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Profissão: Guillaume Néry

Com uma única respiração ele pode mergulhar a 126 metros de profundidade. Bicampeão mundial de apneia – e estrela de filmes capazes de tirar até o fôlego de quem está na superfície –, o francês conta como mudou seu estilo de vida para se tornar um guardião do oceano – e ter até um relógio de mergulho em sua homenagem

POR Marcelo Skaf  Edição Melissa Lenz Fotos Divulgação 8 MIN

22 jul

8 Min

Profissão: Guillaume Néry

POR Marcelo Skaf  Edição Melissa Lenz Fotos Divulgação

	

“Estou bem, voltando a mergulhar depois dessa enorme crise. Agora que estou na água quase todos os dias, sinto-me muito mais feliz do que há duas semanas”, suspirou aliviado o francês Guillaume Néry, nessa entrevista exclusiva a TOP Magazine. Bicampeão mundial de apneia, campeão mundial francês de mergulho livre, ele detém quatro recordes mundiais na modalidade de peso constante. Com uma única respiração, pode chegar a 126 metros abaixo da superfície da água.

Suas experiências subquáticas já renderam filmes de tirar o fôlego, como Ocean Gravity (2014) e One Breath Around The World, lançado no ano passado. Nos curtas assinados pela cineasta, esposa e também atleta de apneia Julie Gautier, Néry parece correr em gravidade zero no fundo do mar, além de transitar por vários oceanos na eventual e companhia fascinante de tubarões e baleias cachalotes. Também é ele o galã submerso do videoclipe Runnin’ (Lose It All), interpretado por Beyoncé, Naughty Boy e Arrow Benjamin.

A grife italiana Panerai chegou a lançar um relógio de mergulho profissional inspirado no em Guillaume, Panerai Submersible Chrono – Guillaume Néry Edition 47 mm. Resistente à água até uma profundidade de 300 metros (30 bares), a peça vem equipada com um bisel rotativo unidirecional que indica com precisão o tempo de imersão. Ao fundo, encontra-se gravada a assinatura do campeão e a profundidade de um de seus recordes: 126 metros, em apneia. A cor é cinza tubarão.

Confira nosso encontro com o embaixador dos mares (e da Panerai), que aconteceu em junho, via Zoom:

O que você sente ao dar a primeira inspiração de ar na superfície, quando volta de um mergulho?

Todas as vezes que volto à superfície, me sinto ótimo porque sou humano e não um peixe e, portanto, preciso respirar. Mesmo que o mergulho tenha sido fácil e eu não tenha experienciado essa necessidade, sempre fico feliz ao voltar, já que sei que a respiração é imprescindível e meu tempo embaixo d’água é limitado.

Se pudesse escolher não ter que voltar à superfície para respirar, viveria sua vida submerso?

Não, porque sou muito feliz. E acredito que tenho dois caminhos: ao mesmo tempo que sou um humano aquático que ama estar no oceano e mergulhar, a parte principal da minha vida acontece em terra, onde também me sinto muito bem. Talvez não em lugares urbanos, mas adoro estar em locais montanhosos, florestas e também gosto de interagir com os humanos. Gosto muito desta ideia de ter dois ambientes diferentes.

Seus recordes são impressionantes, com 126 metros de profundidade e 7 minutos sem respirar. A sensação de liberdade e harmonia quando está submerso e praticamente sem equipamentos são mais importantes do que números?

Na verdade, são duas coisas muito distintas. Para mim, os números são um tipo de jogo, um desafio que me faz trabalhar duro para cada vez mais melhorar minha adaptabilidade na água. Tenho conseguido bastante por conta de meus treinos e, talvez, isso me possibilite a aproveitar melhor os mergulhos mais fáceis e mais próximos da superfície. Para mim, não há como julgar que uma modalidade seja melhor que a outra, as duas são interessantes de alguma forma. E tudo junto é o jeito que vivo minha vida.

Como você definiria sua preparação mental para mergulho livre?  Você não sente medo?

Sempre me perguntam sobre a preparação mental, mas nunca tive uma, de verdade. Minha preparação consiste em estar adaptado ao ambiente aquático e, enquanto eu estiver na água, criar uma relação com ela. Quando estou mergulhando, não me importo se o mundo esteja acabando, eu me torno parte desse outro mundo que se torna familiar. Porém, às vezes tenho medo, e isso é bom, já que você precisa estar atento e o medo te ajuda a continuar vivo. Por este motivo, não luto contra ele, acredito que seja normal quando você está se adaptando. A única coisa que tento controlar são as emoções e o medo através da respiração. Tento alcançar um estado mental de paz. Você tem que criar uma determinada relação com a água para que se sinta confortável, precisa sentir como se ela fosse outra casa para você e só assim, o medo se torna algo imaginário.

Como foi a preparação de One Breath Around the World [curta-metragem dirigido e estrelado por ele e filmado também em apneia pela mergulhadora e esposa Julie Gautier] em termos de entrosamento para os planos ficarem tão fluidos, em especial com as Cachalotes? Quais foram os maiores desafios?

Eu tive essa ideia há muitos anos. Era uma espécie de sonho meu poder combinar nossos trabalhos. A ideia original veio em 2014, quando percebi que queria contar a história de um homem em uma jornada aquática. Sempre fui fascinado por aventuras de pessoas atravessando países e lugares em que pudessem experienciar coisas novas. E, pensei: por que não contar a história de um homem que vive uma longa jornada na água? Mas porque com uma respiração você é limitado e não pode ir longe, tentei contar um conto de fadas na água, mostrando diferentes aspectos de estar submerso. Queria mostrar os animais, as pessoas, como é mergulhar no gelo, na água fresca; mostrar cavernas, mar aberto, o mar Mediterrâneo, águas tropicais, tudo em um filme só. Um dos principais desafios foi selecionar os locais, porque eu poderia ter feito um filme em 50 lugares diferentes, mas seria muito longo e difícil de organizar e de pensar em todas as transições desde o início. É tudo muito fluido. Este foi o principal desafio, conectar todos os diferentes lugares e criar a ilusão de que é tudo uma odisseia só, em uma única respiração. Isso que fez o filme ser mágico.

O One World nos remete a um único oceano. Sem a divisão de um documentário clássico, ele é fluido e não estabelece fronteiras. Qual a mensagem que você gostaria que as pessoas levassem do filme?

A principal é que o oceano, o mundo debaixo d’água, é repleto de beleza. Eu queria que as pessoas compreendessem que tudo está conectado. Todos estamos ligados ao oceano, ao mar, à água. A mensagem no fim do filme, quando saio da água em uma praia cheia de pessoas é para mostrar a maravilha, a magia que o mundo aquático tem, às vezes, na frente dos olhos das pessoas e elas não enxergam. Tem horas que estamos em lugares que nem imaginamos a mágica que está tão perto de nós. Eu quis terminar o filme saindo na praia para simbolizar minha volta à vida normal. Para mostrar que as pessoas precisam simplesmente pular na água.

Quando mergulho com baleias, especialmente com as Cachalotes, sinto uma troca com elas. Qual foi o seu sentimento com elas durante o filme?

Foi um dos momentos mais mágicos da minha experiência com vida selvagem. Elas são mamíferas, por isso são muito inteligentes e conseguem entender que nós somos humanos e que também somos mamíferos. Você consegue ver pela maneira que elas se olham que tem algo diferente acontecendo. Algumas vezes, elas estão indo de um lugar a outro, olham para você mas não ligam, porque têm outro objetivo. A ideia é ser aceitado por elas, não dá para forçar a relação, você não pode obrigá-las. É decisão delas se aquele é um bom momento ou não. É uma ótima lição para a vida, porque é necessário ser paciente, você deve esperar, esquecer seu ego. Aceitar que elas são as coisas mais importantes no momento. Quando você aceita isso, é extraordinário. Quando passei duas horas com elas na água, quando nadei ao redor delas, foram momentos muito especiais porque me senti aceito e, por algum tempo, tornei-me parte daquele grupo que abriu os braços para mim.

