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Explica, Ana!

Influenciadora digital de educação financeira, Ana Laura Magalhães, 29, revela como cavou uma vaga em uma das maiores empresas de investimento do Brasil, como faz para enfrentar o machismo e o que pretende realizar até os 35 anos

POR Rodrigo Grilo 5 MIN

22 jul

5 Min

Explica, Ana!

POR Rodrigo Grilo

	

Por esses dias, em um bate-papo despretensioso com o namorado, Ana Laura Magalhães Barata lançou a ideia: “Acho que voltarei a estudar para diplomacia”. Firmino, seu companheiro há um ano, assustou-se: “Você está louca?” Tanto o “sim” quanto o “não” cairiam bem como respostas, teriam uma razão de ser. Vamos aos prismas: aos 29 anos, essa mineira de Uberlândia já havia encarado dezessete entrevistas para tentar um lugar no quadro de funcionários da XP Investimentos, em São Paulo. Cada uma das sabatinas lhe custara 16 horas de busão – tempo que levava para cumprir o trajeto de ida e volta entre a sua cidade natal e a capital paulista. Graças a essa epopeia, quatro anos atrás, conquistou uma vaga como analista júnior em uma das maiores corretoras de valores independentes do Brasil.

De lá pra cá, Ana Laura enfileirou promoções. Virou analista pleno, transferiu-se para a área de marketing e, pulando a etapa sênior, tornou-se coordenadora de conteúdo da XP, à frente de um produto criado por ela, o Explica Ana. Hoje, perto dos 200 mil seguidores no Instagram e contando com 20 mil inscritos em seu canal do YouTube, a mineira, que também cumpre uma agenda de palestras Brasil afora, entrou para a lista dos 30 brilhantes empreendedores do país com menos de 30 anos, segundo a Forbes. Daí o espanto de Firmino com a fala da namorada, hoje consolidada em um concorrido mercado e sucesso absoluto como especialista em investimentos. “Em dois anos, cheguei a gerir uma carteira de R$ 400 milhões na XP. Mas foi sem querer que passei a trabalhar no mercado financeiro”, afirma Ana Laura, dando início aos bons argumentos que a levam sonhar com a carreira de diplomata.

Professora aposentada, Maria Clara, sua mãe, morou fora do Brasil. Tal fato despertou um fascínio na filha, que, desde então, achava o máximo a possibilidade de também viajar o mundo e falar vários idiomas. “Dentro de casa, aprendi a falar inglês muito cedo. Aos 16, passei a estudar francês. Com 20, italiano. No meio da faculdade, fui para a Croácia fazer intercâmbio”, conta ela, formada em relações internacionais. “É incrível poder somar idiomas, viajar o mundo e ganhar dinheiro. Aí descobri que a diplomacia poderia me dar isso tudo.” Tornar-se diplomata, então, é uma realização pessoal da qual Ana Laura não abre mão de concretizar até os 35 anos. Se considerarmos a capacidade de planejamento da jovem mineira, louco seria o Firmino de duvidar.

Enquanto o dia não chega, ela segue firme com uma atribulada rotina de profissional do mercado financeiro de destaque na XP. Diariamente, às 8h30, entra em reunião por uma hora com outros 260 funcionários, para alinhar informações que possam impactar o mercado quando ele abrir, duas horas depois. “Faço isso enquanto tomo café”, conta. Quarenta minutos depois, a jovem já está roteirizando o conteúdo a ser compartilhado no Instagram. E se prepara para dar conta de duas lives com públicos e pautas diferentes, às 12h e 19h. “Durante a tarde, por causa do Explica Ana, tenho de gerar conteúdo para dezesseis áreas dentro do grupo por meio de seis plataformas diferentes da empresa”, afirma. Obviamente, nem sempre foi assim.

Ao deixar, em 2015, o emprego de analista de business inteligence em uma empresa de tecnologia, em Uberlândia, e se mudar para São Paulo, o salário que recebia na XP era R$ 50 menor do que o necessário para pagar metade do aluguel de um apartamento próximo à empresa que dividia com uma amiga, na avenida Faria Lima. “Essa foi a minha opção de moradia, para eu ir ao trabalho a pé, durante dois anos, sob chuva ou sol, e não ter o vale-transporte descontado do salário”, lembra. “100% do que eu recebia era para morar na capital. Fui começar a guardar dinheiro somente dois anos depois.” Ana Laura descobriu o seu atual empregador graças ao seu chefe na empresa de tecnologia: “Ele me pediu para eu fazer uma pesquisa sobre a XP com o intuito de distribuir a plataforma tecnológica da empresa a ela”.

Foi então que, depois de muito estudar a XP, ela colocou em prática um insólito plano para cavar uma vaga. “Sabe aquele grupo de balada bom para ativar contatinhos, saber de festas? Perguntei em dois deles se alguém conhecia pessoas da XP”, conta. Não é que funcionou? “Me indicaram duas que já haviam sido sócias da empresa. Graças a uma troca de mensagem com pessoas do grupo da balada Festa do Patrão (de Barretos) 2016, dois sócios me chamaram para entrevistas”, diverte-se a mineira. Balada, de fato, é um ótimo ativador de contatos. Chamou a atenção de um dos entrevistadores o fato de Ana Laura ter estudado, no mestrado de economia e política internacional, créditos de carbono, que, no popular, pode ser entendido como a arte de empacotar ar e vendê-lo como crédito.  Tal expertise lhe rendeu a vaga.

Nesses quase cinco anos, outros desafios para além dos números do mercado financeiro testaram a sua fé na humanidade. “Houve cliente que queria trazer dinheiro para a XP, mas, em uma reunião comigo, dizia: ‘Posso ser atendido por um homem?’. Eu respondia: ‘Aqui todo mundo que trabalha na mesma função que eu para atender esse tipo de patrimônio, tem o mesmo nível de certificação que o meu. A diferença é que qualquer pessoa que eu chamar para atendê-lo não terá mestrado. Tudo bem para o senhor?”. Casos como esse, explica Ana Laura, revelam o preconceito de investidores, principalmente mais antigos, em relação à pouca idade e à figura feminina.

Há, porém, situações bem piores, como assédio. Em uma reunião, Ana Laura foi pedida em casamento por um cliente. “Ele achou que iria ser o cara do dinheiro e eu, a pessoa que iria cuidar do seu patrimônio”. O interessado nem se incomodou com a presença do chefe da mineira para dizer: “Você poderia casar comigo, né? Veja só, eu tenho dinheiro e você cuidaria dele pra gente”. Ana Laura, porém, é uma mulher firme e de respostas diretas. Ainda assim, compreende o choque inicial que pode causar uma profissional intelectual e fisicamente bem resolvida atuando em um mercado no qual homens costumam dar a tônica. “Sou uma mulher alta, magra, e os caras esperam alguém com aparência menos agradável e mais inteligente”, diz. Aparência agradável, porém, não é sinônimo de inteligência e vice-versa.

A mudança de Uberlândia para a capital paulista, frisa Ana Laura, foi importante também para saber lidar com comentários inconvenientes de uma maneira menos agressiva, “fingindo demência e sair andando” para não desviar da rota que a trouxe até aqui. E, também, para não perder de vista o horizonte que quer dar de frente em breve, se possível. “Pensei em fazer um doutorado fora do Brasil, ano que vem. Mas aí a pandemia se instalou. Então estou pensando se mantenho o plano ou largo tudo para fazer diplomacia. Esses dias, eu vi um filme e pensei: ‘Certeza de que vou ser diplomata. Vou largar tudo’”. Firmino, querido, isso não se chama loucura, mas determinação. Explica pra ele, Ana.

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