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O Céu é o Limite

Medalha de ouro no salto com vara na Olimpíada Rio 2016, dono do recorde olímpico e aspirante ao mundial, ele enfrentou muitas outras barras para chegar alto

POR Otávio Rodrigues 6 MIN

22 jun

6 Min

O Céu é o Limite

POR Otávio Rodrigues

	

A cena marca um dos momentos mais emocionantes da Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. O brasileiro, promessa de medalha no salto com vara, está na disputa final com ninguém menos que o número 1 do ranking, recordista mundial da modalidade. O placar luminoso informa que o francês acaba de ultrapassar 5,98 metros em um voo virtuoso, marca jamais atingida pelo atleta da casa – que a despeito disso, e com a prata já garantida, pede para subir a barra para 6,03 metros. A galera delira. Tangido ao desafio, o adversário corre para sua primeira tentativa. Erra. O brasileiro salta em seguida. Também não acerta. O francês parte para outra investida, sob os apupos da torcida, e derruba a barra pela segunda vez. Então vem de novo Thiago Braz, o brasileiro, que fixa os olhos à frente e parte em carreira solta até cravar a vara na plataforma de aço, para daí se projetar admiravelmente e dar início à sua jornada sideral. Em menos de um segundo ele está de cabeça para baixo, aguardando o momento exato para largar as mãos e, como um boneco de pano, voar estendido sobre a barra altíssima, nos dando a impressão de que flutua sobre ela. O Estádio Olímpico vem abaixo. O francês Renaud Lavillenie agora não tem escolha, a não ser tentar seu terceiro e último salto. E erra.

Foi assim que esse jovem da cidade de Marília se tornou o quarto brasileiro a conquistar medalha de ouro no atletismo, ao lado de Ademar Ferreira da Silva (que ganhou duas), Joaquim Cruz e Maurren Maggi. Mais: Thiago é um dos nove no mundo a passar a marca dos 6 metros no salto. “É sempre muito rápido, mas na Olimpíada o tempo parou”, ele conta. “Nos 6,03 metros, que é acima do que estou acostumado a passar, a queda durou bem mais. Eu podia ver as pessoas, escutar os gritos da torcida, foi diferente.” De lá para cá, sua vida também deu um salto: sua fama cresceu e as portas se abriram. Este ano trocou de técnico – deixou Vitaly Petrov, um dos melhores do mundo, e voltou a treinar com Elson Miranda, outro bamba na matéria. E se diz pronto para voar mais alto. “Estou voltando para a Itália agora, parte da preparação para a Olimpíada de 2020.”

Correndo do tigre

Os primeiros anos de Thiago no mundo foram de sobressaltos. Os pais, muito jovens quando se conheceram, não seguraram a barra e seguiram cada qual para um canto, deixando o menino de 3 anos com os avós paternos. Apesar dos poucos recursos, o lar de Orlando e Maria do Carmo esbanjava atenção e carinho, tudo que o netinho precisava para ir em frente – e para o alto, como iriam descobrir mais tarde. Alegre, social, ele logo estava misturado à criançada das ruas de Marília, interior de São Paulo, quase sempre atrás de uma bola. Sua referência era o tio. “Ele foi superimportante para mim, era como o irmão que eu não tinha”, diz sobre o tio Fabiano, praticante de decatlo, em que os atletas se submetem a dez provas casca-grossa, como 100 metros com barreiras, arremesso de peso e salto com vara. “Ele me incentivou para o esporte, meio que me proporcionou o que queria para ele mesmo, mas não teve. Sem meu tio, eu não estaria onde estou hoje.”

Os primeiros saltos de Thiago foram nas quadras da escola. “Eu adorava vôlei e, mais ainda, basquete. Achava que tinha futuro aí.” Mas foi acompanhando os treinamentos do tio que acabou se entusiasmando por uma das mais incríveis modalidades do atletismo: o salto com vara. Consta que celtas e cretenses já o praticavam por diversão na Grécia Antiga. E é fácil imaginar que, bem antes, homens mais rústicos já houvessem se dado conta de como uma alavanca dessas poderia ser útil quando se tem um rio à frente e um tigre atrás. Pioneiros de regiões pantanosas da Holanda e do leste da Inglaterra, cercados por miríades de canais de drenagem, não saiam de casa sem uma vara. Mas foi só em meados de 1850, na Alemanha, que a coisa se firmou como esporte. Em 1896, nos jogos de Atenas, tornou-se competição olímpica exclusivamente masculina – regra que perdurou até 2000, em Sidney. Nada disso, porém, passava pela cabeça de Thiago quando começou. “Escolhi o salto com vara porque me pareceu emocionante. Rola uma adrenalina, instiga a gente. De todas as modalidades que pratiquei, foi a mais diferente e radical.”

