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Conte Segredos da Provence até para quem já foi para lá

Os tons pastel e ocre dos vilarejos históricos se misturam aos aromas, paisagens e sabores neste giro por lugares fora do circuito comum

POR Renata Zanoni 12 MIN

13 Maio

12 Min

Conte Segredos da Provence até para quem já foi para lá

POR Renata Zanoni

	

Vincent Van Gogh procurou as luzes da Provence, já que são quase 300 dias de sol por ano na região. O pintor chegou ali depois de um acontecimento que o tornou bem conhecido e fez parte de sua história: ele acabou cortando a própria orelha e foi internado no hospital psiquiátrico de Saint-Paul de Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence. Foram apenas 53 semanas internado, tempo suficiente para que se tornasse a fase mais produtiva de sua história, pois fez 143 pinturas — incluindo La Nuit Étoilée —, e mais de 100 desenhos. Hoje, o espaço funciona como um monastério e tem uma parte aberta aos visitantes, que podem conhecer os aposentos pertencentes a Van Gogh na época.

Da janela do quarto, é possível ver oliveiras, ciprestes e jardins de íris, que serviram como grande inspiração ao artista. Outro nome que também foi conquistado pela região foi Paul Cézanne,

que nasceu, viveu e morreu em Aix-en-Provence.  Suas cores, relevo e características encantam muitos artistas até hoje. Não é raro andar por suas cidades e pequenos vilarejos e ver artistas com seus cavaletes ou pranchetas em mãos tentando passar para o papel tamanha beleza. A Provence é rústica, tem um charme discreto e uma atmosfera para lá de envolvente. Muitos quesitos colaboram para isso, seja pela sua paisagem em alguns meses tomada pelos campos de lavanda, pelo aroma ora de lavanda, ora de oliveiras que impera em muitas paradas do seu roteiro, pela gastronomia sempre elegante, pelos vinhos e azeites marcantes, ou talvez pelas cores tão inspiradoras.

O ritmo da Provence parece diferente de outros lugares da França, tudo parece ser possível e dar tempo. A maioria dos moradores locais toca negócios familiares e tenta manter o padrão de qualidade e a história que carregam, trazendo toques de modernidade — o que pode ser visto em uma produção de azeite como na Moulin Castelas ou em um hotel familiar como o Château des Alpilles, cuja propriedade já pertencia à família antes de se tornar um hotel e traz um toque especial ao ser recebido pelas proprietárias. Ou mesmo ao conhecer uma banca de queijos no mercado de Les Halles em Avignon e saber mais da história da família, que oferece uma seleção com mais de 250 tipos.

Para conhecer a região, a melhor opção é pegar um voo em Paris e 1h15 depois chega-se a Marselha, capital da Provence. De lá, são tantas opções de lugares para conhecer que parece difícil escolher. Mas que tal fugir do roteiro mais comum, que contempla Marselha e Aix-en-Provence, e partir para lugares que ainda não caíram na rota comum e valem muito a pena?

Comece por Les Baux-de-Provence, um pequeno vilarejo que guarda muita história por suas ruelas e lojinhas charmosas. Por ali, vivem apenas 22 pessoas e você se surpreenderá ao saber que uma delas é uma brasileira. Comece no alto pelas ruínas do antigo Castelo e tenha uma linda vista panorâmica. Depois se perca por suas ruas, que misturam construções antigas com peças de arte moderna, como esculturas e quadros, espalhados em diferentes espaços públicos. Entre em uma lojinha ou outra para começar a ter contato com os souvenirs, muita lavanda e derivados, como óleos, sabonetes e até mel de lavanda, e peças de cerâmica.

Siga para conhecer o Carrières de Lumières — o espaço multimídia traz uma exposição imersiva pelas obras de diversos artistas, a cada temporada um deles é explorado. As próximas exposições serão sobre Dalí e Gaudí. O legal desse espaço é que não tem começo ou fim, você pode percorrer por quanto tempo quiser e sair na hora que desejar. Como a produção de vinhos e azeites faz parte do DNA da Provence, vale incluir um passeio em um desses lugares para compor sua experiência. A Moulin Castelas é uma das principais produtoras de azeite da região e você pode fazer um tour para conhecer mais e, ao final, deparar-se com uma degustação e loja com diversas opções, como azeite trufado com gengibre. Já para provar bons vinhos e safras orgânicas, reserve uma visita na Mas de la Dame. Destaque para o vinho Rosé du Mas feito com cinco tipos de uvas, bem suave, cítrico e refrescante.

Uma boa base para explorar os arredores de Les Baux-de-Provence é o Domaine de Manville, propriedade chancelada pela Relais & Châteaux que tem quartos muito espaçosos, jardins, além de suas villas com três ou mais quartos perfeitas para famílias, com piscina privativa, sala de jantar, cozinha e toda a privacidade possível. Outro ponto importante é o campo de golfe com vista para as montanhas.

Saint-Rémy-de-Provence já é uma cidade um pouco maior. Um dos seus pontos mais importantes é o monastério Saint-Paul de Mausole. Ele abrigou o pintor Van Gogh por mais de um ano e guarda uma réplica do quarto em que ele viveu, com sua cama e sala de banho. Depois, caminhe por suas ruas sem pressa e, entre um café e outro, faça paradas estratégicas em lojas, como a Love in St Rémy, supercharmosa e que tem produtos de higiene e beleza com diferentes essências, além de velas. Tapenades, azeites, vinhos, bolachas amanteigadas, entre outras ofertas podem ser encontradas pelo centro.

Distante 15 minutos dali está o Château des Alpilles. A propriedade familiar foi transformada em um hotel e conta com 21 acomodações. A construção fica cercada por uma rica vegetação e o restaurante serve gastronomia que valoriza produtos locais, sem contar o fato de tudo ainda ser vistoriado pela família.

Ter um carro é essencial para sua autonomia. Avignon está a cerca de 25 quilômetros dali e é a capital do departamento de Vaucluse. A história da cidade começa alguns séculos antes de Cristo com o povo celta. Depois fez parte do Império Romano e foi uma importante rota de peregrinos e comerciantes, que transitavam entre a Espanha e a França. Mas foi a partir de 1305, quando passou a ser sede da Igreja Católica e residência oficial dos Papas, que a cidade ganhou os olhos do mundo.

O Palácio dos Papas, considerado o maior e mais importante palácio gótico da Europa, obviamente, é uma das paradas obrigatórias. A magnífica construção guarda um museu que mostra toda essa história até a mudança para o Vaticano, na Itália. Roupas, dados, fatos históricos relevantes e fotos fazem parte do acervo e nos ajudam a remontar esse período, que teve épocas de ouro e tempos conturbados. Isso porque, ao todo, abrigou nove Papas (sendo sete Papas e dois antipapas), dado que causa estranhamento aos leigos quando o assunto é catolicismo. De forma resumida, a Igreja teve uma cisão durante o mandato do sétimo Papa de Avignon, Gregório XI, em 1378, que decidiu que o papado deveria regressar a Roma. Ou seja, nos 46 anos seguintes, a Igreja permaneceu dividida entre Avignon e Roma e, por isso, foram chamados de antipapas.

Histórias à parte, é dos jardins do hotel La Mirande que se tem uma das melhores vistas para o Palácio. Seu restaurante é perfeito para um almoço e tem uma estrela Michelin. Ali, o sabor acompanha a elegância dos pratos, a ciabata com presunto parma e especiarias de entrada, o cogumelo com gemas de ovo e trufas e as sobremesas são o ponto alto. Tudo sob o comando do chef Florent Pietravalle. Além disso, os hóspedes ou interessados podem participar de uma aula de gastronomia com receitas e uso de produtos locais.

Muitos desses produtos são provenientes do Les Halles de Avignon, o mercado gourmet. Frutas, embutidos, flores, verduras, azeitonas e muitas outras variedades são encontradas. A La Maison du Fromage conta com mais de 250 tipos de queijos.  Vale explorar o centro da cidade — o prédio da Prefeitura é superbonito —, ver a praça central com carrossel (algo bem europeu), a ponte Saint-Bénézet — Patrimônio Mundial da Unesco que tinha 22 arcos e hoje restaram apenas quatro —, e ir ao Rocher des Doms (Rochedo de Doms), um jardim estilo inglês que proporciona vistas panorâmicas para entender a geografia da cidade.

Para quem quer uma hospedagem mais afastada do centro e consequentemente mais tranquila, a Auberge de Cassagne & Spa é o lugar. São apenas 43 quartos e vale destacar tanto o spa com salas de tratamento, piscina climatizada e aparelhos com tecnologia de ponta, como o restaurante com menu criado pelo chef francês Philippe Boucher.

A cerca de uma hora de distância a partir de Avignon chega-se até a região do Parque Natural Regional de Luberon, que guarda algumas das aldeias mais bonitas da Provence. Gordes é uma delas. Um vilarejo todo em pedras com 40 km², cerca de dois mil habitantes e classificada entre as Plus Beaux Villages de France, ou seja, entre os Mais Belos Vilarejos da França. Na Provence, existem seis cidades com tal classificação. Não à toa, Gordes atrai desde a década de 50 artistas como Marc Chagall e Pol Mara e guarda a elite da região, com imensas propriedades. Dizem que nomes de Hollywood mantêm seus châteaux por lá e, obviamente, tornou-se a mais cara da região. Ande sem pressa por suas ruelas, com subidas e descidas, fontes, casas e jardineiras dignas de fotos instagramáveis. Além disso, vá até o mirante no lado oposto da cidade para ter as melhores fotos.

Cerca de 20 minutos de carro separam Gordes de Oppède-le-Vieux, um vilarejo medieval pitoresco repleto de histórias e quase fantasma. Com casas do século 12 todas em pedras e cavernas escondidas, ela era uma comunidade rural nas montanhas e chegou a ter 900 habitantes em seus áureos tempos. Além disso, tornou-se morada de alguns artistas por alguns anos até a chegada dos nazistas na época da Segunda Guerra Mundial. Por conta da ocupação dos alemães, a maior parte da população abandonou suas casas e foram encontradas cerca de 50 pinturas, cartas e desenhos que mostravam a opressão sofrida. Hoje, ali vivem apenas dez famílias e por toda essa história, vale e muito sua visita.

A França é sinônimo de hotelaria de primeira, serviço atencioso e alta gastronomia, e quando você encontra todos esses quesitos em um hotel é um acalento para o coração. O Coquillade Village fica em uma colina e proporciona vistas deslumbrantes para o vale de Luberon e Mont Ventoux (uma famosa montanha desta parte do país) e divide espaço com uma propriedade vinícola.

Formado por seis residências antigas, uma delas do século 11, abriga quartos e suítes finamente decorados e com privacidade total, todos bem espaçosos e repletos de regalias. Além disso, conta com uma piscina externa superconvidativa, um spa completo e diversas experiências para explorar a região e os vinhedos. Mas o ponto alto fica por conta da gastronomia. O restaurante principal serve tapas contemporâneas, uma experiência memorável ao paladar, já que você prova em pequenas porções o melhor de diferentes cozinhas. Entre as delícias propostas pelo chef Thierry Enderlin, está desde uma alcachofra com trufas negras, foie gras frito com castanhas e conhaque ou uma guioza de lagostim, além de uma seleção de pães com figo, geleias e queijos para finalizar.

