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Fogo e Gelo

No Círculo Polar Ártico, a natureza vulcânica e a cultura nórdica se misturam em um país de extremos: a Islândia

POR feco hamburger 5 MIN

27 jul

5 Min

Fogo e Gelo

POR feco hamburger

	

As referências à Islândia são várias, de Björk à erupção do vulcão que fechou os aeroportos da Europa, em 2010. Da Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, ao crash econômico de 2008. Da arte contemporânea de Olafur Eliasson, presente até em Inhotim, ao epicentro da recente série de TV Sense8, além, é claro, de diversas locações de Game of Thrones.

O fato é que nessa pequena ilha, localizada no limite do Círculo Polar Ártico, a natureza vulcânica e a cultura nórdica se misturam para formar um país de extrema singularidade. Localizada no encontro das placas norte-americana e euroasiática, a ilha está repleta de fenômenos geotérmicos, como vulcões, gêiseres e fontes termais, espalhados por fiordes, praias rochosas, glaciares e montanhas do interior.

As águas geladas do oceano ártico, repletas de peixes, fazem da pesca atividade fundamental para a economia do país. A mineração também é importante e o turismo crescente.

A sociedade é orgulhosa de sua identidade e trabalha duro para manter os altíssimos níveis sociais, de educação e saúde, apesar das intempéries constantes. Considerado um dos povos que mais consomem literatura, o islandês tem sua cultura retratada em diversas sagas, histórias contadas em prosa e verso, como a famosa Edda, em que Thor, Oddin e Frigg compõem a fantástica narrativa, trazendo a mitologia viking para a história da formação do país na Idade Média.

A língua – intransponível para a maioria dos mortais – não é obstáculo para explorar o país. Quase todos os islandeses falam inglês e são bastante receptivos com os visitantes, ainda que possam parecer indiferentes, como os nórdicos em geral.

Por depender muito das importações, muitos serviços ou produtos são caros na Islândia, mas é possível viajar com um orçamento médio. E eu recomendaria o aluguel de um carro, ao menos por um período. O país é bem sinalizado e seguro, desde que o motorista não se aventure sozinho nas entranhas das highlands do interior, onde as estradas praticamente não existem e nevascas ou enchentes podem ocorrer de repente.

Uma única estrada pavimentada, a Ring Road, circunscreve a ilha do gelo, percorrendo todo o litoral, cruzando as cidades e suas inúmeras atrações naturais.

O acesso ao interior da ilha, inabitado, só é possível durante os meses mais quentes e a bordo de veículos 4×4, com bastante cuidado com a mudança abrupta do clima. Tanto no litoral como no interior, as atrações são incontáveis.

Na parte sudoeste está localizada a capital, Reykjavík, com dois terços da população da ilha, um pouco superior a 300 mil habitantes. Aproveitando a natureza, a água quente da capital vem diretamente de fontes termais, proporcionando importante economia energética. Cidade cosmopolita e de intensa atividade cultural, Reykjavík se transforma nas noites do fim de semana: bares, restaurantes e clubes de música ficam repletos de hordas de bons copos.

A região também abriga o chamado Golden Circle, onde se localizam o Parque Nacional de Thingvellir, a belíssima cachoeira de Gullfoss e um campo geotérmico repleto de gêiseres. Em Thingvellir podemos caminhar sobre o encontro das placas tectônicas norte-americana e euroasiática. Ou, para os mais aventureiros, vislumbrar a fissura ao mergulhar nas aguas gélidas e cristalinas de Silfra, um dos pontos mais peculiares para mergulho no mundo.

Ali também estão as ruínas do Althing, o primeiro parlamento do mundo, fundado em 930 d.C. por exploradores vikings, que ali chegaram no século 9. Com o passar dos anos, o país pertenceu aos reinos da Noruega e da Dinamarca, até conquistar a independência total no início do século 20.

Em direção ao aeroporto de Keflavik está a Blue Lagoon, um complexo de piscinas quentes e azuis, bastante turístico e estruturado, muitas vezes o primeiro contato do viajante com os fenômenos geotermais.

Seguindo em direção ao sudoeste da ilha encontramos a maior geleira da Islândia, Vatnajökull, que cobre 8% de seu território. Uma das locações de filmagem de Game of Thrones, ali estão cavernas de gelo e a incrível Ice Lagoon, onde vemos blocos de gelo navegando rumo ao mar. Além de cenários belíssimos, o glaciar esconde vulcões em atividade. Aliás, erupções de vulcões são espetáculos muito apreciados pelos islandeses, que se mobilizam para assistir ao fenômeno. No entanto, também podem representar sérios efeitos colaterais. Haja visto a erupção do vulcão Eyjafjallajökull que causou o fechamento dos aeroportos em 2010, ou a séria enchente de 1996 provocada pela erupção de um vulcão subterrâneo próximo a Bárdarbunga e ao Lago Grímsvötn. No caminho, formações basálticas surpreendentes na região de Vik, com praias de areia e pedras negras banhadas por um mar bravio, onde parece que encontraremos Erik, o Vermelho.

A oeste, na península de Snaefellsnes, está o vulcão onde começa a aventura de Júlio Verne, rumo ao centro da terra. É possível subir de snowmobile para apreciar a belíssima vista da região. Em direção ao interior, em veículos devidamente preparados, encontramos a segunda maior calota de gelo da Islândia, Langjökull.

Estive na Islândia em duas ocasiões: na primeira era início do verão, quando as temperaturas são mais amenas e a noite é algo que não acontece. Aluguei um carro e quase dei a volta inteira na Ilha pela Ring Road. Da capital do norte, Akureyri, voei até a pequena ilha de Grimsey, onde 80 pescadores habitam o ponto mais ao norte do país. Descansei no Lago Myvatn e saí em busca de avistar baleias em Husavik, mas só vi golfinhos no gélido mar do norte. Depois de três semanas na luz alaranjada de um pôr do sol interminável, fiquei contente em retornar a Londres e dormir no escuro da noite.

Na segunda ocasião, no outono, ministrei um workshop de fotografia, organizado pela casaneo10. Adentramos as highlands, com guias, veículos e motoristas ultrapreparados para o caminho acidentado. A região de Thórsmörk e Landmannalaugar possui paisagens preciosas. Ali, distante das luzes da cidade, tivemos a sorte de presenciar a aurora boreal. E ficou mais fácil entender a forte ligação dos islandeses com Elfos e Trolls. A dança das luzes é magica e acachapante. Uma espécie de cereja do bolo. Que nem precisaria da cereja. Por mais que haja outros destinos para conhecer, eu não pensaria duas vezes em voltar a esse pedaço de terra, fogo, água e ar.

DICAS QUENTES

Como Chegar 

Do Brasil não há voos diretos para a Islândia. É necessário fazer uma parada na Europa em cidades como Madri e Londres que oferecem diversas freqüências para o país.

Documentos

Brasileiros não precisam de visto nem certificado de febre amarela para visitar a Islândia. Mas é necessário passaporte com validade de seis meses.

Idioma e Moeda

A língua oficial é o Islandês. Mas o idioma não é uma barreira ali, pois quase toda a população fala inglês.

A moeda local é a coroa islandesa (KR). Cerca de 26 coroas equivalem a 1 real brasileiro.

Onde ficar

Tower Suites Reykjavík. Um hotel com suítes completas e que faz parte da Small Luxury Hotels. Ele fica em uma das áreas mais altas da capital e proporciona vistas deslumbrantes. Conta com serviço de concierge 24 horas e self check-in. towersuites.is

ION City Hotel. O hotel design é perfeito para quem gosta de um clima jovial em uma hospedagem. Um dos destaques é o restaurante Sumac com diversas especialidades libanesas e pratos vegetarianos. ioncity.ioniceland.is/the-hotel/

Gastronomia

Uma das maiores rendas do país é a pesca. Os pratos levam muito salmão, bacalhau, além de carneiro e ovelha. A comida é muito fresca e os pratos são simples, sem grandes firulas. Prove o Skyr, que é semelhante ao iogurte. O pão de trovão ou pão de centeio é outra especialidade.

*Feco Hamburger  é fotógrafo, artista e professor, desenvolve obras em que o sentido da experiência se articula sobre o processo e a obra final.

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