Dois bifes como prêmio

O primeiro desafio enfrentado por quem escolhe esse esporte, vai explicando o Thiago, é o custo do equipamento. “Uma vara custa R$ 5 mil, R$ 6 mil…” Quando ele começou, aos 13 anos, a prefeitura da cidade comprou uma, com a qual ele passou a treinar, instruído por Fabiano. E o tio era durão. “Ele me estimulava apelando para a alimentação. Dizia: ‘Se não passar 2,5 metros, não almoça hoje’ ou ‘Se passar 3 metros, vai ter dois bifes.’ Isso foi gerando um espírito de competição em mim. Conforme eu ia superando alturas, aumentava também a queda, claro, e isso de voar, de cair a longo prazo, foi uma das coisas que mais me atraiu.” E como não demorou para que mostrasse ter vocação, o Clube dos Bancários de Marília, onde vinha treinando e competindo, ficou pequeno para ele. A cidade também. Mas para seguir as novas oportunidades era preciso superar outra barreira: dona Maria do Carmo. “Vó, a senhora quer que eu seja feliz, certo? Então…”, foi o melhor argumento que Thiago encontrou para convencer a avó. O tio, que cinco anos antes havia tentado ir embora sem sucesso, entrou na conversa. “Mãe, eu queria trilhar esse caminho, a senhora não deixou. Deixa ele ir!” E assim, aos 15 anos, o futuro recordista saiu de casa, rumo a Bragança Paulista. Pouco depois iniciaria seu histórico de vitórias: Campeonato Brasileiro de Menores e o Juvenil, Campeonato Estadual de Menores e o Juvenil, além de medalha de bronze no Sul-Americano Juvenil. Junto com a altura da barra, subiam também os custos. “Em uma competição são necessárias muitas varas, e o ideal é que cada atleta tenha as suas. O transporte é complicado, companhias aéreas cobram fortunas para embarcá-las.” Entra em cena Fabiana Murer, campeã mundial e pan-americana no salto com vara, casada com o treinador Elson Miranda. “Ela foi como uma patrocinadora, me ajudando com um salário na época em que eu estava em transição de clube, mudando para São Paulo.” Thiago considera a amiga muito esforçada, além de uma referência técnica. “Ela sempre me incentivou a buscar o melhor no salto com vara. Tenho meus defeitos como atleta, mas muitas de minhas características boas eu adquiri dela. É uma inspiração.”

Sem saltos no escuro

Em 2010, Thiago foi vice-campeão da Olimpíada da Juventude, em Singapura, e primeiro lugar no Campeonato Sul-Americano da Juventude, em Medelín, na Colômbia. Em 2012, levou a melhor no Campeonato Mundial Júnior de Atletismo, em Barcelona, na Espanha e no ano seguinte, faturou o Campeonato Sul-Americano de Atletismo, em Cartagena. Mas como se prepara um atleta de alta performance, praticante de uma modalidade assim tão técnica? “O salto com vara demanda um treinamento bem genérico, para desenvolvimento de toda a musculatura. Trabalha-se bastante o abdômen, para fechar o corpo na hora de soltar as pernas. E as pernas, também, porque precisamos fortalecer muito, já que é um esporte de velocidade.” A alimentação, ele diz, não é muito rigorosa. “Eu perco peso muito rápido, então meio que como tudo que quero. Agora, conforme a idade vai avançando, estou começando a limitar um pouco o açúcar, e isso tem me incomodado um pouco. Já fui mais formigão, estou mais controlado.”

Outro aspecto a se valorizar na rotina de um atleta internacional é a adaptabilidade – e não apenas aos diferentes tipos de pistas e arenas. “Viajo muito para participar de campeonatos. Em geral, chego no lugar, gasto um dia treinando, outro competindo e, no terceiro, já estou indo embora.” Thiago já morou na Itália, uma das principais bases de seu apurado treinamento. Conhece Dubai, Catar, Singapura, Colômbia, Espanha, Alemanha, Rússia, Estados Unidos… “Adoro essa liberdade, viajar o mundo inteiro, conhecer novos horizontes.” Para não se perder por aí – e nem de si mesmo –, ele afirma que não salta no escuro. “Tenho muita determinação, fé, força e ajuda de várias pessoas. Chegar onde cheguei e viver o que vivo hoje vem do meu desejo pessoal, que não é diferente daquele que existe no coração de cada ser humano. Só é preciso saber onde você quer chegar e por quê – às vezes, chega onde não quer e acaba se frustrando. Portanto, é buscar ser sempre positivo, não perder o foco do que se deseja e descobrir para que se quer chegar lá.” Faltou ele sugerir para mirar sempre mais alto, mas está implícito.

Igual a um passarinho

Mas, para além dessas ideias tão boas, onde estavam os pensamentos de Thiago Braz na Rio 2016? Naquele instante crucial, segundos antes do salto que mudaria sua vida, ouvindo as milhares de pessoas gritando seu nome e, vale lembrar, ciente de que uma daquelas vozes era de sua avó, dona Maria do Carmo – que não perderia esse evento por nada. “Eu não tinha total clareza do que era uma Olimpíada”, conta. “Participei de uma Vivência Olímpica em 2012, tive a oportunidade de estar perto dos melhores atletas, curti o ambiente de uma competição desse nível, mas estar ali dentro era totalmente diferente.”

Ele tinha 22 anos, sentia-se preparado para saltar 5,90 ou até 6 metros, era cotado a ganhar uma medalha, mas não a de ouro. Imaginava que isso seria possível num futuro próximo, mas não naquele dia. “Fiquei muito feliz por tudo conspirar a meu favor, passar o meu próprio recorde, quebrar o recorde olímpico e ganhar ouro batendo o recordista mundial – ainda mais em uma Olimpíada dentro de casa! Tudo aconteceu muito rápido, sem que eu pudesse imaginar. Até que aconteceu.” No átimo da queda, que lhe pareceu mais longa do que as outras, Thiago Braz conta que era um passarinho. “Uma sensação gostosa, meio inexplicável, de se sentir livre naquele exato momento. Quando caí naquele colchão, vendo que havia passado a barra, foi libertador.” Sua meta agora é bater o recorde mundial de 16,16 metros, alcançado por Lavillenie em 2014. “É algo difícil, mas não impossível.” Não mesmo! Afinal de contas, Thiago passou a barra com larga folga quando ganhou o ouro.

 

AS DUAS PRIMEIRAS FOTOS:  foto © Copyright Comitê Olimpico do Brasil

A ULTIMA: Foto Fabio nunes

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