TOP Magazine

Dias, paisagens e descobertas incríveis. O selim então, nem se fala

Embarque em uma aventura sobre duas rodas para percorrer uma das rotas mais antigas de peregrinação do mundo: de Porto a Santiago de Compostela

POR Vivian Monicci 7 MIN

03 abr

7 Min

Dias, paisagens e descobertas incríveis. O selim então, nem se fala

POR Vivian Monicci

	

Quem vê a cena de pessoas em peregrinação nas estradas em direção ao Santuário de Aparecida, para celebrar o dia nacional da padroeira do Brasil, pode pensar que esse é um fenômeno tipicamente brasileiro. Porém, a prática é comum em muitos países e religiões. A Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha, é destino final e ponto de encontro de milhares de peregrinos católicos ou não, e abriga muito mais do que seu passado histórico: revela histórias de vida tão interessantes e fortes quanto a fé que move quem chega até ela. Erguido no século 12, o templo é uma homenagem a São Tiago, um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo. De acordo com a tradição, seus restos mortais foram encontrados ali no século nono por um ermitão guiado por uma estrela (origem do nome Compostela), e Afonso II (terceiro Rei de Portugal) ordenou a construção do edifício. Hoje, o Caminho de Santiago e a cidade velha de Santiago de Compostela são Patrimônio Mundial da Unesco.

Percorrer a pé essa rota, que é uma das mais antigas de peregrinação do mundo, não é a única opção. Você pode, por exemplo, embarcar em uma verdadeira aventura em duas rodas. Essa é a proposta da Bike Expedition, empresa que opera diversas expedições por mais de 80 roteiros na Europa, entre eles o destino em questão. O trajeto é longo e cansativo, mas a recompensa visual e espiritual é maior. E é exatamente isso que torna essa viagem uma das mais emocionantes que alguém pode fazer na vida.

“A viagem é operada por um parceiro nosso, mas nós fazemos um trabalho de curadoria junto para oferecer todo o suporte e o que há de melhor na Europa em termos de hotelaria, alimentação, visual, bicicleta e guias”, explica Adriana Kroehne, diretora operacional da Bike Expedition. Ao contrário da maioria dos roteiros oferecidos pela BE, esse não é feito em grupo e é no estilo self guided, ou seja, não há um guia contratado e você é a sua própria bússola. Independentemente da sua religião, a ideia é que você possa mergulhar em um momento de autoconhecimento. A cada pedalada e quilômetro vencido, você entra em contato consigo mesmo — o que não seria possível se existisse um profissional ditando o caminho e o ritmo. Liberdade é a palavra de ordem neste tour.

O caminho tradicional português até Santiago de Compostela tem início em Lisboa. Porém, como o trecho entre a capital portuguesa e o Porto tem poucos abrigos e hospedagens credenciadas, muitos preferem iniciar no Porto. É o caso da BE, que oferece duas opções de roteiro saindo da cidade. A rota original, pelo interior, tem duração de oito dias e sete noites e totaliza 230 km pedalados. Passa pelas cidades de Barcelos, Ponte de Lima, Valença, Pontevedra e Padrón, e tem uma paisagem mais montanhosa que mistura bosques, rios, vales, vinhedos, campos, aldeias tradicionais e estradas de terra — é, portanto, mais desafiadora e exige um esforço maior. Talvez você esteja se perguntando: preciso ser um ótimo ciclista ou ter um grande preparo físico para encarar o desafio? A resposta é não. Mas, caso não se sinta muito confiante, há uma alternativa igualmente interessante e bonita, e muito mais leve: a rota pelo litoral, com duração de nove dias e oito noites, e que totaliza 260 km pedalados. O caminho é bem mais plano e suave e passa por Esposende, Caminha, Baiona, Vigo, Pontevedra e Padrón.

“Qualquer um pode fazer. Apesar de Portugal ser totalmente plano, há algumas partes íngremes quando você cruza a fronteira com a Espanha e entra em uma cadeia montanhosa. Eu recomendo que você treine aqui no Brasil de duas a três vezes por semana em um spinning ou saia com a bicicleta na rua para pegar um pouco da parte técnica. Um treino mínimo para que possa fazer sem muito esforço, já que existe, sim, um grau de dificuldade. Se sentir que não está tão preparado e quiser fazer mesmo assim, nós oferecemos como alternativa uma bicicleta elétrica. Você faz todo o roteiro, mas não tem o desgaste, já que ela te impulsiona e potencializa cada pedalada. Por dia, você pedala uma média de 50 km”, esclarece Adriana.

A logística funciona assim: no primeiro hotel, em Porto, você recebe a sua bicicleta e só a devolve no fim da viagem. Toda manhã, você fecha a sua mala e deixa na recepção. A BE manda um carro de apoio que vai retirar a sua bagagem e entregá-la no próximo hotel. Assim, é possível sair para pedalar sem nenhum peso além do seu próprio corpo. Além disso, a operadora oferece também os descritivos do dia a dia e toda a orientação do percurso e identificação das rotas em um GPS que é possível baixar no celular, ou impresso. Há também flechas amarelas que indicam o caminho. “Caso tenha algum problema simples com sua bike, como um pneu furado, é possível administrá-lo sem ajuda externa. Se for mais grave, como uma corrente quebrada, é só acionar o telefone do nosso operador na Europa, que é muito rápido no atendimento. Ele pode, inclusive, trocar a sua bike, caso haja necessidade. Além disso, a BE está sempre à disposição nos telefones de São Paulo e do Rio de Janeiro”, pontua Adriana.

Além de vencer o desafio, superar-se e trilhar um caminho histórico, outro ponto muito bacana é conquistar o certificado oficial de peregrino. No começo da viagem, em uma catedral em Porto, você recebe e valida uma caderneta (a Credencial do Peregrino) e, ao longo do percurso, deve carimbá-la duas vezes ao dia nos estabelecimentos credenciados (hotéis, restaurantes, albergues, cafés, igrejas) até chegar a Santiago — é isso o que te credencia para receber o “diploma” que atesta que você completou todo o caminho e pode ser considerado um peregrino legítimo. “Isso vale pra qualquer um. Se você fizer de bicicleta ou a cavalo, tem que percorrer pelo menos 200 km com esses selos. Se for a pé, você é obrigado a fazer 100 km”, conta Adriana.

A jornalista, apresentadora e escritora Rosana Jatobá topou o desafio da Bike Expedition. Em agosto de 2019, embarcou para fazer a rota litorânea. “Estava com zero de medo, mas com muita curiosidade para saber o que me tornaria depois dessa jornada. O trecho mais longo do Caminho de Santiago de Compostela pela rota da costa é de Esposende a Caminha. São quase 55 km de paisagens variadas. Terrenos díspares também, de asfalto a cascalho e trilhas na mata. Um encanto. Cansativo, cheio de subidas íngremes e descidas escorregadias. Mas sem perigo. Tudo sinalizado e devidamente apropriado para os peregrinos. Levei comigo a concha de vieira, ícone do peregrino. Há muitas teorias sobre esse símbolo. Uma delas é que a concha tem relação com Vênus, a deusa do amor. No famoso quadro de Botticelli, Vênus é representada em cima de uma concha de vieira, simbolizando o renascer de uma pessoa. Por lá se diz: “Cuando terminas el Camino eres una persona nueva, te descubres a ti mismo”, conta Rosana, que documentou toda a viagem em suas redes sociais.

Sem dúvida, percorrer o Caminho de Santiago de Compostela é descobrir a si mesmo. A carga emocional é muito grande, assim como as descobertas. E esse é o grande diferencial: ele desperta a sua espiritualidade e permite uma transformação interior.

Dicas Quentes

QUEM LEVA

A Bike Expedition comercializa a parte terrestre da viagem, que inclui hotelaria, a locação da bicicleta, todo o trajeto já traçado em um track por GPS ou impresso, esse primeiro transfer do Porto a Matosinhos, todo o apoio técnico da viagem, o transfer de bagagem e o suporte em caso de necessidade. Os valores da viagem variam de 800 a 1200 euros, com toda a parte terrestre inclusa exceto alimentação e aéreo. bikeexpedition.com.br

TREINO

Caminhe muito, pedale muito, por diversos tipos de terreno antes de enfrentar o desafio do Caminho. Você pegará vento, talvez chuva, mas certamente um caminho de terra desafiador, de muito sobe e desce, com pedras soltas em alguns trechos. Vale preparar o corpo e o espírito.

O QUE LEVAR

O mínimo possível! Desapego e desprendimento são palavras-chave. Faça uma mochila leve, somente com o mínimo, e lembre-se que o que não está vestindo, está carregando. Uma troca de roupa é suficiente — duas camisetas (mangas longas são o ideal), dois pares de meia e uma bermuda, além da roupa do corpo. Leve um corta-ventos e um agasalho para o fim de tarde. Muito protetor solar, chapéu, tênis e meias macias de fibras naturais, shampoo e condicionador em pequenas quantidades. Não se esqueça das luvinhas, do capacete e de uma capinha de gel para o assento.

QUANDO IR

Essa viagem tem saídas diárias do começo de abril até final de outubro, mas se for em março ou começo de novembro, que já está bem frio, é possível fazer também. Entre final de abril e de junho, e depois do final de agosto até começo de outubro, você encontra um clima agradável. As saídas acontecem ao longo do ano durante esse período.

COMO SE ORIENTAR

O caminho é bem sinalizado, com indicações claras, mas é importante ter o percurso impresso ou em um aplicativo. Ajuda muito a escolher uma das várias rotas propostas e a saber qual o grau de dificuldade e os atrativos de cada uma.

Veja as Fotos

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO