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Uma aventura tão extrema que a temperatura negativa foi o menor dos desafios

Aventureiro do extremo e reconhecido como o maior explorador do planeta nos dias de hoje, o sul-africano Mike Horn vive no limite. Sua mais recente empreitada foi atravessar em 88 dias o Oceano Ártico congelado pelo Polo Norte, na última etapa da expedição Pole2Pole

POR Vivian Monicci 11 MIN

03 jun

11 Min

Uma aventura tão extrema que a temperatura negativa foi o menor dos desafios

POR Vivian Monicci

	

O topo do mundo, o nada absoluto. Tudo é branco, tudo é gelo. Quilômetros intermináveis de uma paisagem onde a cor do céu se mistura com o oceano congelado. Um lugar puro, onde é possível escutar o som do silêncio. Um frio extremo, uma escuridão assustadora. Se já parece tarefa impossível passar um dia em um lugar assim, imagine passar quase três meses, driblando a morte. Só para malucos, certo? Ou para aqueles que sentem um prazer enorme em desbravar os locais mais remotos do mundo.

Não é nenhum segredo que o aquecimento global está transformando o nosso planeta para pior. Com as queimas desenfreadas de carvão, petróleo e gás, que liberam CO2 na atmosfera, os bilhões de metros cúbicos de gelo existentes no globo estão derretendo em ritmo acelerado, o que desequilibra os ecossistemas em efeito dominó. Mesmo com as notícias alarmantes que vemos todos os dias nos veículos de comunicação, tal fenômeno parece ser algo ainda distante, numa escala de milhares de anos. Mas não é.

Essa mudança climática está sendo observada de perto por Mike Horn. Reconhecido mundialmente como o maior explorador do planeta da atualidade, o sul-africano de 54 anos – viúvo de Cathy e pai de Annika, 27, e Jessica, 26 – faz jus ao seu apelido de “aventureiro do extremo”. Há 30 anos, ele tem como missão de vida desbravar os locais mais inóspitos e desafiadores da Terra, e já contabiliza 11 expedições no currículo. Entre suas façanhas, cruzou sozinho o rio Amazonas, da nascente nos Andes até a foz no Pará; circum-navegou o globo sem motor pela linha do Equador; percorreu a pé 20 mil quilômetros pelo Círculo Polar Ártico; e escalou sem suprimento de oxigênio duas das mais altas montanhas do Himalaia.

Em 2015, no Yacht Club de Mônaco, ele deu início à expedição Pole2Pole, que tinha como objetivo circum-navegar o globo pelos polos Norte e Sul. A rota da primeira parte do projeto, feita a bordo de seu veleiro Pangaea (pronuncia-se panjéa) – barco construído no Brasil, de 35 metros, dois mastros e 600 m² de área vélica, considerado o 4X4 dos oceanos – foi a seguinte: Mônaco, Namíbia, delta de Okavango (Botsuana), Cidade do Cabo (sua terra natal, África do Sul), Cabo da Boa Esperança e, finalmente, Antártica. “Minha tripulação me deixou no continente polar e comecei minha travessia solo e sem assistência pelo Polo Sul, de costa a costa. A viagem durou 57 dias, durante os quais percorri mais de 5.000 km em linha reta. Para percorrer grandes distâncias em curtos períodos de tempo, usei parakite para me tracionar. Em fevereiro de 2017, concluí minha expedição e pude enfrentar meu próximo grande desafio: a travessia do Ártico pelo Polo Norte com meu amigo e colega explorador polar Borge Ousland”, relembra Horn em entrevista exclusiva à TOP Destinos. Antes de iniciar de fato a aventura, Horn precisava ir do Sul para o Norte com seu barco Pangaea. Ao longo da jornada, parou na Nova Zelândia, Austrália e Ásia e, no verão de 2019, chegou ao ponto de partida para a grande travessia do Ártico e última etapa da expedição Pole2Pole: o porto de Nome, no Alasca.

A parceria com o norueguês Borge, de 57 anos, não é de agora. Em 2006, os dois embarcaram juntos em uma expedição do Polo Norte e se tornaram os primeiros homens a desbravar a região durante o inverno e na escuridão total. A amizade perdurou e, 13 anos depois, se prepararam para encarar o novo desafio juntos. Talvez você esteja se perguntando: como uma pessoa se prepara para esse tipo de viagem? Para Horn, a questão não é como, mas sim quanto. Para encarar um desafio desses, é necessária uma vida inteira como explorador profissional, já que você vai aprendendo com as experiências e adquirindo conhecimento ao longo dos anos. “Cada vez que eu faço algo desconhecido e novo, leva tempo para eu me preparar e aprender sobre o ambiente, as pessoas, o clima. E isso pode variar de uma semana a um ano. Minhas expedições passadas são parte da minha preparação”. E como lidar com o frio extremo? “Ao contrário do que pensam, você não sente muito frio se estiver vestido da forma correta. Anos de experiência nesses tipos de ambientes me ensinaram sobre a importância do uso de tecidos naturais (lã e peles) e camadas adequadas. Depois de passar muito tempo no frio, seu corpo começa a se acostumar.”

O sucesso da travessia do Oceano Ártico congelado pelo Polo Norte dependia exclusivamente de um fator: a quantidade de gelo na região após o verão. Do início ao fim, eles estimaram que deveriam percorrer a pé e com o auxílio de esquis cerca de 1.666 km em linha reta. Se houvesse muito gelo no oceano, o barco não conseguiria navegar e deixá-los na latitude ideal para que pudessem começar a viagem a pé. Com isso, teriam que percorrer uma distância maior e o alimento acabaria antes que pudessem concluir a expedição. Ao mesmo tempo, se o gelo estivesse muito fino, eles teriam muita dificuldade para andar na superfície, o que tornaria a caminhada um pesadelo – como se o simples fato de cruzar o Ártico já não fosse aterrorizante o bastante.

Após zarparem do Alasca a bordo do Pangaea, em setembro de 2019, navegaram por duas semanas pelo Estreito de Bering, no Oceano Ártico, e alcançaram a tão desejada latitude de 85°N, a 555 km do Polo Norte, onde foram deixados no gelo pela tripulação. “Se conseguimos chegar ao extremo Norte com meu barco, é porque o Ártico está derretendo a uma velocidade impressionante. Chegar a essa posição há apenas dez anos seria impossível. O fato de o Pangaea agora ser o veleiro que se aventurou o mais próximo do Polo Norte sem o apoio de um quebra-gelo deve servir como um lembrete de como nosso mundo está mudando rapidamente, especialmente no Norte”, contou Horn em seu Instagram.

A princípio, a aventura deveria durar dois meses. Porém, já de olho nas mudanças climáticas, os parceiros decidiram levar mais comida para o caso de algum imprevisto pelo caminho. Dito e feito. Apesar de imaginarem que o aquecimento global estaria acarretando graves consequências no Ártico, os dois não tinham a noção exata da dimensão. Apenas a olho nu puderam concluir que sim, o gelo está derretendo muito mais rápido do que o previsto e que as mudanças são drásticas.

Os primeiros dias em solo foram difíceis. O gelo fino e frágil impedia que a dupla esquiasse com confiança e, assim, tinham que usar botes infláveis para percorrer os trechos de água. A cada remada, uma torcida para que a temperatura caísse e a água congelasse. Além das dificuldades climáticas, outro fator que atrasava o percurso era o peso que carregavam: cada um deles arrastava 180 kg divididos em dois trenós.  Ou seja, mais de 360 kg para locomover no gelo prestes a quebrar. Devido ao peso excessivo e às condições desfavoráveis, em vários momentos tinham que puxar um trenó por vez, ir e voltar apenas para avançar alguns passos.

A rotina era sempre a mesma: acordavam, tomavam algo quente no café da manhã, empacotavam a barraca e os trenós – processo que levava 30 minutos – e começavam a andar às 6h. Caminhavam por volta de 90 minutos e faziam uma primeira parada de dez minutos, em que aproveitavam para sentar nos trenós e comer suas rações diárias.

A cada parada, um deles assumia a liderança e esse processo se repetia por sete ou oito horas todos os dias. Porém, a temperatura mais elevada do que o previsto – cerca de -7°C – dificultava tudo. Às vezes, iniciavam em gelo sólido, mas assim que atingiam o meio, ele era fino e fraco, o que impedia que continuassem. Caso dessem um passo a mais, as consequências poderiam ser mortais: o gelo quebraria e eles poderiam não ter a chance de sair da água antes que seus corpos congelassem. Abaixo de seus pés, havia 3.000 metros de água com temperatura negativa. “Tínhamos duas vidas: uma fora da barraca lutando contra os elementos para progredir, e a segunda, dentro da barraca, nos alimentando, cuidando de nossos ferimentos, consertando os equipamentos e descansando um pouco. E por um total de 88 dias, colocamos essas duas vidas em rotação.”

Nesse início da jornada, ainda não tinham avistado nenhum urso polar, mas encontraram focas e pássaros, o que indicava que os reis do Ártico não poderiam estar muito longe. Uma zona de solo mais firme é o ambiente perfeito para que os ursos apareçam e façam a festa. Se eles tinham alguma dúvida, pegadas frescas no chão confirmaram. Pelo tamanho enorme e padrão em ziguezague, chegaram à conclusão de que pertenceriam a um macho em busca de comida. E o pior: magro e, provavelmente, desnutrido. Não poderia haver perigo maior para eles! Impossível dormir, era necessário vigilância.

Até então, Horn e Borge tinham o sol para acompanhá-los. Entretanto, conforme os dias passavam, eles se aproximavam do Polo Norte e de mais um obstáculo: não teriam mais luz solar por cerca de seis meses. Conclusão: continuariam a travessia na escuridão total e com temperaturas mais baixas. À medida que avançavam, também encontravam mais pegadas de ursos. De acordo com Horn, há alguns anos era incomum encontrar pegadas tão ao Norte, mas, agora, por conta do aumento de água no Sul, os animais são obrigados a migrar para a região para sobreviver. Se alcançarem o Polo, não terão mais para onde ir, o que será letal. Até o término da expedição, não conseguiram avistar nenhum urso.

Tempestades de neve impossibilitavam a visão e as armadilhas da região pioravam tudo. O progresso era lento e, muitas vezes, desanimador. Mas, como o próprio Horn disse, ter algum progresso é melhor do que nenhum. Em meio à nevasca, tinham que dobrar a atenção, remar sobre pistas meio congeladas e passar por cima de obstáculos de gelo. Para atravessar as pistas, adotaram um novo método de rastejar: ao deitar e dividir o peso de cada um sobre uma superfície maior, diminuíam as chances de romper o gelo. Apesar de ser extremamente cansativo e de esfriar seus corpos rapidamente por conta do contato direto com o gelo, era mais seguro do que arriscar cair na água. Nunca desistiam e tinham fé de que dias melhores viriam. “Não é uma tarefa fácil atravessar a neve espessa enquanto puxa trenós pesados. Eu acho que isso é parte da razão pela qual uma expedição como essa nunca foi feita antes. Mas condicionamos nossa mente a encontrar prazer no sofrimento. Todo dia vivo é um bom dia”, contou Horn em sua rede social.

 

Após cerca de 20 dias de viagem, chegaram na latitude de 88°N, a pouco mais de 200 km do Polo Norte, e tiveram mais uma surpresa alarmante: parecia não haver mais gelo sólido no Ártico – cenário muito diferente de quando foram à região em 2006 –, especialmente onde ele já deveria estar bem mais consistente. De volta à barraca, ingeriam uma média de 5 a 6.500 calorias por dia para compensar o frio intenso. Grande parte do sucesso da expedição dependia de uma alimentação adequada. Em relação à bebida, derretiam o gelo e a neve para transformar em água, mas tomavam cuidado pois poderia conter sal, já que era água do mar congelada.

Nesse ponto da jornada, os companheiros começaram a entrar no modo de sobrevivência: conversavam menos e agiam mais; apreciavam menos a paisagem e focavam nos próximos passos ou ameaças; sentiam mais cada queda de temperatura e o vento; sabiam as condições exatas do gelo sem tocá-lo; seus sentidos ficaram mais aguçados; a força mental superou a força física; a única preocupação era não desperdiçar a energia e seguir na direção correta. “No Ártico, desenvolvi o instinto de um animal, cujo único objetivo é sobreviver. Quando você se encontra em um ambiente tão extremo, em um equilíbrio constante entre a vida e a morte, não pode se deixar levar por medos. Lá em cima, no grande Norte, se você não anda, você morre… é simples assim. A vontade de vencer sempre deve ser maior do que o medo de perder, e isso lhe dá a disciplina necessária para continuar. Nunca se dê muitas opções. Lá, eu me dei uma opção: voltar para casa vivo!”.

Aos poucos, adentravam uma zona de gelo mais sólido, o que ajudaria na travessia. Mesmo assim, tinham que dormir em um estado constante de alerta para evitar que uma tempestade quebrasse o gelo ao redor e eles acordassem no meio da noite flutuando em um bloco no mar. A distância cada vez menor em relação ao Polo Norte também trazia consequências como dias mais frios (temperaturas por volta de -38°C) e nublados, e noites mais longas e escuras.

O final do primeiro mês trouxe consigo a maior vitória: a tão sonhada chegada ao Polo Norte. “O cansaço não dura para sempre, mas a alegria que se segue a essa realização pessoal viverá para sempre. São as experiências e as emoções pelas quais passamos que agregam valor às nossas vidas – portanto, nunca pare de viver uma vida cheia de experiências e emoções”, compartilhou em seu post comemorativo no Instagram. Com os trenós mais leves e a comida acabando, o próximo objetivo agora era ir o mais longe possível em direção ao Sul, a caminho da Noruega, onde o veleiro Pangaea estaria esperando para levá-los de volta para casa.

O tempo, agora, era um inimigo mortal. As dificuldades diárias cada vez mais pesadas por conta do frio e dos ventos constantes que os empurrava de volta ao Norte estavam atrasando o processo. Cada quilômetro não percorrido significava dias a mais de caminhada e, por consequência, dias a menos de comida. A travessia já completava dois meses e Mike e Borge estavam exaustos física e mentalmente. Apesar de seguirem com a mesma garra e determinação, o ambiente não ajudava. Certo dia, o gelo muito fino quebrou sob os pés de Mike, que caiu na água. Ele só está vivo contando essa história pois conseguiu subir muito rapidamente no bote. Para piorar tudo, após 80 dias, o trenó de Borge quebrou. Eles não tinham escolha a não ser consertar para terminar a expedição. Para poder reparar, teriam que deixar de caminhar e de descansar, o que significava dias a mais de viagem.

Diante de tantos contratempos e da falta de comida, eles não conseguiriam alcançar a tempo o Pangaea na latitude desejada de 80°N, momento em que teriam completado 1.600 km em linha reta, do início ao fim. A um progresso diário de 15 km, muito menos do que esperavam, eles conseguiram cobrir apenas 1.300 km em linha reta e chegaram na posição de 82°56’N. Ou seja, ainda faltavam 300 km para o Pangaea, mas eles só tinham comida para mais três dias. Não havia outra alternativa senão bolar um novo plano de ação. Como queriam terminar a expedição da mesma forma que começaram – de barco -, conseguiram a ajuda do Lance, um navio de gelo norueguês maior do que o Pangaea, que os buscaria na latitude de 82°N. Portanto, a dupla teria que caminhar mais 90 km para chegar ao destino final. Para ajudar nessa empreitada, dois exploradores noruegueses amigos de Borge, e que estavam a bordo, saíram do Lance e caminharam na direção deles levando comida extra. Enquanto isso, o Pangaea estava no porto de Longyearbyen, em Svalbard, pronto para navegar ao Norte para encontrar o Lance em Tromsø, resgatar os companheiros e levá-los de volta a Svalbard.

Foram 88 dias extremos e intensos, sendo 57 deles na escuridão total do Ártico. Mas eles conseguiram – e com muito louvor. “Era 30 de dezembro de 2019 quando nós finalmente chegamos em terra firme, após quatro meses, na adorável cidade norueguesa de Tromso. Foi naquele exato momento que as sensações de alívio, conquista e satisfação tomaram conta de mim, e eu me senti privilegiado de ter vivenciado uma aventura tão intensa”, finalizou Horn.

 

Saiba mais

Descobertas, aprendizados e dificuldades

“Devido ao fato de o Ártico não ser um continente, mas simplesmente gelo sobre o oceano, não há muito a descobrir por causa de sua paisagem monótona e ambiente frágil. Há uma quantidade muito pequena de espécies vivas em comparação com outros cantos do globo, portanto, nesse sentido, não é realmente uma descoberta. Mas o que descobri foram as mudanças drásticas neste ambiente frágil e suas consequências globais. Eu não havia percebido que as mudanças estão acontecendo de forma tão rápida. Fiquei muito surpreso por não ver um único urso polar em 88 dias enquanto esquiava no gelo. O gelo fino ao redor do Polo Norte era muito mais fino que o esperado, o que leva a um aumento de trechos em mar aberto. E uma ocorrência que me deixou completamente perplexo foi testemunhar chuvas no Polo… As variações de temperatura eram muito drásticas. E o maior teste para mim foi permanecer disciplinado no frio extremo e na escuridão total.”

A próxima expedição

“Gostaria de escalar a face norte do K2, o segundo cume mais alto do mundo, pelo lado chinês. Eu também gostaria de voltar à Groenlândia para escalar, esquiar e explorar sua costa leste. No entanto, uma coisa é certa: não embarcarei em outra grande expedição como a Pole2Pole em breve. Penso que a maioria das minhas novas aventuras será de curto prazo a partir de agora.”

Mike Horn no Brasil?

“Tenho interesse no Pantanal, as terras alagadas de Mato Grosso. O que me intriga a respeito dessa área são os vários ecossistemas a explorar.”

+infos:

mikehorn.com

@mikehornexplorer

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