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Luxo e adrenalina. Se você cair, pelo menos será em grande estilo

Aos pés da montanha mais majestosa da Europa, desbravamos em temperaturas negativas com a missão de desvendar dois ícones dos alpes franceses: Chamonix, o berço do alpinismo na Terra; e Megève, que transformou singelas vilas gélidas em charmosos refúgios de luxo

POR carlos marcondes 9 MIN

19 Maio

9 Min

Luxo e adrenalina. Se você cair, pelo menos será em grande estilo

POR carlos marcondes

	

Sempre fui tropical, um ser do mar. Mas confesso que não há como não se emocionar com o silêncio de uma montanha gelada. É uma convocação à reflexão, penetra facilmente pelos espessos agasalhos térmicos e provoca um arrepio na pele desconcertante. Surgem lágrimas, mas são do bem. Duas horas de carro separam o encontro com o gigante europeu, partindo da cativante e surpreendente Lyon — capital do Auvergne- Rhône-Alpes, região com a maior área de esqui do mundo, onde se encontram 173 estações encravadas na cultura alpina francesa. Lyon é cultural, meca gastronômica do país e merece muito sua visita.

O primeiro destino é a mítica Chamonix. Venerada por tantos predicados e pioneirismos, ela poderia facilmente ser definida como o santuário entre a paixão do homem e os esportes de neve. Foi em suas pistas que, em 5 de janeiro de 1924, o mundo conheceria a magia e intensidade da primeira Olimpíada de Inverno da história, com 300 atletas de 16 países, disputando seis categorias esportivas: ice hockey, speed skating, artistic skating, curling, bobsleigh e Nordic skiing.

Estou a poucos quilômetros dela, de carro, e ao contrário do esperado, não subimos uma serra tão íngreme. Sua elevação é modesta, apenas 1.036 metros, mas basta olhar ao redor para entender sua força. Chamonix-Mont-Blanc está encravada entre paredões, em um supervale desafiador, com mais quatro vilas charmosas (Vallorcine, Argentière, Servoz e Les Houches). A sensação de profundidade é tão contundente que durante o inverno, algumas partes quase não recebem a luz do Sol. Trata-se de um canto quase de tríplice fronteira entre Itália, Suíça e França, onde o maciço de sua majestade, o Mont Blanc, e de outras imponentes montanhas ao redor impõem soberania absoluta no desenho do cenário. Não parece tanto, mas do topo do gigante de 4.810 m até as ruas de Chamonix, são quase 3.800 m. Uma intensidade única.

     

Nasce o alpinismo

A relação desse vale com a história das desbravações e esportes de montanha nos leva a 1741, quando dois ingleses decidiram caminhar de Geneva (Suíça) até a vilazinha remota nos pés do Mont Blanc. Ao se encantarem com o glaciar Mer de Glace (voltarei nele), decidiram divulgar e transformar Chamonix em um coqueluche turístico de verão.

Exatos 45 anos depois, em 1786, dois franceses, o médico Michel-Gabriel Paccard e o caçador de cristais Jacques Balmat, alcançaram o feito que todos pensavam ser impossível. Pisaram no topo do Mont Blanc (4.810 m), entre França e Itália, que é a montanha mais alta da Europa Ocidental (o maior é o Monte Elbrus na Rússia, na divisa com a Ásia). Eles plantaram a semente do que viria a se tornar uma febre mundial: o desafio de conquistar o cume. A proeza desses malucos é considerada como o nascimento do que hoje chamamos alpinismo.

A chegada da linha de trem em 1901 selava o destino de Chamonix como mito turístico dos Alpes, tanto no inverno quanto no verão. Hoje são mais de 60 hotéis, sendo quatro com cinco estrelas e 12 com quatro. Tornou-se plural, com influência de várias culturas e visitada por gente de todos os cantos do planeta. É charmosa, com ótimas ofertas de restaurantes. De sofisticados como o Le Matafan, do chef Mickey Bourdillat, a tradicionais como o curioso Calèche, típico alpino que serve fondue, cuja decoração lembra um pequeno museu-antiquário.

Imperdível é também o recém-inaugurado QC Terme, spa de luxo de bandeira italiana, com mais de 30 experiências de bem-estar, muitas delas com águas quentes e saunas. A piscina externa é emoldurada pelo Maciço do Mont Blanc. “Chamonix é incomparável, de perfil cosmopolita completo, com experiências de luxo e amplo portfólio de esportes”, ratifica Arnaud Jamson, diretor do turismo da cidade. Incomparável também pode ser o predicado que a descreve no tema esportes radicais. Além de templo do alpinismo, ela é palco de todas as extremas invenções de divertimento e competição na neve. Não se espante em cruzar pelas ruelas mitos freeriders como Sylvain Saudan e Marco Siffredi, além de nomes da nova geração como Aurélien Ducroz e Vivian Bruchez. É uma região de feras.

Fui ciceroneado na montanha por Thomas Ligonnet, um local de Chamonix, campeão francês de snowboard (half-pipe-1998) e vencedor do campeonato de kitesurf de Andaluzia (Espanha-2009). É daqueles que encaram o conceito de limite com outros olhos. “Chamonix é um lugar completo para esportes, extremamente técnico e desafiador. Hoje, faço bem menos loucuras, pois já perdi queridos amigos entre essas montanhas”, conta com pesar Ligonnet, que, além de instrutor, é jurado do circuito mundial de kitesurf.

   

As mortes por avalanches e acidentes acontecem em todas as temporadas, principalmente devido à vasta oferta de áreas chamadas “fora de pistas”. É palco também do insano esporte wingsuit. Cerca de três anos atrás, um atleta perdeu o controle de um voo e se chocou fatalmente na parede de uma casa da cidade. A recomendação é viver a experiência do espetacular voo de parapente, cênico e ao lado do Mont Blanc, inesquecível e com baixíssimos riscos. Outro esporte que tem crescido muito é o ski touring, no qual aventureiros sobem montanhas utilizando uma pele de foca sintética (equipamento que fica acoplado à sola dos esquis e auxilia para que não escorregue para trás) especial no esqui e depois descem o percurso em locais de neve às vezes virgens, com a sensação quase afrodisíaca de conquista.

 

Quem esquia de verdade chega a Chamonix com uma missão no peito. Desbravar o Vallée Blanche. É a oportunidade de descer um dos off piste mais cobiçados do planeta, percurso mágico de 23 km em meio a um glaciar belíssimo. É essencial ser experiente e contar com um guia local. O acesso se dá pelo ponto turístico mais espetacular dos Alpes, as Aiguille du Midi (Agulhas do Meio-dia). Trata-se do local mais alto da Europa que um turista comum consegue chegar sem escalar, a 3.842 metros, via dois teleféricos e ainda um elevador, onde chega-se a um quadrado de vidros transparentes não recomendável para quem tem vertigem. Entre seus pés e as três camadas de vidro, uma queda de mil metros de altitude. Na sua frente, simplesmente, sua majestade, o cume do Mont Blanc. O lugar é absurdamente surreal e recebe 450 mil pessoas por ano.

Também é imperdível o passeio de trem que leva ao Mer de Glace (Mar de Gelo). O desembarque é a 1.913 metros de onde tem-se um cartão-postal extraordinário do maior glaciar da França, sob a tutela das montanhas Les Grandes Jorasses e o Les Drus, considerado um dos picos mais “casca-grossa” para escalar da Europa.

 

Além de babar com o visual, o visitante pode almoçar no restaurante do histórico e isolado Hotel Grand du Montenvers e acessar uma gruta de gelo que é um retrato didático dos efeitos das mudanças climáticas no planeta. Tanto na gruta como em um pequeno museu ao lado do hotel, é triste constatar a impressionante redução do glaciar nas últimas duas décadas. Cientistas que estudam o Mar de Glasse preveem o seu desaparecimento em menos de 80 anos. Um alerta enfático para a sociedade e para governantes céticos ou imorais. Por fim, a experiência da subida ao Mont Blanc, que não é uma jornada turística. A cada ano, cerca de 20 mil tentam conquistar o cume, menos da metade alcança a glória. Não é tão complexo, exige guia, treino, um preparo físico razoável, uma pernoite em um refúgio criado para os alpinistas e uma vontade incontrolável de conversar solitariamente com as montanhas. Escutá-las, sem ouvi-las! O desafio foi tatuado na alma, Mont Blanc, eu voltarei!

Megève, sinônimo de elegância

Antes de partir dos Alpes tenho uma missão menos aventureira. Trata-se de desvendar um pouco da história e dos prazeres daquela que é tida como referência mundial no turismo de luxo de montanha. Diferente da outra estrelada francesa Courchevel — famosa por ser uma das mais glamorosas —, Megève é elegante em sua essência. Car-free, é palco de milionários que circulam pelas ruas do centro histórico, sem que você imagine estar caminhando ao lado de membros da classe AAA.

Ela é considerada berço do conceito de ski resort na França, por ter sido a primeira a implantar um teleférico exclusivo para esquiadores, isso ainda em 1933. Mas a trajetória dela como estância de luxo começa em 1920 e está associada à visionária Noémie de Rothschild, esposa do Baron Maurice de Rothschild, uma das famílias mais tradicionais e respeitadas do Globo. Apaixonada pelas experiências de montanhas de neve e frequentadora constante da aristocracia que circulava em St. Moritz (Suíça), Noémie quis levar à França o conceito de ski resort e após ter sido aconselhada por um de seus instrutores particulares, rapidamente se convenceu de que Megève era um paraíso para seu projeto. Hoje, a família é dona de dois hotéis cinco estrelas (incluindo um Four Seasons), além do excelente restaurante de refúgio de montanha Ideal 1850, de um campo de golfe com 18 buracos, spas e diversas outras propriedades. A iniciativa de Noémie é tida como um marco no conceito de experiência de luxo de montanha e na história do vilarejo, que já existia desde o século 14.

A estação é frequentemente citada como uma das mais belas vilas turísticas do mundo. O charmoso centrinho conta com lojas de marcas como a consagrada Aallard, e abriga alguns dos mais de 90 restaurantes da cidade. Há ainda 15 carruagens que convidam a um passeio à moda antiga, o maior centro esportivo dos Alpes e 14 sofisticados spas para relaxar os músculos após um dia na montanha. Quase todos estão em alguns dos hotéis-butique, identidade de Megève, que preza pela arte de bem receber. São nada menos que nove cinco estrelas. Um dos exemplos mais autênticos é a Les Fermes de Marie, que acaba de completar três décadas. Amantes de arquitetura enlouquecerão com o design, todo em madeira, pensado para proporcionar uma imersão aconchegante, em sintonia com o espírito alpino.

Eles possuem um spa que leva amenities de uma marca própria, a Pure Altitude, que tem ganhado reconhecimento. Os fundadores visionários Jocelyne e Jean-Louis Sibuet são proprietários também do histórico Hotel Mont Blanc, no centro e um dos mais antigos da cidade. Jocelyne e a filha Marie são daquelas anfitriãs que tornam a experiência verdadeiramente acolhedora.

Diferente de Chamonix, a vibe é bem serena no centro. São mais pessoas sem roupas de esqui do que vestidas para o esporte. Muitas delas buscam apenas desfrutar do charme, do lifestyle e do clima de wellness. Que pecado! Esquiar em um dia de sol, rodeado de balões e parapentes que sobrevoam esse canto dos alpes franceses, é um privilégio. São mais de 400 km, todos interligados, divididos em 235 pistas, a terceira mais ampla do país. É um ambiente familiar, com ótimas áreas para crianças e iniciantes, além de proporcionar vistas lindíssimas das vilas alpinas e do Mont Blanc, mostrando uma outra faceta, mais suave e afável. De Chamonix avista-se um rosto desafiador do gigante. Já de Megève ele se mostra convidativo, como se abençoasse um dia energizado de esqui. Admirá-lo de duas das mais legendárias estações do mundo é absorver uma intensa dose de vitamina para a alma.

DICAS QUENTES

Como chegar

As duas maravilhosas grandes cidades são usadas como base para acessar tanto Chamonix como Megève. Vindo da Suíça, Genebra é a mais próxima — pouco mais de uma hora de carro. Já da França, partindo de Lyon, o percurso leva duas horas. É possível também chegar da Itália, desde Milão, em cerca de três horas.

Onde Ficar

Grand Hôtel des Alpes (Chamonix): Um hotel de charme, com uma história impressionante de 180 anos e que acaba de receber a quinta estrela. grandhoteldesalpes.com

Hotel Mont Blanc (Megève): Um dos mais tradicionais, no coração do centro. É aconchegante e fica a 50 metros de um dos teleféricos das estações. hotelmontblanc.com

Les Fermes de Marie (Megève):  Imersão na experiência de uma pousada alpina butique de luxo, repleta de autenticidade. fermesdemarie.com

Onde Comer

Chamonix

Le Matafan oferece gastronomia sofisticada: lematafan.com

Comptoir des Alpes traz um menu franco-italiano contemporâneo: comptoir-des-alpes.com

La Calèche é histórico e essencialmente alpino: restaurant-caleche.com

No passeio do Mer de Glace, o Refuge du Montenvers oferta bons pratos com queijos regionais: refugedumontenvers.com

Megève

Le Restaurant Traditionnel, no hotel boutique Les Fermes de Marie, imprime contemporaneidade a produtos e receitas locais: fermesdemarie.com

O restaurante do Grand Hôtel du Soleil d’Or tem menu fechado, que muda todos os dias. O hotel cinco estrelas oferece ainda uma convidativa chocolaterie e um animado roof top bar: lesoleildor-megeve.fr

Ideal 1850, da família Rothschild, é especializado em frutos do mar e pescados frescos, e pratos assados em forno à lenha. Elegante e com vista estupenda dos Alpes: montdarbois.edmondderothschildheritage.com

O que fazer

Não perca a chance de fazer um voo de parapente com instrutor em Chamonix, um dos locais mais cobiçados do mundo para o esporte, e voar diante do Mont Blanc. Foi em Megève que surgiu a primeira e maior escola de esqui do mundo, a L’Ecole du Ski Français. É recomendável contratar um professor privado por um dia, porém, custa quase 400 euros. Em Megève, também é possível voar tanto de parapente como de balão.

Mais informações: br.france.fr

Carlos Marcondes é jornalista, conhece mais de 60 países, já morou na Austrália, Inglaterra, Espanha e agora vive na Itália. @carlosamarcondes

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