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26 Maio

Loba em pele de dama

Com mais de 20 anos de carreira e de 15 milhões de discos vendidos, ela foi a artista de rock que mais vendeu nos anos 2000. Com Matriz - seu quinto álbum de estúdio e o primeiro desde que se tornou mãe -, Pitty está absolutamente plena... Confira a entrevista exclusiva nas páginas a seguir

POR Melissa Lenz 6 MIN

26 Maio

6 Min

Loba em pele de dama

POR Melissa Lenz

	

“Eu me domestiquei pra fazer parte do jogo / Mas não se engane, maluco / Continuo bicho solto” – são com esses enigmáticos versos que Pitty, 42, abre a primeira das 13 faixas de Matriz, lançado pela Deck no último ano em cd, vinil e k7. “Bicho solto é o prólogo pra essa história que eu queria contar, mas que só fui descobrindo à medida em que fui fazendo o disco”, diz. A canção é um poema que ela guardava há algum tempo. “Quando fui pensar em repertório para o disco, lembrei dessa poesia, e falei putz, vou deixar isso aqui guardado pra usar em algum momento. Esse é um dos vários escritos que vou escrevendo e guardando. E aí tem um momento em que eles se encaixam.” E o sucesso parece se encaixar bem na vida da baiana Priscilla Novaes Leone, que começou a cantar aos 17 anos e aos 20 já desbravava um mundo altamente testosteronado atuando como baterista e vocalista de bandas de punk rock na cena underground da Bahia.

Em 2003, descoberta pela Deckdisc, lançou seu primeiro single, Máscara, seguido do álbum solo Admirável Chip Novo (Deckdisc). Este vendeu 800 mil cópias e se tornou o disco de rock mais vendido daquele ano no Brasil. Em 2005, repetiu o feito com Anacrônico, de onde saíram os hits Na Sua Estante e Memórias. Em 2009, com Criaroscuro vieram os sucessos Me Adora e Fracasso. Em 2014, depois de se dedicar por três anos ao duo de folk music Agridoce (com seu guitarrista Martin Mendonça) retomou a carreira solo com Setevidas. Em 2017, um ano após ter dado à luz Madalena – fruto do relacionamento com Daniel Weksler (baterista do NX Zero) – lançou os clipes Na Pele (com Elza Soares), Contramão (com Cassia Reis e Emily Barreto) e Te Conecta, que acabou entrando para Matriz.

Cantora, compositora, multi-instrumentista, produtora, escritora, empresária e atualmente apresentadora (Saia Justa, GNT), Pitty foi a artista de rock que mais vendeu nos anos 2000, e também figurou na lista das cantoras mais bem pagas e uma das dez mulheres milionárias do Brasil – com patrimônio líquido estimado em mais de R$ 6 milhões, em 2012. Em toda a carreira, já vendeu mais de 15 milhões de discos, venceu diversos prêmios importantes da música brasileira e foi indicada quatro vezes ao Grammy Latino. Só para não esquecermos, ela também foi eleita a 35ª vocalista de rock mais sexy do planeta pelo (Frantik Mag, 2010).

Nesta entrevista exclusiva (publicada na íntegra em nosso canal do YouTube), a roqueira – que acha engraçado quando alguém a chama de “princesa do rock” – conta o que há por trás de cada faixa de Matriz. Confira os melhores momentos:

Quando você surgiu na cena uns 20 anos atrás, algumas pessoas gostavam de compará-la com Alanis Morissette. Hoje você é a referência Pitty. Como se enxerga neste momento?

Eu tô feliz com esse momento. Tô me sentindo realizada como artista. Acho que é o disco que eu queria fazer agora, foi tudo muito se encaixando, sabe? Foi um processo muito orgânico. Então eu tô plena, tô de boa. Eu tô massa.

Tem alguma coisa a ver com a letra da faixa Noite Inteira?

Essa foi uma que sentei a bunda na cadeira e falei: cara, preciso de uma letra pra essa música. Eu já tinha também essa ideia de trazer uma coisa latina, pra brincar um pouco com essa história de “vai pra Cuba”, e falar um pouco de liberdade, de revolução e usar isso de forma irônica. Foi construída comigo sentada lá no estúdio, ouvindo a base, os meninos lá gravando… E eu pensando na poesia, encaixando a métrica, escolhendo palavras. Por isso até que ela tem uma métrica mais quadradinha, porque é um texto que foi feito pra música. Quando é o contrário você vê que o texto é mais desconectado, não é tão encaixado, é mais pontudo. Esse é mais redondo. Fiquei procurando palavras que rimassem mas que não fossem óbvias. É uma música de dançar e é uma música de pensar. Era isso que eu queria trazer com Noite Inteira. E tem a participação de Lazzo Matumbi, que é uma grande referência de voz baiana. Ele entra pra dizer a mensagem da música, que é “respeita a existência ou espere a resistência”. Tinha que ser ele a dizer isso.

Como aconteceu a parceria com seu marido (Daniel Weksler) na sugestiva Ninguém é de Ninguém?

Foi de um jeito bem inusitado. O Dani curte fazer uns beats e é um grande pesquisador de música hip hop, de eletrônica, dessa galera nova que hoje trabalha de uma forma muito bacana com sample.  E ele me mostrou o beat e falei: isso aí é legal. Quero isso aí. Então peguei o beat, que tem uma onda meio de raga, de arrocha, e imaginei um rock em cima daquilo. Quando mostrei a proposta, ele falou: nossa, nunca imaginaria que entraria essa música depois do beat. Foi essa construção. E a letra fiz depois pensando numa música mais provocativa mesmo, e poética. Porque ela serve para muitos tipos de relação. “Eu te dou metade agora / guardo o resto pra depois”, eu não disse o quê. Resolva aí o que você pensa que é. Dá muitas interpretações…

Por que você optou por incluir uma releitura no disco?

Primeiro porque eu acho Motor uma música muito linda, muito emocionante. Segundo porque ela é de um compositor baiano (Teago Oliveira), de uma banda baiana, que é a Maglore. Tem a ver com a ideia do disco de ser matriz, de trazer essas novas, de trazer um pouco esse lado B da Bahia que as pessoas talvez não conheçam. Um compositor incrível, uma banda massa de rock de lá. E Rafa Ramos que é meu produtor artístico sempre me falou: Ô, essa música ia ficar massa na sua voz. E de fato, quando eu gravei eu me emocionei.

E aí você vem com a primeira vinheta na faixa 5.

“Saudade é vontade daquilo que já se sabe que gosta.”

E o que que vem pra você hoje com esse sentimento da saudade? Do que a Pitty tem vontade?

Vish, a lista é longa! Nesse momento eu tenho saudade do futuro. Tô com saudade do que vai acontecer amanhã, na verdade. Tenho esse sentimento meio maluco em relação às coisas que são do passado, porque sou zero saudosista. E esses aforismos, essas vinhetas que entraram, é porque eu queria trazer pro disco uma coisa da palavra, da poesia, do spoken word. Essa coisa de usar o texto independentemente de melodia… E eu escrevo vários aforismos, que são essas frases soltas, que pra mim são pensamentos e reflexões a respeito de coisas. Nesse caso, sei lá, o que é saudade pra você? É uma coisa extremamente difícil de ser definida.

E aí você entra também com outros aforismos: “Nunca é tarde demais para voltar para o azul que só tem lá.” (Azul). E na sequência vem Bahia Blues. Como foi voltar a essas origens?

Eu gravei duas faixas em Salvador. Gravei outras em SP, no Rio, em vários estúdios diferentes. Foi um disco feito ao longo de um ano, então o processo foi bem longo em comparação aos outros que a gente entrava e saia com o álbum pronto. Esse foi se fazendo nas brechas e à medida que iam pintando as músicas. O processo foi muito fluido, muito natural. E o Bahia Blues foi uma das últimas composições que fiz para o Matriz, junto com Ninguém é de Ninguém. Porque eu precisava de um link, de um elo pra contar essa história. Porque aí eu já tinha entendido e sacado qual era a história que o disco estava contando. Quando eu a entendi, lembro que mergulhei nela de cabeça. Falei, agora então vou fazer uma autobiografia ao molde, com formato de blues, acho que a coisa de contar realmente uma história.

A música começa assim: “Eu vim de lá, mas não posso mais voltar”. E no final: “Eu vim de lá… e agora eu posso voltar.” Como é retornar hoje?

Agora é natural. Agora é possível existir de uma forma artística dentro desse lugar. Eu acho que o distanciamento é histórico, do próprio tempo… Faz com que a gente veja as coisas de um jeito diferente.

Me corrija se estiver errada, mas imagino que você deva olhar pra sua cidade e ver várias coisas diferentes da forma como você via quando morava lá. Tem essa questão do olhar do migrante. Porque eu sou uma migrante, eu vim de lá. Eu não sou daqui. Bahia é o sol. É o olhar do imigrante para sua terra, sabe? Só que com esse distanciamento. Bahia Blues é isso.

O que você faz para se conectar?

Ao longo da minha vida, já tentei me conectar de diversas formas. E acho que depende do seu momento, estado mental, emocional, financeiro, espiritual. Essa semana o que funcionou pra mim foi meditação. Mas pratiquei yoga durante muito tempo. Mas não estou falando só de conexão astral, não. Mas de estar no momento presente, de olhar, porque a gente vive nessa correria! E a gente acorda e faz as coisas que tem que fazer, corre atrás de grana, paga os boletos e vai dormir. E no tempo que sobra entre tentar ganhar dinheiro e pagar os boletos, a gente tenta ser feliz, entendeu?

E não sobra muito tempo… (risos)

É, outro aforismo que escrevi outro dia: viver é isso: é correr atrás de grana e pagar os boletos e nesse meio tempo tentar ser feliz. Então essa coisa de parar pra pensar onde você queria estar (como na letra  de Te Conecta) é uma reflexão que faço comigo às vezes. Pera aí, para. É aí. Saca? É esse o lugar? Acho importante pensar nisso, senão a gente só vai indo, né? Vai vivendo um dia depois do outro, sem pensar muito…

Já tem um link com a próxima canção, Redimir. Vamos lá, do que você já se perdoou nos últimos tempos?

Muitas coisas. Todo dia, o tempo todo, um processo constante. Eu sou uma pessoa muito autocrítica, e acho que às vezes sou muito severa. Essa general que mora em mim é muito dura. E procuro trabalhar nisso e também ser um pouco mais gentil nesse sentido… Acho que é um exercício de gentileza com a gente mesmo, saca? Não ser tão duro, entender as nossas falhas e as coisas onde a gente erra, se permitir errar, se permitir arriscar. Eu tenho esse problema: tudo o que faço acredito que poderia ser melhor. Eu vejo defeito em tudo. Quem trabalha comigo sabe que sou super exigente. Eu sei que sou perfeccionista, o que às vezes gera uma angústia, uma ansiedade muito grande. Então essa música fala sobre isso, sobre tentar enxergar esse general interno, essa general interna. E… peraí, calma, não se puna tanto não.

Você acha que a maternidade suavizou um pouquinho essa general?

Eu acho, porque não tem outra opção. Ter filhos não vêm com manual. Por mais que você tenha escutado ou lido, cada um vai ter a sua experiência e vai, você vai errar. Você tenta proteger aquele ser humano de todos os jeitos, vai ter algum trauma ali que você não vai saber qual é. Então, é se permitir ao desconhecido. A maternidade me assustou muito, a princípio. Me trouxe muito essa coisa de se jogar no desconhecido, que é uma coisa pra quem tem obsessão por controle como eu, foi um baita desafio! Um baita desafio! Um aprendizado mesmo.

Sobre as marcas que nunca vão sair (faixa Para o Meu Grande Amor), aumentou alguma tattoo nesses últimos tempos?

Aumentou recentemente, mas deu meio ruim porque eu acho que não cobri direito, ela ta meio craquelada. Vai melhorar. Vou cuidar direitinho, tá cascuda ainda (ela mostra o braço com o símbolo de Vênus tatuado).

Por que a Vênus?

Isso aqui foi por 2 motivos: um porque meu sangue é O Positivo e eu queria me lembrar, nunca me lembro! E o segundo porque é o símbolo do feminino, e para mim particularmente, eu não nasci mulher, eu fui me tornando mulher.

Simone de Beauvoir.

Simone de beauvoir. E pra mim isso é uma verdade. Portanto, hoje me sinto mais conectada com esse símbolo do que nunca.

 

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