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Poesia cortante como o vento

POR Marcio Aquiles 3 MIN

15 jul

3 Min

Poesia cortante como o vento

POR Marcio Aquiles

	

O impulso vital da poesia se dá por meio da síntese, que ocorre quando a linguagem atinge sua máxima potência expressiva em poucas palavras. “Canto Enforcado em Vento”, de Rodrigo Tadeu Gonçalves, é um bom exemplo desse modelo. A escolha vocabular é precisa, cada termo do livro é
selecionado cuidadosamente.

Esse critério rigoroso também evidencia certa filiação à poesia concreta, na exaltação da materialidade de cada palavra utilizada, na quebra abrupta do verso e na espacialização de sinais de pontuação (vírgula, ponto, dois pontos) à deriva na página.

e uma voz que, contraposta
,
soubesse tudo
em espelhos de
histórias

e os poemas só conversam
estabelecem regras
:
concordam não saber como findar

O poeta mostra gosto pelo uso das aliterações (repetição de sons consonantais idênticos ou semelhantes), sobretudo do s: “sibila a incriação / desiste, insídia insone, enseja sói instar ferrolhos mortos”; “simultâneos sons / suspeitam estilhaços / o indizível inespera espaço”; “surdo som do coração”.

Esse expediente fonético resulta, inclusive, na principal metáfora da obra: o corte. Corte súbito do verso, corte da “faca metafísica”, dos “intrincados fractais”, “corte um talho / uma fissura”, “o fio da faca explode em mil lacerações”, “o fio desliza e rasga o céu”, “escava-se concavidade circunfensa”, “efêmeras travessias”…

Percebemos, assim, essa materialidade do significante que segmenta a linguagem até atingir a despersonalização do sujeito poético (que começa a se fragmentar em pedaços na modernidade), “e a autoria se dissolve”.

O livro estabelece alguma intertextualidade com os poemas homéricos, no canto do título, na dedicatória-epígrafe – “para a odisseia e todas as histórias que nunca cessam de não acabar” – e sua reverberação pelos poemas, onde aparecem as figuras mitológicas de Apolo, Andrômaca, Glauce e os irmãos de Tebas.

Embora exista um diálogo evidente com a tradição erudita, a poesia de Rodrigo Tadeu Gonçalves não é nenhum pouco hermética; pelo contrário, é fácil de ser lida, tem fluência e pode ser apreciada por leitores dos mais diversos perfis. Mesmo quando surge algum neologismo mais difícil de desvendar ou certa entonação barroca, é simples deixar-se levar pela sonoridade ou pelo ritmo dos poemas.

Canto Enforcado em Vento
Kotter Editorial, 114 pág., R$ 34,90

Marcio Aquiles é escritor, crítico literário e teatral, autor dos livros “A Odisseia da Linguagem no Reino dos Mitos Semióticos”, “O Eclipse da Melancolia”, “O Amor e outras Figuras de Linguagem” e “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário”, entre outros.

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