TOP Magazine

Da Terra Brazilis

O que pode ser uma surpresa para muitos apreciadores de um bom vinho branco é que aqui no Brasil também há ótimos exemplares elaborados a partir da Chardonnay. Descubra mais sobre as opções.

POR Melissa Lenz 5 MIN

22 jun

5 Min

Da Terra Brazilis

POR Melissa Lenz

	

Quando se fala em chardonnays, o branco francês da região da Borgonha, local de origem dessa uva, é considerado “O” Chardonnay para a maioria dos enófilos. É naquele terroir, no centro-leste da França, que uma das castas vitis vinifera mais antigas e adoradas viceja em plenitude, dando origem a vinhos encorpados que expressam toda sua tipicidade, como os aromas frutados – melão, pêssego, abacaxi – acompanhado de outros tantos de maior complexidade, tais como manteiga, caramelo, lanolina, toques minerais e até, segundo alguns olfatos, pelo queimado.

Porém, a nossa paixão pelo Borgonha branco não nos impede de reconhecermos que outras regiões e terroirs também são responsáveis por preciosidades constituídas a partir daquela uva, como os chardonnays excepcionais de Mendocino, na Califórnia, ou de Adelaide Hills, na Austrália, além de ser uma das uvas base, juntamente com a Pinot Noir, dos espumantes de Champagne.

O que pode ser uma surpresa para muitos apreciadores de um bom vinho branco é que aqui no Brasil também há ótimos exemplares elaborados a partir da chardonnay. Nestes tempos incomuns, em que buscamos desfrutar cada vez mais dos pequenos prazeres dentro de nossas casas, talvez seja um dos melhores momentos para descobrirmos as maravilhas produzidas aqui por perto e valorizarmos as pequenas, familiares e, ao mesmo tempo, modernas vinícolas que produzem vinhos desta varietal estruturados, com complexidade de aromas e elevada acidez. E, quem sabe, num futuro não muito distante, possamos visitar alguns destes lugares e aprendermos um pouco mais sobre os terroirs do Brasil.

Alguns destes achados estão concentrados na Serra Gaúcha, nas pequeninas cidades de Flores da Cunha e Pinto Bandeira (esta última, com cerca de apenas 3.000 habitantes). Segundo César Curra, sommelier da vinícola Viapiana e um dos responsáveis, juntamente com o enólogo Elton Viapiana, pelos deliciosos vinhos produzidos lá, Flores da Cunha “está situada no pico mais alto da Serra Gaúcha, a cerca de 800m de altura, e seu clima apresenta uma amplitude térmica excelente para a produção de vinhos com boa acidez e estrutura. Além disso, seu solo é composto por uma superfície argilosa seguida de uma camada mais profunda pedregosa a base de basalto”.

Confira nossa seleção de quatro rótulos brasileiros imperdíveis:

Viapiana

Viapiana Chardonnay 2015 (Flores da Cunha, RS) – Maturação: 14 meses em barricas de carvalho francês. Teor alcoólico: 13%. Cor amarelo palha com leve tonalidade esverdeada. Aromas nozes, chocolate branco, flor de eucalipto e toque cítrico. Em boca é picante, untuoso, saboroso e com final refrescante amanteigado. “São vinhos com boa estrutura, bom volume de boca e com uma ótima acidez, a gente cuida muito do frescor. Como passa bastante tempo em barril de carvalho, com um percentual deste carvalho novo, a gente cuida muito da acidez para equilibrar com a madeira, que aporta a untuosidade, para que o Chardonnay não fique pesado, que toma uma taça só e acaba enjoando. Além disso, tem um potencial de guarda bem elevado”, explica o sommelier da vinícola César Curra. Com a safra 2015 esgotada, a próxima – de 2019 – começará a ser comercializada em setembro deste ano.

+ infos: vinhosviapiana.com.br

 

Alma Única

Ultra Premium Chardonnay D.O Parte 2 Safra 2018 (Bento Gonçalves, RS) – Maturação: 12 meses em barricas novas de carvalho francês após fermentação em tanques de inox. Teor alcoólico: 13,5%. Vinificação: Elaborado com uvas colhidas antes do sol nascer, do próprio vinhedo localizado junto à vinícola. Límpido e brilhante, de coloração amarelo palha dourado. O olfato apresenta aromas intensos de frutas tropicais maduras, abacaxi, manteiga, baunilha, especiarias doce e mel. Em boca é fresco e untuoso.

+Infos: almaunica.com.br

Guaspari

Chardonnay Vista do Lago 2016 (Espírito Santo do Pinhal, SP) – Maturação: nove meses em barrica de carvalho francês. Teor alcoólico: 13,5%. Vinificação: As uvas são colhidas manualmente nas primeiras horas da manhã. Os cachos foram selecionados e espremidos em prensa pneumática a frio. O vinho foi transferido para as barricas, onde ocorreu a fermentação maloláctica. Vinho de corpo médio com coloração dourado claro, com aromas finos, que remetem a laranja, frutos secos e baunilha. No paladar é elegante, fresco, untuoso e com final longo.

 

+Infos: vinicolaguaspari.com.br

 

Vinha Unna

Lunações Perpétua Final (Edição Especial) Não Safrado (Pinto Bandeira, RS) – Vinho natural e biodinâmico. Maturação: três meses em barrica francesa. “Para esta vinificação foi separada apenas 20% da safra do ano para ser cortada com todos os anos que vinificamos chardonnay (2015 a 2018) em proporções iguais. Os aromas primários e terciários se misturam e o vinho possui diversas camadas de aromas, que hora lembram fruta verde, hora madura, e passa longe do tradicional.. Uma acidez vibrante, salivante”, explica a enóloga da Vinha Unna Marina Santos.

 

Você poderia falar um pouco sobre as características do terroir de Pinto Bandeira?

Marina Santos – A região de Pinto Bandeira parte de uma altitude de 500 m podendo chegar a mais de 700 m, e temperaturas médias anuais de 16,5°C, ou seja, região alta e com temperaturas no geral amenas que acabam por diminuir a degradação do ácido málico durante a maturação, resultando em um mosto com maior acidez. Estamos sobre duas grandes formações rochosas uma com predominância de basalto e outra de diversos tipos de rochas ácidas, são rochas de origem vulcânica. Com essas características de solos e condições térmicas o ciclo vegetativo da videira aqui acaba sendo um pouco mais longo em relação à média da região e a maturação da uva mais diferenciada,  essa combinação confere aos vinhos características únicas. Conseguir o equilíbrio entre uma boa maturação com a presença de acidez (o que confere além do frescor, notas muito particulares aos vinhos), não se consegue em todas as regiões do Brasil. Outra característica que não posso deixar de mencionar é que a Serra Gaúcha como um todo é bastante úmida e chuvosa também, e todas essas condições particulares expressam o que se identifica como terroir, “imprimindo” um registro particular e que possibilita o reconhecimento de condições distintas para uma cepa.

 

Há alguma particularidade da expressão da Chardonnay no Brasil, mais especificamente nessa região?

Marina Santos – Na Serra Gaúcha há diversos clones de Chardonnay, alguns indicados para elaboração de vinhos tranquilos e outros para elaboração de espumantes, em Pinto Bandeira há predominância dos clones indicados para espumantes. De uma forma geral, independente do clone, percebo que o Chardonnay aqui tende a ter mais estrutura do que em outras regiões, percebe-se isso nos espumantes e nos vinhos, e esta característica não é pelo tempo de contato com a película – já que aqui não se costuma fazer maceração de brancos, advém da própria uva (extrato seco, extrato seco reduzido), o teor de minerais encontrado no mosto também é sempre rico, com predominância do mineral K diretamente ligado a acidez do vinho. Organolépticamente falando, normalmente o Chardonnay lembra a maçã bem madura, pêssego, abacaxi e quando envelhecidos em barris de carvalho adquirem nota de baunilha, devido aos compostos fenólicos presentes na madeira, sinceramente não são o tipo de Chardonnay que me emocionam, e nesse aspecto não consigo diferenciar nenhuma região da outra quando degusto Chardonnay. Por esse motivo busco estudar profundamente meu terroir e outras formas de vinificação para obter um vinho diferenciado.

Quais as características do vinho Chardonnay Lunações?

Marina Santos – Bom o Lunações possui um método de vinificação muito peculiar: a vinificação perpétua. Esta vinificação ancestral possui muitas variantes, então vou explicar o que é basicamente, depois qual é a variação no meu processo. A vinificação perpétua é quando um vinho (exemplo um chardonnay) contem todas as safras de todos os anos – ou boa parte deles, em que se vinificou aquele mesmo chardonnay. O Lunações contém todas as safras de todos os anos onde vinifiquei Chardonnay  – começando em 2015, até 2019, mas com as seguintes variações. é um vinho natural de fermentação espontânea, que não leva nenhum conservante (sulfito) ou aditivo enológico – que macera com suas películas por 30 dias ou mais, aopós o término da fermentação ele passa um período de afinamento em barrica francesa de apenas 3 meses, findado este tempo apenas 70% da safra do ano vai para um tanque, e lá é feito o corte com as outras safras deste chardonnay, em proporções que variam de ano para ano. Os 30% restantes são guardados para serem usados na perpétua do ano seguinte. O Lunações que está no mercado atualmente, é uma edição especial chamada Perpétua Final que contem todos os anos em proporções exatamente iguais de 20%. As características do vinho são tudo que eu imaginava, os aromas primários e terciários se misturam e o vinho possui diversas camadas de aromas, que hora lembram fruta verde, hora fruta madura, e passa longe do tradicional (abaxi, pêssego, maçã, baunilha)e todo conjunto é embalado por uma acidez vibrante, salivante.

+Infos: vinhaunna.com.br

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO