Rial Saudita (SAR).
1 Ral = R$1,32

Onde ficar

Riad
Four Seasons Hotel Riyadh: um dos mais luxuosos da cidade fourseasons.com/riyadh/

Hyatt Regency Riyadh Olaya: ótima opção na capital. hyatt.com

Jeddah
Rosewood Jeddah. A arquitetura mescla o design moderno com itens da estética árabe. rosewoodhotels.com/en/jeddah

Park Hyatt Jeddah, Marina Club & Spa: um resort completo, tanto para quem viaja a negócios como a lazer. Tem um spa surpreendente. hyatt.com

*Mariana Gentile é brasileira e mora em Lisboa. Trabalha como headhunter e apresenta o programa “O Meu
Álbum de Viagens” em um canal digital português chamado Womanize (womanize.pt), com conteúdo para
mulheres. Apaixonada por viagens, conhece 60 países. @ma_gentile

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