TOP Magazine

Paisagens de tirar o fôlego. Conforto de sobra para recuperar

A geografia e a cultura peruana observadas sobre os trilhos reafirmam a boa relação desse povo com a sua história

POR Pimpa Brauen, do Peru 9 MIN

08 jun

9 Min

Paisagens de tirar o fôlego. Conforto de sobra para recuperar

POR Pimpa Brauen, do Peru

	

No Oeste sul-americano, uma área de mais de 1,2 milhão de metros quadrados compõe a República do Peru, dividida em três trechos principais: a costa – margeada pelo Oceano Pacífico e que inclui Lima -, a capital do país, o altiplano – marcado pelas montanhas dos Andes, cujo destaque é o monte Huascarán com seus 6.768 metros de altitude -, e a selva, por onde se tem acesso aos rios que formam o Amazonas. Durante cinco dias percorremos os trilhos de uma estrada de ferro exclusiva, de Cusco a Arequipa, e pudemos desbravar um tanto mais desse recanto do mundo onde tudo tem gosto de sabedoria.

Antes do início da aventura, paramos em uma construção de 1592, protegida pelo Instituto Nacional de Cultura (INC), onde funciona atualmente o hotel Belmond Monastério. Sede de um antigo mosteiro, a edificação foi berço da civilização Inca e passou por um processo de revitalização quando foi adquirido pelo grupo Belmond, em 1999. A beleza da simetria dos arcos que contornam o espaço é ampliada quando a luz da noite revela os seus contrastes, mesclando o charme do velho mundo com o requinte de um empreendimento cinco estrelas.

Na manhã do dia seguinte, embarcamos no Belmond Andean Explorer. Na plataforma da estação Wanchaq, em Cusco, fomos recebidos para o chek-in com um colorido coquetel de boas-vindas e uma animada apresentação de música e dança típicas andinas, perfeita para já entrar no clima festivo da região. O trem, então, parte no sentido Sudeste e os passageiros são convidados para um briefing inicial no vagão piano bar. Logo depois, somos acomodados em nossas cabines.

Fabricado na Austrália, chamava-se Great South Pacific Express, e operava a rota entre Kuranda e Sydney, de 1999 a 2003. Em 2016, após ter sido completamente reformado, embarcou finalmente em uma viagem de três meses, em que atravessou o Oceano Pacífico e chegou ao Peru. Primeiro modelo de luxo da América do Sul, o Andean possui 16 vagões pintados com o azul e o branco característicos da rede Belmond. Diferentemente dos similares europeus, caso do Venice Simplon-Orient-Express, esse modelo tem um vagão observatório, ou seja, uma plataforma ao ar livre, localizada no último vagão, com deque aberto para contemplar o trajeto no altiplano andino. Aproveite para sentar-se em almofadas coloridas, saboreando um delicioso pisco sour enquanto o trem percorre os andes em uma das ferrovias mais altas do mundo. Simplesmente o lugar perfeito para receber o fresco vento andino a mais de quatro mil metros entre planícies, passando por pequenos povoados. E assim começa a travessia, que nos oferece o tempo todo vistas deslumbrantes, com algumas paradas diárias onde exploramos a paisagem peruana, pequenas vilas locais, sítios arqueológicos e ruínas. A rota escolhida começa pela antiga capital do império Inca, cruza as mais altas planícies e atravessa o lago Titicaca até o vasto Canyon do Colca.

O Andean Explorer não é um trem bala, ao contrário, é dengoso e cruza paisagens mostrando com calma todos os detalhes fascinantes. Seu décor moderno com toques contemporâneos foi elaborado cuidadosamente pela decoradora Inge Moore, que buscou inspiração nas texturas e nas cores dos tecidos e artesanatos peruanos para criar ambientes delicados e relaxantes. O transporte comporta no máximo 70 passageiros em 35 cabines, divididas em três categorias: 14 suítes,16 duplas e cinco com beliches, todas decoradas em tons claros e relaxantes, cada uma com o seu próprio banheiro, chuveiro, armários e uma ampla janela que aumenta a sensação de liberdade. Uma campainha em cima do criado-mudo pode ser acionada a qualquer hora para pedir desde um chá quente de coca a uma taça de champanhe geladíssima.