Os deliciosos pães franceses e uma seleção ampla de queijos de pequenos produtores também iniciam a experiência no restaurante e propriedade do chef Xavier Mathieu, no Hotel Le Phébus & Spa. A propriedade chancelada pela Relais & Châteaux pertence à família do chef, que comanda o restaurante há 20 anos. Tive a oportunidade de fazer um almoço guiado por ele, entramos na cozinha, provamos suas receitas saindo na hora do forno e o vai e vem da equipe. Para começar, provamos uma releitura de uma focaccia com lascas de trufa negra, uma bela amostra de tudo o que viria pela frente. O tartare de beterraba, sopa de pesto, peixe com aioli e maçã, torta de cacau 60% com sorvete de laranja estão entre os pratos servidos em uma mesa elegante e serviço impecável do staff. Sem contar a torre (uma escultura em tronco de madeira) servida com um mix de pequenos doces e o carinho de guloseimas, como bala de caramelo, marshmallow, suspiros de diferentes sabores, entre outras tentações servidas ao final.

Depois de adquirir todas essas calorias que valeram pena, siga para explorar Roussillon. Já de longe você vai ficando hipnotizado pela nuance de cores do vilarejo. Ela é toda terracota com uma paleta que varia de tons alaranjados mais forte aos mais suaves. O motivo é bem simples, ali está o maior depósito de ocre do mundo. O pigmento poderoso é formado na natureza ao longo de 100 milhões de anos e ali você pode visitar os cânions e ver de perto esse colorido. Ande por suas ruas e descubra mais sobre as peças de cerâmica e os pigmentos vendidos em muitos ateliês. Suas fotos desta região provavelmente serão as mais curtidas e o desejo de voltar e desbravar ainda mais todos os encantos ficarão acesos na sua memória e no coração.

DICAS QUENTES:

Mais infos: provence-alpes-cotedazur.com/en/br.france.fr/pt

 Quem leva

A Air France tem voos diários de São Paulo para Paris. De lá, é possível pegar um voo ou trem até a Provence. A companhia aérea sempre apresenta atitudes inovadoras e sustentáveis. Até o final do ano passado eliminou 210 milhões de plásticos de uso único, como copos e talheres de plástico, que foram substituídos por produtos feitos em papel e com base em biomateriais, e os mexedores de plástico foram trocados por opções em madeira. Além disso, a partir de 1 de janeiro de 2020, a companhia está compensando 100% das emissões CO2 de seus voos domésticos com a participação em projetos certificados por organizações reconhecidas. Tais atitudes fazem os turistas pensarem em soluções tanto para o seu dia a dia quanto na hora de buscar uma companhia aérea para voar. Saiba mais: airfrance.com.br

As duas maneiras mais comuns de chegar na Provence são trem e avião. De trem, partindo da estação Gare de Lyon, em Paris, a viagem é feita pelos Train à Grande Vitesse (TGV), de alta velocidade, e dura cerca de três horas, passando por Aix-en-Provence até a linha final Marselha. Ao contrário de outros trens, os TGV exigem reserva e marcação de assento. De avião, a Air France realiza voos diretos entre o Aeroporto de Paris-Orly para o Aeroporto de Marseille-Provence MRS, com duração de 1h15.

Documentos e vacinas

Para entrar na França é necessário o passaporte válido e seguro-viagem. Não é exigida nenhuma vacina para os turistas brasileiros.

Onde ficar

Domaine de Manville: domainedemanville.fr

Château des Alpilles: chateaudesalpilles.com

Auberge de Cassagne & Spa: aubergedecassagne.com

Coquillade Village: coquillade.fr

Le Phébus & Spa: lephebus.com

Onde ir

Carrières de Lumières: carrieres-lumieres.com

Monastère Saint-Paul de Mausole: saintpauldemausole.fr

Avignon – Les Halles de Avignon: avignon-leshalles.com

Vinícola Domaine de la Royère: royere.com/fr

Vinícola Mas de la Dame: masdeladame.com/en

Moinho Moulin Castelas: castelas.com

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