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Profissão: Glenda Kozlowski

Ex-campeã mundial de bodyboard, ela trocou o esporte pelo jornalismo, a Globo pelo SBT e sentiu o machismo na pele ao se tornar a primeira mulher a narrar uma medalha olímpica na história – E muito mais. TOP conta...

POR Rodrigo Grilo 7 MIN

22 jun

7 Min

Profissão: Glenda Kozlowski

POR Rodrigo Grilo

	

Emoção pouca é bobagem para Glenda Kozlowski. Na real, sejamos justos, emoção e profissionalismo. Os dois sempre caminharam de mãos dadas com essa carioca que, durante 23 anos e meio, honrou o crachá de jornalista da maior emissora de tevê do país, a Globo. Quer um exemplo? Ela não havia chegado em casa, em Ipanema, quando atendeu a minha ligação no horário combinado, às 13h. Depois de se desculpar e me consultar sobre a possibilidade de conceder a entrevista caminhando no calçadão da praia, iniciamos o papo.

A estratégia não duraria três minutos. Glenda notou que dois garotos a perseguiam e, de pronto, atravessou a rua. Seguiu em sua toada até que, ao olhar para trás, viu a dupla armando um cerco. Depois de novamente se deslocar para o outro lado da calçada, um terceiro membro do grupo, de patinete, acelerou e passou pela jornalista, que avisou: “Se vocês continuarem, vou avisar a polícia”. Foi a senha para a gangue se dispersar e ela entrar em um táxi para concluir o trajeto. “Desde o dia em que tentaram arrancar uma correntinha do meu pescoço, fico antenada para ver quem repara em mim”, explicou. É como se levasse a vida de olho no retrovisor? Sim, assentiu Glenda.

Olhar para trás foi, recentemente, um exercício fundamental para a jornalista, de 45 anos. No final do ano passado, ela trocou a Globo pelo SBT. Na nova emissora, além de chefiar um núcleo de reality shows, será apresentadora de Uma Vida, Um Sonho. Com estreia marcada para outubro, o reality contará com 22 jovens entre 18 e 20 anos que serão avaliados por técnicos de futebol e público. O vencedor ganhará um ano de contrato com um grande clube da Europa. “Percebi, recentemente, que me reinventar é um traço que me acompanha desde a juventude”, afirma. “Fui campeã mundial de bodyboard aos 13 anos. Aos 17, troquei o esporte profissional pelo jornalismo. Três anos depois, a minha mãe faleceu no ano em que eu dei à luz meu primeiro filho, Gabriel. Agora, a mudança de trabalho.”
A trajetória de Glenda começou a ser traçada, ainda que de modo lúdico, aos 4 anos. No ombro do pai, Antony Kozlowski, ela costumava frequentar o estádio do Maracanã, “insuportavelmente cheio”, para ver o Flamengo de Zico jogar. “Lembro de pessoas muito altas e eu naquela confusão subindo a rampa para chegar à arquibancada”, conta. “A competição que eu via ali, a adrenalina, alegria e frustração me excitavam e, certamente, fizeram com que eu descobrisse o meu lado competitivo.” Disposta a sentir emoção semelhante, a postulante a atleta experimentou inúmeras modalidades. “Lutei judô contra meninos, era fera no handebol na escola, pratiquei futsal, basquete, tênis e tentei ser jogadora de vôlei, mas fui reprovada em testes no Flamengo e Fluminense”, enumera.

Não demorou muito para Glenda perceber que a arena que tanto procurava se encontrava, a céu aberto, a poucos metros do condomínio onde morava, na Barra da Tijuca. Aos 9 anos, no início dos anos 80, ela era a caçula de uma turma de amigas que pegava onda na praia. Tentou primeiramente o surfe, convencida pela sua vizinha de porta, Andréa Lopes, que viria a se tornar tetracampeã brasileira e primeira brasileira a ingressar no circuito mundial da modalidade, em 1991. “Mas não me dava bem com a prancha grande. Ela batia na minha cabeça e chegou a quebrar um dente meu”, diverte-se a jornalista. “Com o bodyboard era só descer a onda deitada na prancha.”

Ela e as amigas vivenciaram o início do bodyboard; estavam no time e lugar certos. Três anos mais tarde, aos 12, Glenda venceria o primeiro circuito brasileiro de modalidade, em 1986. O triunfo lhe deu o direito de disputar o primeiro campeonato mundial da categoria, no Havaí, no ano seguinte, de onde retornou com o título. Campeã mundial e com apenas 13 anos. “Eu nunca tinha viajado de avião”, afirma. “Até então, o bodyboard era uma brincadeira de um grupo de amigas de infância que pegava ondas junto.” A patente de melhor do mundo fez a maré virar de vez. Marcas passaram a enviar roupas e pranchas em sua casa. E, com o dinheiro que também chegava, a família pôde comprar um carro e usufruir de viagens internacionais.

Glenda poria fim à brilhante carreira como atleta profissional aos 17 anos. Somava quatro títulos mundiais, cinco brasileiros, três australianos e dois norte-americanos. Aposentou-se depois de vencer uma final histórica, comentada ainda hoje no esporte, da qual participaram as então quatro melhores do mundo, nas perigosas ondas de Pipeline, no Havaí. “Sempre vivi o bodyboard pelo viés lúdico”, afirma ela, que, à época, tinha de decidir se seguiria no mar ou encararia os estudos de olho em terra firme. “Eu havia me formado no esporte, uma faculdade que me ensinou a lidar com a dura realidade da vida, buscando o melhor da gente, diariamente. Esporte é fundamental na formação de qualquer cidadão, porque nos torna mais fortes, mais generosos, ensina a lidar com a dor, com a nossa limitação e a do outro.”

Ao aposentar precocemente sua porção esportista, Glenda tentaria, primeiramente, a carreira de atriz. “Eu amava televisão, aquela caixa quadrada. E via muita novela, era fã do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Eu queria ser a Narizinho, tinha medo da Cuca e a Dona Benta era parecida com a minha avó. Queria ser atriz por causa da Narizinho”, conta ela, que encarou um curso de interpretação ministrado por Roberto Bomtempo, ator, produtor e diretor de teatro. Anamaria, sua mãe, não morria de amores pela nova empreitada da filha, que já havia atuado, em 1990, na minissérie Mãe de Santo, da hoje extinta TV Manchete, e no filme Manobra Radical, no ano seguinte.

Em 1991, a ex-campeã do mundo de bodyboard receberia um convite para atuar em Sex Appeal. Sua personagem naquela minissérie da Globo teria, porém, de encarar algumas cenas de nudez não explícitas, algo impensável de ocorrer na visão de Anamaria Kozlowski. “A minha mãe me proibiu solenemente de aceitar o papel”, diz, aos risos a ex-candidata a atriz. “Essa novela revelou a Carolina Dieckmann e alçou a Luana Piovani ao estrelato. Era para eu estar nesse barco aí!”, diverte-se. Sem moral em casa para prosseguir nas artes cênicas, Glenda enveredou para o curso que a colocaria na boca do povo: jornalismo.

Próxima de completar 18 anos, ainda que cursasse o primeiro ano da faculdade, a ex-bodyboarder foi convidada a apresentar um programa de esportes, o 360º, no Top Sport. A experiência de três anos nesse canal, que mais tarde seria rebatizado como SporTV, definiu seu futuro: jornalismo esportivo. Foi a maneira que ela encontrou para continuar surfando na onda do esporte. “Entrevistar sempre foi muito fácil pra mim. Aí comecei a conhecer todos os meus ídolos, como o skatista Tony Hawk, marcante em minha adolescência.” Com o tanque cheio de gás, Glenda se tornaria uma contadora de histórias.

No posto de ex-atleta de ponta que passou a noticiar o dia a dia de modalidades, a carioca escancarou ao mercado que outros de trajetória semelhante poderiam ganhar respeito com microfone em punho. “Havia uma marginalização forte da profissão de atleta. A gente era visto como o vagabundo que optou pelo esporte para não ter que estudar”, diz. “Ainda assim, no meu início no jornalismo ouvia coisas como ‘ah, agora sim está vendo como é trabalhar de verdade’. Atleta sempre foi alvo de muito preconceito. Oriundo de esportes radicais, então, nem se fala: era drogado, vagabundo pra baixo.”

Glenda, no entanto, cobriu sete Copas do Mundo de futebol (quatro delas, no local da disputa), outras sete Olimpíadas (quatro nas cidade-sede) e dois Pan-americanos, apresentou programas como Esporte Espetacular e Globo Esporte, narrou desfile de escola de samba do Rio de Janeiro e fez reportagens diárias, semanais e especiais para todos os telejornais esportivos ou não da emissora carioca. Em 2016, tornou-se a primeira brasileira a narrar ao vivo a conquista de uma medalha olímpica. Na ocasião, o ginasta Diego Hypólito ganhou a disputa pela prata no solo, nos Jogos do Rio de Janeiro. “Tenho dois grandes títulos nessa vida: primeira campeã mundial de bodyboard e primeira mulher a narrar uma medalha na história dos Jogos Olímpicos.”

Muito longe de cair em seu colo, a escalação de Glenda à narração das provas da modalidade na Olimpíada dizia muito sobre sua dedicação. “Eu havia passado sete meses estudando ginastas, masculinos e femininos, de cada país que competiria na Rio-2016. Ninguém na emissora sabia mais do que eu sobre o esporte”, lembra ela. Ainda assim, não foi nada fácil quebrar outro paradigma: estar na linha de frente na primeira vez em que a tevê brasileira contou com uma voz feminina narrando uma disputa de medalha olímpica. “Foi ao narrar que senti na pele pela primeira vez, depois de 25 anos de profissão, o machismo. Era tanta crítica absurda”, diz. “Algumas pessoas diziam que eu deveria lavar louça.”

O episódio mexeu com o emocional da jornalista a ponto de, na véspera da final do solo, ela entregar sua credencial aos chefes e anunciar que abandonaria o posto de narradora. Glenda, que até ali, vinha dividindo a narração de cada fase da modalidade, ora com Galvão Bueno, ora com Cléber Machado, foi convencida a permanecer na função e permanecer na transmissão da final olímpica sozinha. Sem dividir a narração e, portanto, ser exposta à comparação com uma voz masculina, ganhou elogios dos telespectadores. “Aí saquei que as críticas não tinham a ver com a qualidade da minha narração, mas com o tom dela. Uma voz feminina estava causando estranheza”, diz. “As pessoas se habituaram à voz masculina na narração. E a feminina tem agudos e não os graves que educaram uma geração de pessoas, durante as transmissões. A maioria das críticas era feita por homens. Era machismo.”

Casada, mãe do fotógrafo Gabriel, 24 anos, e de Eduardo, 15, Glenda vive, hoje, como gosta: observando a vida e contando histórias. E procura o mar o tempo todo. “Pegar onda é o meu divã. Tomei várias decisões na vida com o pé na areia, mirando o mar, onde medito, choro e me divirto”, conta. Pós-Globo, quer experimentar outros universos. Tem negociado séries com alguns streamings, ensaia a criação de uma personagem, Glendinha, voltada ao público infantil, e irá lançar o Instituto 1 Real, para que jovens atletas não desistam de seu sonho por falta de apoio. “Quero devolver ao esporte o que ele me proporcionou.”

Pretende concretizar esses e outros feitos com o mesmo carisma e sorriso que marcam sua forma de se comunicar. “Tenho uma alma feliz; prefiro sorrir”, diz ela, sobre o entusiasmo que a acompanha. “Certa vez, um senhor me parou na rua e disse: ‘Você ri demais. Não pode sorrir tanto assim’. Fiquei com aquilo na cabeça. Depois de muito pensar e me ver no vídeo, decidi continuar sorrindo e ser de verdade. Sigo, então, sentindo a vida e não apenas vivendo.”

 

 

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