O filme The Big Blue (Luc Besson, 1988) teve alguma influência sobre suas decisões profissionais e pessoais?

Quando ele saiu nos cinemas, eu era muito novo, tinha apenas seis anos de idade. Não comecei a praticar o mergulho livre por causa do filme. Mas acredito que a razão pela qual o mergulho livre se tornou tão popular foi, principalmente, devido a ele. Como mergulhadores, somos muito abertos e sabemos que Big Blue teve um papel muito grande no desenvolvimento da modalidade.

Quanto que o filme mostra a realidade da competição de mergulho livre?

Não é exatamente a mesma coisa. É engraçado porque quando ele estreou, mergulho livre não era considerado competição. É como se o diretor tivesse inventado o conceito da competição. Quando aconteceu pela primeira vez, acho que foi inspirado nele.

Depois de tantos anos mergulhando, o oceano ainda te surpreende?

Claro, é sempre cheio de surpresas! E tenho muita sorte de às vezes poder viajar e observar diferentes lugares. O oceano está em constante movimento, você nunca está mergulhando na mesma água, as estações mudam, diferentes animais migram dependendo da época do ano. É fascinante!

Quais suas percepções sobre a mudança nos oceanos e o branqueamento dos corais?

Mudou muito, podemos notar que a cada vez mais o oceano está sofrendo. Anos após anos é possível ver o branquemento dos corais, que é um sinal de sofrimento. Estou um pouco preocupado a respeito disso, porque os corais são criaturas importantes no oceano, se eles morrem, ocasiona a morte de um ecossistema inteiro. Isso está se tornando um problema enorme. Outro problema é a pesca excessiva, há menos peixes nos oceanos e cada vez mais tráfico. Acredito que o maior problema seja os humanos matando vidas, no oceano, na terra, em todos os lugares, as florestas, os insetos, os passarinhos, os peixes. Todas as formas de vida estão sobre ameaça por causa de nossa espécie. É terrível porque se todas desaparecessem e só sobrassem os humanos, não duraríamos muito e seria o final da humanidade. Mas seria uma coisa boa para os outros tipos de vida. O desastre seria somente para nós, mas talvez não para outras espécies, por causa do nosso comportamento.

Se você tivesse a oportunidade de convencer políticos acerca disto, que argumentos usaria?

Eu diria que a primeira coisa a ser feita, é a criação de reservas marinhas para fazer com que o oceano respire novamente, para fazer pensar na maneira que estamos matando. Precisamos criar quantas forem possíveis e também mudar o sistema de pesca excessiva. Vejo que em muitos lugares que existem reservas marinhas, a vida do oceano volta rapidamente. Mesmo assim, precisamos deixar lugares para que ele consiga respirar e se recuperar. Atualmente, há somente duas reservas marinhas muito pequenas, é terrível, precisamos aumentar a quantidade de território sem humanos e fazer com que a vida volte.

Como oceanógrafo aqui no Brasil, uso a fotografia como ferramenta para conservação dos oceanos. Você como pessoa pública, acredita que seu trabalho também ajude a conservá-los?

Esse é um dos meus principais objetivos atualmente. No início, quando comecei a produzir filmes, eles não tinham nenhum propósito. Hoje, estou cada vez mais convencido de que eles ajudam a espalhar a mensagem. Isso se tornou um dos meus principais alvos, não somente em filmes, mas também na escrita, na fotografia, em qualquer tipo de arte com o intuito de conscientizar e de levar amor do oceano às pessoas. Também acredito que se desejo ser uma voz que fale cada vez mais alto pelo oceano, preciso ser um exemplo. Mudei muitas coisas no meu modo de vida. Parei de comer peixe produzido industrialmente, só ingiro quando estou em lugares como a Polinésia, onde faz parte da cultura dos pescadores locais. Sou vegetariano no restante do tempo. Reduzi a quantidade de minhas viagens. Antes só viajava de avião, hoje quando o faço, é porque tem um propósito, não viajo por viajar. Quando estou na França, uso o trem. Mudei minha maneira de pensar ao comprar algo, sempre reflito se preciso mesmo da coisa e, se sim, eu compro, e se não, penso se há outras maneiras de tê-la e se minha vida será melhor se eu comprá-la. Acho que usamos muito do planeta, produzimos muito lixo, usamos muito plástico, consumimos demais e isso está matando a Terra e o oceano. Por este motivo, atualmente, posso falar sobre conservação dos oceanos, já que mudei minha vida.

