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Mamma Rocks!

Ela tem quase 20 anos de carreira, dez álbuns lançados e uma coleção de prêmios na estante. Filha de um produtor musical com uma das maiores artistas da MPB, ela poderia ter ficado na cola deles, mas preferiu seguir sua própria estrela. Aos 35 anos, a cantora, compositora, empresária – e mãe – Luiza Possi se reinventa em plena quarentena. Confira

POR Gabriela Del Carmen e Simone Blanes / Edição: Melissa Lenz / Fotos: Pupin&Deleu / Styling: Cesar Cortinove / Beleza: Virginia Barbosa / Produção: Camila Battistetti 7 MIN

10 Maio

7 Min

Mamma Rocks!

POR Gabriela Del Carmen e Simone Blanes / Edição: Melissa Lenz / Fotos: Pupin&Deleu / Styling: Cesar Cortinove / Beleza: Virginia Barbosa / Produção: Camila Battistetti

	

Ser cantora não foi um sonho de infância. Eu queria ser psicóloga, queria ser juíza. Mas tudo foi acontecendo naturalmente. A primeira vez que subi no palco foi no sarau da minha escola. Foi bem incrível, senti uma coisa inédita. Aí percebi que aquilo era legal, comecei a ter mais bandas, levar isso mais a sério. Abri o show do Skank, participei de muita coisa antes de gravar meu primeiro disco (Eu Sou Assim, 2002). Quando tinha uns 15 anos [depois de se apresentar no Programa do Jô, em 2001], as gravadoras começaram a ligar para a minha mãe, queriam me contratar, e foi aí que dei o start. Eu gravava e fazia o terceiro colegial ao mesmo tempo, era uma loucura! Fazia lição no estúdio, chegava em casa e comia miojo para dormir rápido.

Nasce uma estrela

Acho que ninguém esperava que a filha da Zizi Possi se lançaria como uma estrela teen pop. Isso foi legal, porque já de cara eu disse que não estava na cola da minha mãe. As pessoas falam dela com muito carinho, respeito e acho ótimo. Mas meu caminho sempre foi muito diferente do dela. Eu tinha uns 13 anos quando escrevi a minha primeira música, Tão da Lua, que abre o meu sétimo álbum (Sobre Amor e o Tempo, 2013). Trabalhar na gravadora (Indie Records) ao lado do meu pai (Líber Gadelha) foi bem difícil e legal ao mesmo tempo. É complicado discutir na carreira e ficar tudo bem na vida familiar, é melhor não expor a relação a isso.

A filha virou mãezona

Ela me transformou em uma pessoa mais compassiva e amorosa. Percebi que é tão intenso essa história de ser mãe, que todas as dores e prazeres valem a pena. Você ganha um senso de responsabilidade, ao mesmo tempo que tem medo que as coisas aconteçam, passa a usar outros sentidos, menos racionais e mais instintivos, vira um bicho! Eu sou uma mãezona do meu filho. Muita gente acha que não, eu também não sabia se seria, mas sou! De ficar junto, curtir, trocar fralda, ficar o tempo inteiro, cuidar, botar para dormir, e não perder a paciência, sabe? Tenho muita paciência e compaixão com ele. O Lucca me ensinou a sorrir e a ser feliz. O que mudou foi essa coisa do corpo, e é muito bom esse desprendimento, essa liberdade de não ter pressa de voltar, de saber que é natural e, se não voltar mais, está tudo bem. Já emagreci os 25 quilos da gravidez, mas mesmo antes eu comia, transava, me sentia sexy, e ok.

Luiza ao vivo e reinventada

Este é um novo momento para mim e estou me reinventando com as lives. Elas estão indo muito bem, o que está sendo bom tanto para a cabeça quanto para as economias. Não estou mais parada como no início da quarentena, quando ninguém sabia muito o que iria acontecer. Mas, claro, tudo o que faço é pensando nas novas regras saúde e higiene e com o mínimo de pessoas por perto. Hoje em dia é preciso ter um olhar mais cuidadoso sobre todas as coisas.

Luiza Possi posa para e edição 248 da revista TOP Magazine

A nova realidade

É engraçado pensar que um dia antes de tudo isso estourar eu ainda estava fazendo show, com aquela alegria e, de repente, tudo mudou. E todas as pessoas tiveram que tomar decisões imediatas, repensar valores, mudar. Quando saiu a notícia da pandemia, lembro de falar com a minha empresária pelo telefone e perguntar se ela achava que os contratantes cancelariam os shows. Ela disse que não. Mas não deu dez minutos, ligaram do escritório avisando que todos estavam sendo cancelados ao mesmo tempo, inclusive o eu que estava indo fazer naquele momento. Mal cheguei ao teatro, tive que voltar. Foram mais quatro horas de carro, e quando cheguei ao aeroporto, vi várias pessoas de máscaras… Foi muito difícil de cair a ficha. Nunca, jamais pensei vivenciar algo parecido. Me sinto em um filme, uma série de ficção científica que vai acabar a qualquer momento.

O vírus de cada um

Acho que o corona é um vírus individual, que tem esse efeito de trazer à tona muitas coisas que estavam escondidas debaixo do tapete. Nessa crise toda é fato que não cabem mais certas coisas. É como parar a espécie porque já estão fazendo muita besteira, e os efeitos nas cidades já começam a aparecer. Acho que vai ser uma lição de humildade coletiva. E para quem não quer entender ou aprender, sinceramente, não tenho a menor paciência. A situação já é difícil e ainda ter que convencer a pessoa, não dá! Ele está trazendo um aprendizado sobre o que realmente é importante. Sinto esse clima das pessoas entenderem que podem falar, parar de empurrar as coisas com a barriga, sair do armário politicamente falando. Acho que vai transformar todo mundo, não dá para ter aquela alegria o tempo todo. Pode ter uma depressão coletiva, mas tem o lado da solidariedade que é muito bonito.

Novos hábitos

Agora a gente deixa os sapatos lá fora e desinfeta tudo antes de entrar em casa: as mãos, os pés, as rodinhas do carrinho do pequeno… Tenho me forçado a tocar piano todos os dias e a aprender coisas novas. Não estou compondo, mas tenho tocado bastante. Também estou cheia de filhotes (de schnauzer) em casa, então não falta coisa para fazer. É exaustivo. Estou adorando essas pessoas que falam: ah leia um livro na quarentena, vai maratonar uma série! (risos) Não dá, sou mãe!

Nasce um disco

Microfonado é um projeto acústico, só com o que pode ser microfonado, produzido pelo Rick Bonadio nessa minha volta ao estúdio Midas após tanto tempo. Tem Cielito Lindo, uma canção que a minha avó cantava para a minha mãe e estava na novela Salve-se Quem Puder (2020), a participação de Sérgio Britto (Amanhã Não se Sabe) e Vitor Kley (Vem Depressa).


Quem me inspira

Lulu Santos, Cássia Eller, Ella Fitzgerald, Etta James. Meus ídolos sempre foram Prince e Michael Jackson. Gosto de ouvir Haikaiss, Cacife Clandestino, Projota... Adoro rap nacional.

Do brilho ao pijama

No palco estou sempre com muito brilho. Minha avó falava que para ir à televisão tinha que estar com brilho. Então uso sempre. Em casa fico de pijamas. Um dia eles já foram horríveis, hoje são bons e bonitos. Gosto de passar vitamina no rosto, creme nos olhos e hidratar os cabelos. Às vezes, uso batom.

Medos estranhos

Sempre tive muito medo de pombo, não sei dizer por quê. Dever ser de outras vidas. Arrependimentos tenho vários. Não sei dizer quais, mas já estou na terapia.

Felizes para sempre?

Não, não acredito. Acho que sempre vão ter altos e baixos, e é saudável que tenha. Felizes para sempre é muita utopia.

O que me define

Minha personalidade é forte, tenho muito bom humor, ironia, garra e determinação. A minha independência me define. Acho que é a coisa mais importante da minha vida. Sempre fui assim. Eu sempre quis trabalhar para ninguém poder falar nada de mim, pagar meus rolês, fazer as minhas coisas. A sensação de dependência me dá claustrofobia.

Não vivo sem…

Meu filho.

Choro de rir…

Com meus músicos e meu marido.

O que me irrita…

Não tenho muita paciência para esperar.

Adeus…

Já me livrei de alguns velhos hábitos: beber leite, comer pão, fumar.

Querer o bem

Eu ajudo algumas instituições: Pequeno Príncipe, Experimente Nascer de Novo, que é das pessoas que vêm refugiadas da guerra para cá. Poder cuidar um pouco dos outros, além do nosso próprio umbigo, é importante.

Quando isso tudo acabar…

Acho que vamos ficar mais humanos, sentir o quanto somos frágeis e vulneráveis. E mais humildes. Quero cantar muito nesse mundo afora. E morar na praia. Por que não? Nessas situações você percebe que pode morar em qualquer lugar, se adaptar, que pode e deve viver feliz, agora. Depois disso, poderemos tudo.

Luiza Possi é a capa da revista TOP Magazine (Edição 248)

 

 

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