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09 abr

No rastro de cores e verbos selvagens

Romance gráfico de Wagner Willian é ótima pedida para tempos de quarentena

POR Marcio Aquiles 5 MIN

09 abr

5 Min

No rastro de cores e verbos selvagens

POR Marcio Aquiles

	

Um ermitão no encalço de um extraordinário animal. Assim começa “Silvestre”, romance gráfico de Wagner Willian. Taciturno, imerso na mata, rodeado de animais selvagens, o velho fareja sua caça. E o leitor sente cheiro de clichês que talvez se avizinhem dos lugares-comuns de tantas fábulas do gênero, em que o homem, seja herói ou antagonista, enfrenta a natureza indomável.
Esse ambiente idílico, contudo, rapidamente se transforma num território mitológico, espaço transcendental onde o refugiado, suas memórias e seres folclóricos transitam pelas mesmas veredas. De volta à sua choupana, ao preparar a torta de restos que a esposa costumava fazer, atrai bichos vertebrados e espíritos nômades, seres ancestrais e criaturas etéreas. Estão lá Cuca e Curupira, ao lado de entidades de matriz ameríndia e africana, em referências explícitas, obscuras, eruditas e/ou populares, todos agregados num universo psicodélico em vias de transe. Os personagens, misturados numa esbórnia etílica, celebram suas existências nessa floresta semiótica.
Visualmente, “Silvestre” é de uma sofisticação ímpar. A composição dos quadros e a harmonia de cores e texturas são frutos de um senso estético aprimorado. Idem para o acabamento do exemplar, publicado pela Darkside Books. O livro extrapola o conceito de romance gráfico; especialmente para colecionadores de edições especiais, é quase um objeto de design. Diz a lenda que, além de nanquim, pintura a óleo, lápis e óxido de ferro, o autor teria usado até seu próprio sangue – expelido num acidente doméstico – para colorir essa obra visceral.
No aspecto textual, a narrativa é bem direta, com bons usos de aliterações e outros recursos poéticos. É uma obra forte, com signos linguísticos e imagéticos cuidadosamente elaborados, uma ótima dica de leitura para a quarentena.

 

Marcio Aquiles é escritor, crítico literário e teatral, autor dos livros “O Eclipse da Melancolia”, “O Amor e outras Figuras de Linguagem”, “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário” e “Delírios Metapoéticos Neodadaístas”, entre outros.

 

Serviço:

Silvestre (2019)
Wagner Willian
Darkside Books, 192 págs., R$ 69,90

	
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