Nós só conservamos aquilo que nos amamos. Como levar as crianças pro mar?

Este é exatamente o meu objetivo, é o que eu tento fazer com o filme, conferências, livros e fotos que produzo. Tento mostrar a beleza e a fragilidade das águas para que as pessoas tenham vontade de experienciar isso. Estou muito feliz que, atualmente, o mergulho está se tornando cada vez mais popular. Porque quando as pessoas seguram a respiração e mergulham, elas criam uma relação especial com a água e assim, começam a amar os oceanos e têm vontade de protegê-lo, mudando seus modos de vida. Sim, acredito que precisamos primeiro mostrar para pessoas que não conhecem o oceano e o mar, que ele é mágico, fazendo com que amem a água e, assim, talvez, teremos a chance de mudar as coisas.

Como a parceria com uma empresa como a Panerai pode ajudar a mudar essa realidade?

Panerai tem um link com os oceanos e mares, desde o início da história. Começou fazendo equipamentos para pessoas que trabalhavam no mar. A história deles está conectada ao Mediterrâneo e eles estão dispostos a trabalharem e colaborarem comigo para preservarmos os oceanos, estão muito dedicados a isso atualmente. Eu gosto também da ideia de que estão produzindo peças atemporais, que duram a vida toda. Atualmente, compramos diferentes coisas que duram somente meses ou alguns anos e são substituídos. Me agrada o espírito da Panerai que faz peças que duram a vida toda e podem até ser passadas a filhos. É um tipo de arte. Sou feliz em ter uma parceria com eles.

Como começou sua parceria com a Panerai?

Eles entraram em contato comigo porque estavam interessados na minha história e em num projeto em que eu trabalhava na época. A ideia era ver se tínhamos a mesma visão. Decidimos trabalhar juntos ainda mais porque a Panerai é uma empresa italiana e ficava muito próxima de onde eu morava. Descobrimos que tínhamos o mesmo DNA e decidimos trabalhar juntos.

A marca desenvolveu um relógio feito em sua homenagem. Você participou desta criação? O que mais se orgulha nele?

Sim, foi um trabalho de equipe. Primeiramente, a Panerai me deu um relógio que eu pudesse levar para a água. Depois, decidimos que ele teria a minha assinatura, e falei que o ponto principal era ser submersível, porque seria perfeito para os mergulhos. É um relógio robusto e grande, mas quando você o coloca no pulso, é leve, você não sente. Mesmo não sendo pequeno, é feito de titânio e por isso você consegue sentir como se fosse parte de você. Quando você está mergulhando é muito importante se sentir leve e puro. Nós colaboramos em termos de design e funcionalidade e, por isso, acho muito importante que um relógio de mergulho tenha um cronógrafo, já que nossa vida é muito ligada ao tempo e é imprescindível medi-lo precisamente. Fiquei muito feliz em dar meu ponto de vista e ajudar no design.

Qual é a maior ilusão e dificuldade de um mergulhador que se espelha em voce e que está começando para se tornar um profissional?

É uma questão de tempo e paixão. O mundo aquático é um ambiente natural que exige respeito e que você leve em consideração o fato de que não pode controlar as coisas. O que pode fazer é dar o seu melhor, buscar pela perfeição e focar nas coisas que quer conseguir. E não somente por resultados, mas pela beleza e magia. Isso é essencial porque, ter muito foco em ganhar e em ser o melhor, não precisa ser sua primeira motivação. O lugar, a conexão com o oceano e o respeito, a longo prazo, é muito mais importante.

(Tradução: Carolina Kawamura)

 

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