O almoço é servido pontualmente às 12h30 em um dos vagões restaurante – lembrando que o Peru é considerado um dos mais cobiçados destinos gastronômicos do mundo –, e o trem segue à risca esta regra, com cardápio sazonal elaborado pelo chef do hotel Monastério em Cusco, sempre priorizando e enfatizando produtos locais que harmonizam delicadamente com os vinhos que acompanham cada prato. Algumas horas depois já estamos na primeira parada, uma excursão no sítio arqueológico Raqchi, incrustado na província de Canchis, onde estão as ruínas de mais de 14 metros de altura do Templo de Wiracocha. Além da Igreja de San Pedro de Cacha, o povoado mantém como patrimônios o artesanato de peças em cerâmica e os tecidos de cores marcantes.

A velocidade suave permite apreciar todos os detalhes do skyline. Como o wi-fi oferecido está disponível somente no vagão piano bar e funciona apenas ocasionalmente devido às remotas regiões que o trem atravessa, temos a oportunidade única de desconectar e interagir somente com os outros passageiros ou com a natureza ao redor. Longe da internet, dá para passar mais tempo lendo ou simplesmente conversando com os guias que circulam entre os vagões de convivência para esclarecer dúvidas ou nos encantar com histórias da região. Durante a viagem, se conseguir adequar milimetricamente os horários para não perder nenhuma das atividades oferecidas, vale a pena reservar uma horinha para a massagem no vagão Spa. Se quiser apenas relaxar, a dica é se perder entre as poltronas e os sofás do vagão Lounge.

Na chegada à estação Abra la Raya, enquanto alguns acomodam-se nessas plataformas e contemplam alpacas, lhamas e vicunhas alimentando-se de ichu – um tipo de gramínea que cobre o entorno -, outros descem para conhecer os moradores, comprar roupas e frutas em suas barracas e fotografar os picos nevados dos Andes. É noite quando a locomotiva para suavemente ao lado do, este gigante que até parece mar, repleto de lendas fantásticas, já nos limites da cidade de Puno. A ideia é que todos possam curtir a vista até o amanhecer, desvendando cada um dos tons e relevos dessa terra feita de infinitos.

Para os mais aventureiros, a pedida é acordar antes das 5h da manhã para assistir ao nascer do sol no cais do porto. Devidamente agasalhados com mantas, descemos do trem em direção ao píer, onde há uma deliciosa mesa com café e chocolate quente e uma pequena fogueira à beira do lago. A trilha que leva ao píer após às 9h da manhã já é movimentada e o vaivém daqueles que querem conhecer o maior lago da América Latina, com seus 8300 quilômetros quadrados, a 3821 metros de altitude, aponta para um passeio obrigatório.

Nossa lancha privada partiu em direção à primeira expedição para conhecer uma das dezenas de Ilhas Flutuantes de Uros, um povo tão antigo quanto os incas. Cada uma das pequenas ínsulas artificiais, construídas sobre grandes placas de totora – planta aquática resistente, de caules que medem de um a três metros de diâmetro –, é governada pelo patriarca desses grupos de até oito famílias que vivem do turismo, do artesanato e da pesca. Durante a visita, podemos entrar em suas casas e entender como vivem e sobrevivem até hoje. Saindo do bairro e deixando para trás uma gente carinhosa e receptiva, a trip continua até a ilha de Taquile, que pode ser definida em uma palavra: ancestralidade. Das cerimônias religiosas dos pucarás, tiahuanacas e incas ao comércio que mantém parte da economia, tudo ali se conecta com os saberes da tecelagem – o uso dos teares manuais, o preparo das fibras, a combinação das cores e a escolha dos símbolos que estampam mantas, cachecóis, gorros e o cinto-calendário, ilustrado com figuras que representam os ciclos agrícolas. O almoço é servido no Collata Beach, depois de um pequeno trekking,  voltamos para o barco. Na chegada ao porto fomos recebidos para chá da tarde na estação de trem, e ao som de violinos encerramos a estada em Puno após passar um delicioso dia no mais alto lago navegável do mundo.

O terceiro e último dia começou agitado. Logo durante a manhã, paramos para visitar uma pequena caverna que abriga muitas pinturas rupestres com cerca de oito mil anos e tivemos a possibilidade de fazer uma caminhada entre os cânions da região.

Arequipa, o ponto de chegada desse trajeto de três dias a bordo do Andean Explorer, está em um vale cercado por três vulcões. É de um deles, aliás, que se retirou a rocha utilizada na construção do centro histórico, incluindo a Plaza das Armas, o Mosteiro de Santa Catalina de Siena e as centenas de casarões coloniais conservados. Em razão dos matizes claros da pedra sillar, a província é chamada de “Ciudad Blanca”.

As atrações locais estendem-se ainda pelo lago Lagunillas e pelas cavernas de Sumbay, repletas de pinturas rupestres. De volta ao trem para um lanche, a equipe que organiza a viagem nos explica que aqueles que precisam seguir para o Belmond Las Casitas Colca Canyon, podem desembarcar na parada que fica no quilômetro 93, onde algumas vans do hotel esperam pelos novos passageiros. Dono de uma atmosfera que lembra as pousadas nas Serras Gaúchas, o resort encanta por seus cenários naturais, a exemplo do desfiladeiro de Colca, um dos mais profundos do mundo, paraíso dos praticantes de esportes de aventura e lar de condores, alpacas, pumas e vizcachas.

Dicas quentes

Como ir

Existem voos diários saindo do Brasil com destino à Lima, operados por companhias como Latam, Gol e Avianca, e a viagem dura aproximadamente cinco horas. De Lima a Cusco, Latam, Avianca, Viva Air e Sky Airline oferecem voos sem escalas com duração média de 1h20.

Documentos

Cidadãos brasileiros não necessitam de visto e nem de passaporte para viajar ao Peru a turismo ou negócio, podendo ingressar apenas com o RG.

Moeda

A moeda oficial do Peru é o Novo Sol, ou simplesmente soles. Porém, também é aconselhável levar dólar americano, que é aceito em muitos hotéis, passeios e lojas.

Trem Belmond Andean Explorer

O Andean Explorer é o primeiro trem de luxo da América do Sul e comporta no máximo 70 passageiros. A rota escolhida tem duração de duas noites e começa por Cusco, passa por Puno e termina em Arequipa. Há também outras opções de roteiros: Arequipa-Puno-Cusco (duas noites), Puno-Cusco (uma noite) e Cusco Puno (uma noite).

Onde ficar

Belmond Hotel Monastério

Localizado em Cusco, tem acomodações decoradas com camas enormes e cobertores de lã de alpaca confeccionados à mão. Quem sente os efeitos da altitude pode pedir que o dormitório seja alimentado com oxigênio por um tempo, para reduzir a pressão atmosférica. Aproveite para apreciar a coleção de arte sacra no tour guiado pelo hotel, participar das aulas sobre a cozinha peruana e visitar a capela de San Antonio de Abad, conhecida pela arquitetura barroca.

Belmond Las Casitas Colca Canyon

Em Colca Canyon, o resort encanta por seus cenários naturais. Seus 20 chalés de 120 metros quadrados cada, contam com hall de entrada, sala de estar com lareira, área de dormir com piso aquecido, banheiro, terraço privativo e piscina aquecida. Para cuidar do corpo, aposte nas terapias do spa Samay. Curta os dias fazendo cavalgadas, trekking no Colca Canyon, aulas de gastronomia, onde dá para aprender a fazer o ceviche e o pisco sour, pesca de trutas e visitas ao pomar e à fazenda. Também é possível alimentar as alpacas, que pastam livremente pelo terreno.

+infos: belmond.com

Veja as Fotos

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO