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Como superamos a perda?

Christian Dunker fala sobre a experiência do luto em curso online do Centro de Estudos Psicanalíticos

POR Michelle de Oliveira* 7 MIN

06 jun

7 Min

Como superamos a perda?

POR Michelle de Oliveira*

	

No auditório virtual, em mais um sábado de isolamento social e centenas de mortes provocadas pelo Coronavírus no Brasil, um grupo numeroso faz fila para endereçar perguntas ao psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). São participantes de um curso online sobre “teoria do luto em psicanálise”, que reuniu cerca de 350 inscritos no último dia 16 de maio, sob a organização do Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP).  Ao longo de seis horas, uma audiência ávida procura, na voz de Dunker, um Saber sobre a experiência do luto, demonstrando particular inquietude em relação ao cenário atual.

Quais são as etapas do trabalho de luto? Quando superamos a perda? Há casos de lutos intermináveis? É possível falar em luto “normal” e “patológico”? Qual a função dos rituais de elaboração do luto? O que muda, neste processo, em tempos de pandemia?

Mestre e doutor em Psicologia pela USP, Christian Dunker prepara novo livro sobre o tema do encontro (Divulgação)

O ponto de partida do curso é o clássico Luto e Melancolia, escrito por Freud em 1917. No diálogo com o texto, Dunker apresenta chaves de leitura inauguradas pelo pai da psicanálise para o desenvolvimento de uma teoria do luto. A partir de um trabalho de aproximação e distinção, Freud explica, nesta obra, o que seriam aspectos relativos ao “luto normal” em contraponto à natureza da melancolia. Mas o que seria afinal o “luto normal”? Questão problemática, que abre espaço para a primeira crítica endereçada por Dunker ao texto, ao considerar que a própria fundação da psicanálise coloca em tensão a ideia de normalidade na abordagem do mundo psíquico.

Na travessia do luto, a elaboração e superação da perda demanda tempo. Ocorre segundo um processo não linear, que responde a etapas distintas da relação do Eu com o objeto perdido e a desordem psíquica provocada por essa ausência. Para Freud, no início deste trabalho interno, encontramos o problema do reconhecimento, relacionado à formulação de um juízo de realidade sobre a perda. O ser amado não existe mais: (re)conhecer este fato é o ponto de partida para que o sujeito – encolhido em sua dor e diante da percepção de finitude – experimente um processo progressivo de desinvestimento da libido em direção ao objeto perdido. No luto psicótico, este trabalho não é realizado, como exemplifica Dunker: a imagem de uma mãe que segura a boneca como se fosse o filho perdido nos dá pistas para entender esta diferença.

O segundo tempo do luto envolve o problema da identificação. Há nesta etapa movimentos oscilantes de apaziguamento da dor e apego mais intenso à lembrança do outro; bem como juízos de crítica alternantes do sujeito, em relação a si mesmo (poderia ter feito algo ou me esforçado mais?) e ao objeto de amor perdido (ele me abandonou; e tinha lá uma série de defeitos…). Os “tempos” do trabalho de luto podem ser pensados como reação não apenas à morte de um ente querido, mas a inúmeras perdas dolorosas que se apresentam ao longo de nossa trajetória, como o fim de uma relação amorosa.

Na perspectiva de Freud, temos o encerramento do processo de “luto normal” quando, afinal, após um trabalho interno lento e progressivo, a libido é retirada do objeto e a tristeza cede lugar para a possibilidade de retomar a satisfação narcísica em estar vivo. O Eu é transformado: “canibaliza” o objeto da perda e o incorpora, sintetiza Dunker. Já é possível sentir saudades, sem ser consumido pela dor da perda e pela sensação de empobrecimento do mundo – tão característica da fase inicial. Quando este corte, que representa a superação à perda do objeto, não é realizado, temos a ocorrência de lutos infinitos ou intermináveis, pontua o docente da USP. São conhecidos os casos de depressão associados a trabalhos de luto não concluídos ou sequer iniciados.

O desvio do trabalho de luto representa uma ameaça para a vida psíquica. A elaboração da perda não deve ser apressada ou interrompida. Nem sempre isso ocorre, no entanto, sobretudo quando a vida social é conduzida pelo imperativo da produtividade, concorrência e pela ideia de que não se pode “perder tempo” para alcançar o “sucesso” e a “felicidade”. Não são raros os casos em que a dor é medicalizada com vistas a acelerar o processo: o uso de antidepressivos em larga escala sinaliza a existência de um problema que é também de natureza social. Como pontua Maria Rita Kehl, em O tempo e o cão – a atualidade das depressões: “A tristeza, os desânimos, as simples manifestações da dor de viver parecem intoleráveis em uma sociedade que aposta na euforia como valor agregado a todos os pequenos bens em oferta no mercado” (2015, p.31).

O Tempo e o Cão, de Maria Rita Kehl (Boitempo)

Outro aspecto importante da elaboração do luto, como lembra Dunker, diz respeito à sua experiência pública e coletiva, isto é, a possibilidade de realizar ritos de despedida e simbolizar a perda em narrativas, como forma de partilha dos afetos. Velar e enterrar os mortos, falar sobre eles, visitar o túmulo, ser acolhido por parentes e amigos próximos. No cenário atual, este aspecto é atingido em cheio pelas restrições impostas pela pandemia, com consequências psíquicas e sociais ainda não dimensionadas. “O rito é a obrigação de falar sobre a pessoa”, explica. Quando não realizado, temos uma “morte sem narrativa”. Neste aspecto, o psicanalista também chama atenção para a dimensão ativa e criadora do trabalho de luto, fundamental para sua conclusão. Elaborar a perda não é apenas aceita-la, mas representa-la simbolicamente.

Embora Freud ofereça elementos importantes para o desenvolvimento de uma teoria do luto, na segunda parte do curso Dunker problematiza aspectos da obra, no diálogo com outros nomes da psicanálise, entre os quais de Jacques Lacan, que reformulou a perspectiva freudiana. Atualmente, Dunker trabalha na construção de um livro sobre o tema do encontro, resultado da articulação entre teoria psicanalítica e prática clínica.

Seguindo pistas da antropologia, o professor da USP apresenta o caso singular dos Araweté, um povo tupi-guarani cuja cultura conforma o trabalho de luto a partir de uma perspectiva distinta do modelo hegemônico ocidental. Nas palavras de Dunker, Freud parte de uma base totemista, masculina e fálica, para conceber, de maneira universalizante, “o luto como um processo de assimilação do outro”. Mas não haveria outras maneiras de realizar o luto? É possível falar na hipótese de um luto feminino, não fálico? Neste caso, Freud não explica, mas oferece linhas mestras para que seus herdeiros intelectuais avancem no trabalho de construção e revisão da teoria.

Araweté são um povo tupi-guarani cuja cultura conforma o trabalho de luto a partir de uma perspectiva distinta do modelo hegemônico ocidental (Foto: Eduardo Viveiros de Castro)

** Para saber mais sobre o tema (seguindo as indicações de Dunker):

ALOUCH, Jean. Erótica do Luto no tempo da morte seca. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.

ARIÈS, Phillipe. História da morte no ocidente. Rio de janeiro: Ediouro, 2003.

BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência. São Paulo: Autêntica Editora, 2019.

COSTA, Maria Cristina Castilho (Org). Luto, Ritos e Memória: a experiência da dor da perda humana no passado. Belo Horizonte: Artesã Editora, 2019.

ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos: seguido de “envelhecer e morrer”. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

FREITAS, Joanneliese de Lucas; CREMASCO, Maria Virginia Filomena (org). Mães em Luto. A Dor e suas Repercussões Existenciais e Psicanalíticas. Curitiba, Juruá Editora, 2015.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia (1917[1915]). In: Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp.170-194.

KEHL, Maria Rita. O tempo e cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2015.

KRISTEVA, Júlia. Sol Negro. Depressão e Melancolia. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

LACAN, Jacques. (1981). O Seminário. Livro XX: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LAMBOTTE, Marie-Claude. Estética da Melancolia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

*Michelle de Oliveira (michelle.oliveira.jor@gmail.com) é  jornalista e Doutora em Comunicação e escreveu a convite de TOP Magazine.

 

Serviço:

O Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) tem 40 anos de história e oferece cursos variados ao longo do ano, além de formação em psicanálise com duração de 3 anos. No dia 26/06/20 haverá a atividade on-line: Reunião Temática: Melancolia na Sociedade Brasileira com Maria Rita Kehl. Inscrições: (11) 3864 2330/ 3865 0017.

Reunião Temática: Melancolia na Sociedade Brasileira com MariaRita Kehl

 

 

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