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O sabor do vento

“Uma vez que tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para o céu, pois lá você esteve e para lá desejará voltar.”
– Leonardo da Vinci

POR feco hamburger, Edição: claudia Berkhout 7 MIN

22 jun

7 Min

O sabor do vento

POR feco hamburger, Edição: claudia Berkhout

	

Desde crianças sabemos o que é um balão. Começando pelas bexigas de festa, passando pelas aventuras de Júlio Verne ou do Barão de Münchausen, por festas juninas, até chegar à notícia quase inacreditável do cidadão que resolveu voar amarrado a várias bexigas. Por outro lado, o universo do balonismo profissional é menos conhecido, mesmo com a difusão dos famosos voos turísticos sobre a Capadócia ou sobre as savanas africanas.
No Brasil, assim como em todo o globo, o esporte cresce: equipes e pilotos participam de competições internacionais, realizam voos recreativos ou promocionais, e se dedicam à aventura de descobrir novas rotas.

Um costume difundido no mundo todo pelos praticantes de balonismo encontra eco no Brasil: brindar a experiência com um espumante. Na Serra da Canastra, acrescente-se ao brinde um bom queijo da região. Que o digam Silvio Vizalli, Jonathan Padulla e Guilherme Ferreira. Os três se juntaram no projeto Canastra 360, uma maneira de reunir a expertise do trio na exploração turística da região, com todos seus atrativos naturais e culturais, acrescentando uma pitada inédita: abrir uma rota para voos turísticos de balão.
Nas palavras de Jow, “abrir uma rota significa uma ousadia de estar em um local onde ninguém esteve com muitos riscos. Dá um frio na barriga, pois não sabemos ainda como é o tempo, como é o vento, os horários de ventos fortes e fracos, enfim, tudo pode acontecer… Ali na Canastra, juntamos nossos conhecimentos, estudamos o tempo, demarcamos áreas de pouso, áreas de escape, rotas dos ventos, cronometragem de resgate, vimos que estávamos preparados”.
Sílvio nos conta que a experiência deu tão certo que abriram mais uma rota: “na face leste da Canastra, os balões encontram uma corrente de vento circular, quase surreal, que faz o balão retornar muito próximo ao local da decolagem, depois de percorrer entre 5 e 6 km, isso num equipamento em que você controla apenas a subida e a descida, navegando ao sabor do vento”.

Silvio havia trocado o trabalho corporativo de análise de sistemas para trabalhar com ecoturismo na Serra da Canastra, onde montou uma pousada e se aprofundou na topografia e na geografia da região, tornando-se responsável pelo resgate técnico e pela abertura de novos campos. Jonathan, mais conhecido com Jow Padulla, é considerado um dos mais experientes pilotos brasileiros. Formado em turismo, está entre os 300 pilotos do topo do ranking de mais 60 mil afiliados da Federação Aeronáutica Internacional (FAI) e dirige uma empresa especializada em ações com balões. Guilherme é veterinário, idealizador da Estância Capim Canastra e produtor do primeiro queijo artesanal brasileiro a ganhar medalha no concurso francês Mondial du Fromage de Tours.

Apesar de existirem balões a gás e solares, o modelo mais comum para a prática esportiva é o balão de ar quente. A máquina é relativamente simples: formada por um cesto, um envelope, como é chamada a parte inflável, maçarico e botijões de gás propano. Para que o balão possa decolar, é necessário ocupar o envelope com ar quente, até que o conjunto fique “mais leve que o ar” (na verdade são princípios de densidade e empuxo que fazem o balão voar). Através da variação de temperatura no interior do envelope, o piloto faz com que o balão suba ou desça. Esses são os controles básicos que o piloto tem durante o voo.

“Costumamos brincar que nosso sistema de navegação é SDS (só Deus sabe), pois o voo é ao sabor do vento. Embora tenhamos controle total de subida e descida, pegamos carona nas correntes de vento”, diz Jow. Além do balão contar com GPS, altímetros, utilizar materiais específicos resistentes ao fogo, como a meta-aramida, conhecida por Nomex, outro ponto fundamental para a segurança, como em qualquer máquina, é a revisão frequente de todos os componentes. Graças à seriedade dos profissionais e ao conhecimento acumulado, o balonismo é considerado o esporte aéreo mais seguro do mundo pela FAI. Em voos turísticos, a altitude fica em torno de centenas de metros e a decolagem só acontece com ventos amenos, de até no máximo 20 km/h. O usual é voar ao amanhecer, quando as condições atmosféricas são mais favoráveis e o voo pode durar de uma a duas horas.

Já no campo dos extremos os desafios são outros, como os enfrentados por Bertrand Piccard e Brian Jones: em 1999 fizeram a volta ao mundo sem escalas em um balão especialmente desenvolvido para a missão. Depois de duas tentativas frustradas, a dupla completou a empreitada em 20 dias, atingindo altitudes de 11 mil metros e velocidades de até 230 km/h.

Com o sucesso de dezenas de voos bem-sucedidos, o trio criou o Festival de Balões da Canastra, que já vai para a quarta edição em juho 2021. O festival inclui música, comida típica, desfile dos balões e provas variadas, além de passeios para turistas.
Jow lembra-se do voo inaugural: “Só nos restou contemplar o voo em cima da Casca d’Anta e brindar essa façanha. Fizemos um queijo, aliás, o melhor queijo da Canastra, e um café daqueles bem mineiro. Só me lembro de todos emocionados e com os olhos cheios de lagrimas pelo feito”.

Juntam-se assim a inúmeros outros profissionais do balonismo esportivo que atualmente trabalham em boa partedo território brasileiro: em Rio Branco, no Acre, é possível sobrevoar parte da Amazônia, incluindo a vista aérea de geoglifos. Em Torres, no Rio Grande do Sul, acontece o maior e mais tradicional festival brasileiro, que vai à 32ª edição. Torres também é um dos poucos lugares onde é possível sobrevoar o oceano e voltar para terra firme. Já no interior de São Paulo, há voos regulares em Boituva, Itu e Sorocaba. Há também várias iniciativas em Pernambuco e no Rio de Janeiro.

Há registros milenares na China que apontam o uso de pipas tripuladas e de lanternas voadoras, mas o primeiro registro oficial de uma máquina voadora autônoma e controlada é de um balão: em 1709, na sala de audiências do Palácio de Dom João V, o padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão teria demonstrado sua invenção, chamada Passarola: um balão de pequena escala, não tripulado, realizou um pequeno voo dentro do palácio até que se incendiasse. Na demonstração seguinte, felizmente transferida para o pátio, toda a corte acompanhou o voo do pequeno balão, que teria alcançado 5 metros de altitude e percorrido a distância de mil metros. O feito fazia parte do intenso esforço coletivo que percorreu os séculos 18 e 19, quando o Iluminismo e a Revolução Industrial permitiram um desenvolvimento científico e experimental sem precedentes. Em 1783, os irmãos franceses Montgolfier construíram um balão maior, seguindo os mesmos princípios de Gusmão, e realizaram o primeiro voo tripulado. Assim, iniciou-se o rápido desenvolvimento do balonismo, que se ramifica na invenção do dirigível, do avião e das várias máquinas voadoras que conhecemos.

A prática do balonismo confirma que a experiência de voar continua a nos seduzir, mesmo depois de adultos. Se aviões, helicópteros, drones, espaçonaves e até a estação espacial cruzam nosso horizonte a toda hora, muito se deve ao balão, considerada por muitos a primeira máquina voadora construída pelo homem. Afinal, existem aqueles que gostam de ter o controle. E existem aqueles que preferem o diálogo com as vicissitudes do vento. Esses voam de balão. E no mundo cabem todos, inclusive quem prefere ficar com os pés no chão.

 

DICAS QUENTES

Como Chegar

O Parque Nacional da Serra da Canastra fica a 400 km de Belo Horizonte, pela BR-262, e a 600 km de São Paulo, pela BR-381. Existem diferentes maneiras para chegar ao destino, ou melhor, a sua base mais completa que é o município de São Roque de Minas, o principal da região. De carro, com as coordenadas acima. Já de avião, existe a possibilidade de viajar de São Paulo até Ribeirão Preto e depois mais 5h de carro. Ou voar para Uberlândia e depois viajar mais 4h40 de carro até a cidade.
Outro detalhe importante é que os trechos para as trilhas e cachoeirs dentro do parque são feitos por estradas de terra. O ideal é viajar com um carro 4×4, para não ter contratempos com os buracos e a lama pelo caminho.

Quando Ir

O Festival de Balão da Serra da Canastra já está em sua quarta edição e o próximo evento acontece, entre 3 e 6 de junho de 2021. O evento envolve gastronomia, música e muitas experiências, obviamento, com o voo de balão. No próximo ano, o chef Olivier Anquier é um dos convidados para preparar um café da manhã e o cantor Nando Reis também fará um dos shows. Mais infos: festivaldebalaodacanastra.com.br

Onde Ficar

A região ainda tem opções bem básicas aos viajantes, com pousadas familiares e chalés simples. Entre as opções, destaque para a Pousada Caminho Da Serra (pousadacaminhodaserra.com.br) e os chalés do Refúgio Pé da Serra (reservas pelo Booking).

*Feco Hamburger é fotógrafo, artista e professor, desenvolve obras em que o sentido da experiência se articula sobre o processo e a obra final.

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