TOP Magazine

Poemas para a cidade

POR Marcio Aquiles 2 MIN

17 jul

2 Min

Poemas para a cidade

POR Marcio Aquiles

	

A poesia que versa sobre o cotidiano é perigosa. Como andar na corda bamba, sob risco iminente de cair no trivial, no clichê, no facilmente esperado, atendendo todas as expectativas pré-leitura, sem surpresa e invenção. O poeta Cássio Corrêa, contudo, não tem medo de altura, e anuncia já no primeiro verso seu projeto poético:

“Queria que poesia fosse como pixar prédios
O perigo da subida no alto
E a certeza de que outras pessoas que escrevem
Iam só de olhar saber que foda”

Em seu mais novo trabalho, No Meu Tempo Era Tudo Anacrônico, retoma temas caros ao seu universo literário: o diálogo com cidade e sociabilidades urbanas (“A Celso Garcia quando começa a chuva / enxurradas de lonas azuis carregando tênis e barbeadores / a geleia multicolorida dos ônibus que se cruzam na discórdia”); a conformação do cotidiano como ele se apresenta, sem ressignificação ou academicismo (“Só fui me entender trabalhador trabalhando / isso afetou drasticamente minha poesia”); a memória afetiva pessoal como Leitmotiv (“o preço das balas de cereja que minha vó comprava / com a úlcera de professora mal remunerada”).

Cássio desmistifica o projeto antiestético do poeta cool (adorado pelas editoras mais “descoladas”) que vai beber na mercearia da Vila Madalena – não!, se ele for tomar um drink vai ser num boteco do Centro, onde a cerveja é barata e a migração hipster ainda não chegou (estamos falando de algumas partes ainda incólumes do centro velho de São Paulo).

Ele é o Bob Dylan da praça da Sé, só que não vai levar nem jabuti nem oceanos porque não corta cabelo no salão retrô; um potencial Ginsberg latino-americano que não vai ser revelado em terra de ágrafos porque sua tipologia físico-intelectual talvez não interesse aos que lançam iscas de factoides mordidas com pressa pelos que buscam de tudo (de uma autêntica voz periférica ao novíssimo pseudônimo do poeta burguês), menos literatura.

Ele ficou no meio do caminho entre maiorias e minorias e desapareceu.
O livro texto traz, aqui e ali, alusões à linhagem erudita da poesia ocidental, mas quem não pescar as referências não vai ficar prejudicado, pois são textos fluidos cuja finalidade é capturar as sutilezas do dia a dia, e expandi-las até o esgarçamento de seus significados originais para gerar o efeito poético. Conhecedor dos dispositivos à sua disposição, o autor demonstra plena consciência de seus processos literários, e escolhe formular uma poesia acessível, de forte visualidade e engajamento social. Por fim, merece destaque o projeto gráfico da Editora Urutau, sempre com belíssimas capas em todas as suas publicações.

 

No meu tempo era tudo anacrônico


Cássio Côrrea
Editora Urutau, R$ 40
Marcio Aquiles é escritor, crítico literário e teatral, autor dos livros “A Odisseia da Linguagem
no Reino dos Mitos Semióticos”, “O Eclipse da Melancolia”, “O Amor e outras Figuras de
Linguagem” e “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário”, entre outros.

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO