TOP Magazine

Esqui e uísque nas Highlands. É, melhor seguir essa ordem

Poucos brasileiros a desbravam em tempos invernais. Não sabem o que estão perdendo! Entre dezembro e abril, a Escócia abre suas estações de esqui em meio a lendárias destilarias de uísque e hospedagens em castelos cinematográficos. Confira um roteiro

POR CARLOS MARCONDES, de EDIMBURGO 8 MIN

20 abr

8 Min

Esqui e uísque nas Highlands. É, melhor seguir essa ordem

POR CARLOS MARCONDES, de EDIMBURGO

	

Escócia. Basta pronunciá-la e logo surge na mente um turbilhão de paisagens estonteantes, terra de cultura endêmica inigualável e história fascinante. Ela desperta desejo, embora ainda pouco explorada por viajantes brasileiros. No inverno parece desafiadora. Pura impressão equivocada! Ela oferece um trinômio de experiências só dela: em nenhum lugar no mundo você repousará em castelo, explorará um resort de esqui e ainda aquecerá o corpo em uma destilaria, no templo dos uísques. E tudo isso no mesmo dia.

Antes de partirmos para a neve, a primeira parada é em Edimburgo. A cidade, por si só, merece diversas matérias, pois, embora seja pequena — cerca de meio milhão de habitantes —, é repleta de autenticidade e riquezas culturais. Chego à capital escocesa, desde Londres, em uma serena viagem de trem, em pouco mais de quatro horas. O desembarque é na famosa estação de Waverley, toda organizada e extremamente civilizada. Talvez seja a única capital do mundo em que o mais luxuoso hotel do país fique a poucos passos da estação, em um prédio icônico. O soberbo The Balmoral, com sua torre do relógio, foi erguido em 1902 e é considerado um símbolo na parte histórica da cidade.

A arquitetura é um mergulho na essência do estilo vitoriano com influência do renascentismo, e as escadarias e colunas impressionam ao entrar no lobby. O design interno é assinado pela contemporânea arquiteta Olga Polizzi, irmã do proprietário Sir Rocco Forte, dono da célebre marca italiana de hotéis de luxo que leva seu nome.

O The Balmoral é uma instituição em Edimburgo, com 168 quartos, quase sempre ocupados por celebridades, jetsetters e governantes de todas as partes. Entre os destaques da propriedade estão o spa, gerido pela marca ESPA, além do estrelado restaurante Number One, onde a pedida é provar do famoso salmão escocês. Singular é também o expressivo Scotch Bar, com 500 rótulos de single malts, exaltado por possuir uma das mais significativas listas privadas do mundo. Não distante do hotel, em dez minutos de caminhada pelo centro histórico, há outro templo da bebida capaz de enlouquecer os amantes de uísque. Trata-se do The Scotch Whiskey Experience, palco da maior coleção de rótulos do planeta, com 3.300 garrafas e diversas raridades. A visita é interativa e começa a bordo de uma barrica de carvalho que leva a uma viagem pela origem dessa identidade escocesa.

Esse museu do uísque e que hoje é gerido pela Diageo — empresa com mais de 25 destilarias em seu portfólio —, fica na entrada do Castelo de Edimburgo, uma das fortificações mais imponentes do norte da Europa. A visita é imperdível e, para amantes de história, é preciso reservar algumas horas para explorá-lo. A vista panorâmica só perde para a do Calton Hill, outro atrativo icônico da cidade, Patrimônio da Humanidade chancelado pela Unesco. Do alto do morro enxerga-se toda a magnitude dessa cidade.

Antes de partir para a neve, reservo um tour na Edinburgh Gin Distillery. O gim inglês leva a fama, mas é a Escócia que já desponta como o principal produtor do Reino Unido, com mais de 250 marcas, que fornecem 70% dos rótulos vendidos na Inglaterra. A experiência é super descolada e leva duas horas, entre a história descontraída de como surgiu a bebida até uma bateria de degustações. A guia Fiona explica que com o boom do gim-tônica no mundo, muitas destilarias de uísque passaram a investir na produção de gim, já que gera um rápido retorno, por não precisar envelhecer.

Se beber, não esquie

Difícil não combinar esses dois prazeres no próximo destino. Aluguei um carro e parti para as Highlands em busca de paisagens brancas. Não tinha a expectativa de encontrar algumas das melhores estações de esqui da Europa, longe disso. Mas vivenciar o trinômio: esqui, destilarias e castelos-hotéis, o que seria possível só mesmo em terras escocesas. São cinco as principais estações do país, que, embora estejam na região conhecida como Highlands (terras altas), são baixas (cerca de 1.200 metros) se comparadas aos Alpes, onde se pode esquiar acima dos 2.500 metros. Duas horas de carro e chego a Glenshee, uma das mais amplas estações, próxima às históricas cidades de Braemar e Ballater e do Balmoral Castle, residência oficial da família real, que pode ser vista relaxando de férias nos jardins das dependências, todos os meses de setembro. No resto do ano, o castelo é aberto a visitas.

Glenshee é um exemplo do quão exclusiva será a presença de um brasileiro por lá. Assim como nas outras quatro estações, são raros os turistas que não são do Reino Unido. Esquiar ao lado de locais é super autêntico. O Hilton Grand Vacations Club em Braemar é ótima opção para servir de base para explorar a região do Parque Nacional Cairngorms. Fica próximo da segunda estação do país, a menor delas e familiar, Lecht 2090. A pequena estrada que leva até ela é cênica, vazia e de energia contagiante. É um interior de água e ar puros, completamente seguro e autêntico. Lecht é um dos exemplos onde o viajante poderá esquiar pela manhã e visitar dois santuários de uísque. Em cerca de 25 minutos chega-se à icônica Glenlivet, de aclamada qualidade. Um pouquinho depois a opção é nada menos que a The Macallan, de estrutura turística fabulosa, uma visita praticamente compulsória.

Ambas já estão na divisa com a pequena região de Speyside, a mais aclamada entre as cinco produtoras oficiais de scotch whisky do país. Em um paralelo com o vinho, poderia compará-la a Bordeaux ou Borgonha do uísque, tendo a cidade de Dufftown como a capital turística. Além de The Macallan e Glenlivet, adicione ao portfólio nomes como Glenfiddich e Cardhu. Todas a pouco mais de meia hora de Lecht. A viagem segue rumo ao lado noroeste do Parque Nacional, para desbravar a terceira estação, que leva o nome da reserva protegida, Cairngorm. Trata-se da mais bela do Reino Unido, pois conta com um lago em sua base, dando um toque especialíssimo ao cenário das pistas. Tem ainda o único funicular de montanha da Escócia, que serve de atração para quem não esquia. É possível dormir em Aviemore, caso queira passar dois dias em Cairngorm, mas vale a pena esticar uma hora e meia, direto a Fort William, um dos pontos mais emblemáticos das Highlands.

Hospedagens aristocratas e singulares

Fort William tem grande potencial turístico, capaz de convencê-lo a ficar cinco dias nessa região. Tem apenas dez mil habitantes e fica entre as duas outras estações de esqui: Glencoe e Nevis Range. A primeira conta com oito lifts e 20 pistas e oferece microacomodações tubolares práticas, a cerca de 20 metros dos elevadores da estação. Ela fica a 20 minutos de Nevis Range, cadeia de montanhas com a única gôndola do Reino Unido. Além das vistas maravilhosas, também é conhecida por desafiar alpinistas, com inúmeros acidentes fatais, por ser palco de escaladas extremamente técnicas. Literalmente abaixo da estação de esqui, lá está Ben Nevis Distillery, uma das mais antigas produtoras do país, que, ao lado da Oban — fundada no início do século 19 — formam as duas melhores destilarias desse canto das Highlands. “O segredo para a qualidade de nosso uísque é estar ao lado da mais pura água que vem das cachoeiras dessas montanhas”, conta Mike, o guia que conduzia a visita na Ben Nevis.

O destino também é famoso por abrigar o Castelo de Inverlochy, um ultraluxuoso hotel que costuma ser a escolha de membros da família real quando visitam a região. A propriedade é maravilhosa. Outra que oferece experiência singular é a Glencoe House, que já pertenceu ao Lord Strathcona, um dos homens mais importantes do país e um dos dez mais ricos do mundo. A mansão chegou a ser uma maternidade. São apenas oito suítes e os jantares são servidos no próprio quarto, no horário que você desejar. A atmosfera é a de chegar na casa de um grande amigo. Fui recebido com muito carinho por James Macleod, vestido com o tradicional kilt escocês, e ficamos horas conversando. Nas margens do imponente Loch (lago) Leven, o pequeno hotel homônimo também é outra opção. A pequena casa histórica abriga um bar repleto de autenticidade, além de vender seu próprio gim. Há alguns anos, o proprietário decidiu entrar na produção artesanal da bebida e já elabora um dos melhores rótulos da região.

Como pausa entre esquiadas, uísque e gim, Fort William é palco também da The Jacobite Steam Train, que a liga até Mallaig. Além de atrair milhares de turistas e fãs do Harry Potter, ávidos por conhecerem o cenário do cinematográfico Viaduto Glenfinnan, com seus monumentais 21 arcos, que se tornou célebre por fazer parte das filmagens da saga do bruxinho, o local também é um marco histórico para o escocês. Foi nesse panorama que nasceu, em 1745, o Levante Jacobita (fãs da série Outlander devem colocar esta rota na lista de desejos), que se transformaria no movimento independentista escocês contra a exploração da coroa inglesa. Um ano mais tarde, essa reunião dos Clãs teria sido o estopim para uma Guerra Civil, vencida pelo exército inglês, que massacrou a rebelião. A Batalha de Culloden, uma das mais intensas, é tida com a principal dessa fase do Reino Unido. Para o povo das Highlands, Glenfinnan é quase um lugar sagrado, de muito respeito. A força dessas terras altas é intensa. Desbravá-las sozinho, admirando-as vestidas de branco invernal, foi um privilégio — com brindes inigualáveis, em homenagem à alma escocesa.

Dicas Quentes

Mais informações: Visit Britain visitbritain.com@lovegreatbritain.br

COMO CHEGAR

As capitais brasileiras não oferecem voos diretos para Edimburgo. Para chegar, é necessário fazer uma conexão em alguma cidade europeia, com a Air France ou British Airways. Caso esteja em Londres, pegue um trem até Edimburgo que dura cerca de 4h30. A Virgin Trains faz o trecho. virgintrains.co.uk

ANTES DE IR

Não é necessário visto para viajar ao Reino Unido. Certifique-se de ter um bom chip, pois será fundamental o apoio de um aplicativo de GPS. Além da roupa de esqui, leve casaco para chuva e corta vento. Certifique-se de marcar com antecedência as visitas às destilarias. Durante o inverno, os horários são mais limitados.

ONDE IR E COMER

The Ice Factor. É o espaço com a maior área indoor escalável do planeta, com um paredão de 13 metros de altura. ice-factor.co.uk

The Cafe Royal. O bar mais antigo do país tem 120 anos e oferece uma carta com 100 rótulos de uísque, além de pratos escoceses. caferoyal.org.uk

Boots Bar. Localizado em Clachaig, tem música ao vivo e cervejas locais. clachaig.com/the-bars/theboots-bar

The Gin Company. A loja tem a maior variedade de gim local e dezenas de rótulos artesanais. edinburghgin.com

ONDE FICAR

Balmoral Hotel: é uma Instituição escocesa de luxo. Seus quartos são superconfortáveis e os restaurantes e bares excelentes. roccofortehotels.com

Hilton Grand Vacations at Craigendarroch Suites: situado em Ballater, é uma opção prática para desbravar as Highlands, com spa e bons preços. hiltongrandvacations.com

Loch Leven Hotel: o hotel é uma casa histórica, com poucos quartos. O bar é pitoresco e conta com a produção de excelente gim. lochlevenhotel.co.uk

Glencoe House. Uma mansão espetacular com acomodações, onde você é recebido como se fosse na casa de um velho amigo. glencoe-house.com

Inverlock Castle. O hotel é uma das hospedagens de castelo mais requintadas de toda a Escócia, a preferida da família real na região. inverlochycastlehotel.com

* Carlos Marcondes é jornalista, conhece mais de 60 países, já morou na Austrália, Inglaterra, Espanha e agora vive na Itália. @carlosamarcondes

Veja as Fotos

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO