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Profissão: Maestro João Carlos Martins

Chamado de “O Indomável” pelo New York Times, o mundialmente conhecido maestro brasileiro agora se impõe um novo desafio: voltar a tocar piano graças às luvas biônicas que lhe devolveram não só os movimentos dos dedos, mas sua grande paixão. “A regência mudou minha vida, mas a minha terapia se dá no piano”

POR Rodrigo Grilo  Fotos Gustavo Lacerda 5 MIN

26 Maio

5 Min

Profissão: Maestro João Carlos Martins

POR Rodrigo Grilo  Fotos Gustavo Lacerda

	

“Você não quer me ver tocar, não?”  Foi assim que João Carlos Gandra da Silva Martins deu por encerrado o papo com a TOP Magazine. A interpelação, no momento em que se encontrava praticamente estirado no confortável sofá da sala de seu apartamento projetado de forma a lembrar um piano de cauda, poderia soar estranha não fosse o fato de esse paulistano de 79 anos estar, há pouco mais de um mês, em lua de mel com o piano. Como consequência de acidentes que resultaram em 24 cirurgias, muitas delas para manter vivo o movimento de suas mãos, fazia 22 anos que o pianista e maestro João Carlos Martins, como é mundialmente conhecido, não dedilhava o teclado a partir dos dez dedos. “Foi em 25 de junho de 1998, em Londres, ao lado da Royal Philharmonic Orchestra, que eu toquei com todos os dedos pela última vez”, diz ele, caprichando na precisão e se debruçando sobre o Petrof, piano de cauda fabricado na antiga Tchecoslováquia que impera em sua sala, para um showzinho particular.

A retomada da parceria com o instrumento que o tornou um dos maiores intérpretes do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi registrada pela primeira vez em um vídeo postado pelo maestro em sua conta no Facebook, em 24 de dezembro passado. Algo que só foi possível graças a um par de luvas biônicas — engendradas a partir de neoprene e peças feitas em impressora 3D — que ganhou de presente de Natal de Ubiratan Bizarro Costa, designer industrial automotivo e professor de desenho. “As luvas atuam na flexão dos dedos. Há hastes que funcionam como molas sobre cada um deles. Dessa forma, quando o maestro aperta as teclas do piano, as hastes flexíveis puxam seus dedos para cima, para a posição normal,”, explica Ubiratan, que levou cinco meses para finalizar o protótipo.

As luvas e o retorno do maestro ao instrumento tiveram repercussão instantânea em cerca de 180 veículos de comunicação mundo afora, como o New York Times, Le Figaro e Daily Mail. E são o capítulo mais recente de uma saga vivida por João Carlos Martins, que teve início com seu pai José Martins, em Braga, no norte de Portugal, em 1908. Durante o trajeto que percorria para chegar à gráfica onde trabalhava, José, então com 10 anos, tinha costume de parar em frente a uma janela para apreciar a aula de uma professora de piano. Certo dia, a pianista o abordou: “Se você quiser, eu o ensino a tocar”. Três dias antes da aula de estreia, porém, a prensa da gráfica decepou o dedo mínimo da mão direita do garoto e pôs fim a um sonho.

 

Ascenção meteórica

Quatro décadas mais tarde, e já vivendo no Brasil, José Martins adquiriu um piano para que os cinco filhos passassem a tocar. Em seis meses, o caçula, João Carlos Martins, então com 8 anos, faria o seu primeiro concerto e venceria um concurso, no qual fora inscrito pelo pai, para executar obras de Bach. “A meta dele era que eu me tornasse um dos maiores intérpretes de Bach no mundo”, afirma o maestro, recordando que a casa da família chegou a ser morada de sete pianos. “Todos os irmãos tocaram o instrumento, como o Ives (Gandra Martins, um dos maiores tributaristas do país) e o José Eduardo, com quem gravei um CD.”

Entre os Martins, a diversão sempre tinha um ambiente cultural como pano de fundo. “O meu pai colocava discos na vitrola, toda noite, para que a gente acertasse o nome do compositor. Tínhamos também de apresentar a ele um resumo do livro que estávamos lendo e frequentávamos museus e teatros”, conta o maestro, que ainda se dedicava a praticar futebol, outra de suas paixões, na rua com os vizinhos. “Meu pai foi um disciplinador, mas não déspota.” Ainda menino, porém, ele tomou para si essa característica de José e dedicava seis horas por dia para estudar o instrumento ao lado de José Kliass, russo radicado no Brasil e um dos grandes nomes da música clássica.

O pontapé inicial da carreira nacional se deu aos 13 anos. Dois anos mais tarde, tocaria 96 peças de Bach — e quatro recitais — no Theatro Municipal de São Paulo. Tudo de cor, como frisa ele, que, hoje, tem decoradas 400 composições do músico alemão. Aos 18, começaria a descortinar uma carreira internacional. E aí, conforme suas palavras, a vida dos sonhos chegou de vez: “Eu rodava o mundo em turnês, tocava pra valer, fazia 21 notas por segundo, uma loucura”. Sua estreia, aos 20 anos, a convite da então primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt, no Carnegie Hall, lendária casa de espetáculos de Nova York, foi um dos lances flamejantes de uma carreira marcada por tantos outros feitos, como o ocorrido em 1961, quando nem mesmo a Guerra Fria que colocava em colisão Estados Unidos e Cuba impediu que o jovem brasileiro fosse recebido, em um intervalo de uma semana, pelo líder cubano Fidel Castro e John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, para apresentações em cada um dos países governados por eles. “Até os 25 anos, a minha carreira fluiu como eu havia planejado. Vivia um sonho concretizado atrás do outro”, diz. Mas, cinco anos depois, começaria o calvário de acidentes que o forçou a encarar duas longas pausas na carreira e, mais tarde, o obrigaria a por um ponto final em seu relacionamento com o piano — até, claro, o dia em que as luvas biônicas desembarcaram como presente de Natal, em 2019.

Pausas no piano

João Carlos Martins encontrava-se em Nova York quando aceitou o convite feito pela Portuguesa de Desportos, seu clube do coração, para completar um dos times durante um treino, no Central Park. Em um lance, desequilibrou-se e caiu sobre uma pedra, que provocou uma perfuração na altura do cotovelo e lesionou o nervo ulnar, que tem a função de dar a sensibilidade do quinto dedo (mínimo) e da borda interna do quarto (anular). Com três dedos atrofiados como consequência do acidente, o pianista passou a usar dedeiras de aço em suas apresentações. Em muitos concertos, no entanto, essa adaptação pressionava tanto seus dedos que o sangue escorria pelo teclado. “Nesse período, li, pela primeira vez, uma crítica negativa à minha performance, no New York Times”, recorda-se. “Eu sentia que não estava no mesmo nível de sempre e disse ao meu empresário que daria um tempo na carreira de pianista.”

De volta ao Brasil, após atuar no setor financeiro e investir na Bolsa de Valores, agenciou uma luta do boxeador Éder Jofre — que viria a recuperar o título mundial, em 1973, no embate contra o cubano José Legra — na condição de empresário do Galinho de Ouro. “Assim que o juiz levantou a mão do Éder, pensei: ‘Se ele conseguiu recuperar o título, eu tenho de recomeçar a tocar piano’.” Cinco anos mais tarde, lá estava João Carlos Martins no Carnegie Hall. E novamente em grande forma: estudava até 12 horas por dia, encarava apresentações mundo afora e começou a gravar a obra completa de Bach.

O excesso de estudos e a maneira como voltou a tocar culminaram, porém, no surgimento de uma lesão por esforço repetitivo (LER). Cirurgias e sessões de fisioterapia obrigaram-no a encarar uma nova pausa na carreira, que seria retomada em 1993 junto à continuação da gravação da obra de Bach. Três anos mais tarde, em Sófia, na Bulgária, João Carlos Martins recebeu um duro golpe na cabeça ao reagir a um assalto, o que afetou os movimentos de sua mão direita. A dor que sentia no local cresceu de tal forma que a solução foi autorizar os médicos a cortarem o nervo da mão. Seis meses depois, o brasileiro se reinventou e realizava concertos na Europa apenas com a mão esquerda. “Dizem que sou exemplo de superação. Na real, é a teimosia que explica tudo”, diverte-se. Em 2003, descobriu um tumor benigno, em forma de um calo, sobre os nervos entre o terceiro e quarto dedos da mão esquerda. Ao extirpá-lo, Martins também perdeu definitivamente os movimentos desse membro.

De pianista a maestro

Foi assim que o pianista teimoso que insistia em peripécias apenas com uma das mãos saiu de cena definitivamente, para dar lugar à regência. Mas um novo desafio logo se apresentou: virar as páginas dos concertos com a agilidade necessária e segurar a batuta, durante as apresentações. Sem outra alternativa, memorizou nota por nota. “A regência mudou a minha vida”, diz o maestro, que foi chamado de “o indomável” em uma crítica feita pelo The New York Times. Não à toa, sua saga foi parar no cinema. Em 2017, João, o Maestro, ganhou as telonas com Alexandre Nero no papel principal.

Hoje, por meio da Orquestra Filarmônica Bachiana Sesi-SP, fundada por ele, em 2006, João Carlos Martins lidera uma campanha pela democratização e popularização da música clássica. Já foram realizados mais de 1.700 concertos, com ele à frente, no Brasil e exterior. “Tocamos em favelas ou na Fundação Casa do mesmo jeito que nos apresentamos na Sala São Paulo”, afirma. Mais ainda: o Orquestrando o Brasil, plataforma digital que oferece capacitação para regentes e músicos e ferramenta que dissemina conteúdos e troca de conhecimentos, reúne mais de 500 orquestras parceiras. “A regência, para além da relação que eu tinha com um instrumento musical, fez com que eu assumisse também uma responsabilidade social. Meu ofício agora é para deixar um legado”, afirma Martins, que já estabeleceu um novo desafio: com a chegada das luvas biônicas, voltou a ser um pianista dedicado. “Estudo como tivesse 8 anos, três horas por dia. E, dia após dia, sinto que melhoro. Quero ver se consigo voltar a tocar profissionalmente”, diz. Claro que não se deixa levar pela ilusão de dedilhar o teclado como antigamente, mas não quer fazer feio em um compromisso já agendado para outubro deste ano: uma apresentação no Carnegie Hall em comemoração aos 60 anos em que, lá, o então prodígio pianista brasileiro tocou pela primeira vez. “A minha terapia se dá no piano. Ele é o meu irmão, o filho, o pai mais próximo de mim. Ficou um cadáver no meu peito quando parei de tocá-lo. Estou, agora, tentando revivê-lo graças às luvas biônicas.”

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