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Agora vai ficar fácil entender porque a região já foi ocupada por tantos povos

Da tranquilidade dos tradicionais vilarejos em tom ocre à efervescência do verão europeu no mediterrâneo, Malta se revela como um destino surpreendente e multifacetado

POR Claudia Liechavicius, de malta 10 MIN

19 jun

10 Min

Agora vai ficar fácil entender porque a região já foi ocupada por tantos povos

POR Claudia Liechavicius, de malta

	

Basta traçar uma linha reta da Tunísia ao sul da Itália para localizar o arquipélago das Ilhas Maltesas, no mar Mediterrâneo, entre a África e a Europa. Pequenino, é verdade. São apenas três ilhotas habitadas: Malta, Gozo e Comino. O suficiente para despertar uma grande paixão. Isso, aconteceu comigo. Fui fisgada no instante em que desembarquei nesse cenário azul. Para completar, Malta tem vilarejos históricos cheios de charme, sol praticamente o ano todo, paisagens dramáticas, gastronomia saborosa, sorrisos generosos, alto astral e muita personalidade. Afinal, já foi ocupada por fenícios, gregos, cartagineses, romanos, árabes, franceses e ingleses. Esse rico caldeirão cultural mesclado com a beleza da ilha, tem tudo para agradar você também.

Malta é o menor país da União Europeia. Mas, é gigante em possibilidades. Não recomendo ficar menos de uma semana, mesmo que a ilha principal possa ser percorrida de carro, de norte a sul, em uma hora. Não tenha pressa! Há muito para se ver e viver pelo caminho. As paradas são irresistíveis.

As três maiores cidades de Malta são a histórica Valletta, a vizinha movimentada comercial Sliema e a festeira intercambista St. Julian’s. Comece por Valletta, a capital de Malta e a cidade que fez meu coração bater mais forte. Ela tem pouco mais de seis mil habitantes, que vivem entre suas muralhas, numa península cercada por enseadas naturais. Repleta de ladeiras com prédios baixos, em tom ocre e varandas coloridas. Foi declarada como Patrimônio Mundial da UNESCO. A rua Triq Ir-Repubblika, a principal, vai da Fonte de Tritão ao Forte de Valletta.

No caminho visite os museus, veja da mureta do Upper Barrakka Gardens as torres das igrejas barrocas e fortificações das Three Cities (Senglea, Vittoriosa e Cospicia). Elas representam o berço de Malta, pois foi onde os Cavaleiros Hospitalários inicialmente se estabeleceram. Vá a Co-Catedral de St. John, onde há obras de Caravaggio, e a Catedral de St. Paul. Malta é um país muito religioso. Tem mais de 350 igrejas e 95% da população é católica.

Uma experiência interessante é assistir uma missa em maltês. O idioma é bem difícil de entender, e principalmente de ler, pois apesar de usar o alfabeto latino, algumas letras são irreconhecíveis. Tem origem árabe com influência do italiano, francês e inglês. Uma bela mistura. Por sorte, o inglês também é língua oficial no país. E é ele inclusive quem leva muitos estudantes a cursarem intercâmbio na ilha.

Para ir da parte alta de Valletta até a baixa, economizando as escadarias, basta tomar o elevador por um euro. Faz lembrar o Elevador Lacerda, de Salvador. No porto, embarque num luzzu, pequeno barco maltês, para fazer a travessia do Grand Harbour até as Three Cities. O marinheiro que me conduziu era um senhor muito comunicativo. Parou em vários pontos contando fatos históricos sobre a região e mostrou seu amuleto pintado na proa do barco, dizendo: “Olhos de Osíres trazem proteção e boa sorte aos homens do mar, desde o tempo dos fenícios.”

De volta ao centro histórico de Valletta, a sugestão é sentar no terraço do restaurante Rampila de cozinha local contemporânea. Ele ocupa o lugar onde antigamente era feita a vigília dos muros da cidade. As mesas internas ficam numa simpática cave, ao lado de um pequeno museu. A comida é deliciosa e o visual da varanda é show.

Depois de entender a capital é a costa que merece ser explorada em toda sua plenitude. Nas cavernas de Zurrieq, a água turquesa convida a momentos únicos. Pequenas embarcações partem a todo instante de um canal que faz as vezes de porto, rumo às cavernas, num percurso de trinta minutos que tem como gran finale a Gruta Azul, um dos principais cartões-postais de Malta. Ao retornar do passeio, estenda a toalha nas pedras e não perca por nada a chance de nadar no pequeno cânion de água cristalina. Difícil mesmo é ir embora. E não esqueça de dar uma última paradinha no mirante para garantir uma bela foto antes de seguir para Peter’s Pool, ao lado. Ali uma grande piscina natural cercada por lajes de calcário faz a alegria da galera que salta das pedras. Uma plateia acompanha as exibições e aplaude as performances.

A essa altura a fome e o cansaço baterão. Tome o rumo de Marsaxlokk, um autêntico vilarejo de pescadores, a poucos quilômetros dali, onde uma série de restaurantes se alinha à beira-mar para servir peixes fresquíssimos. Sugiro o Tartarun  ou o Pisces. Aos domingos, o Sunday Fish Market movimenta o pacato vilarejo.

Bem no centro da ilha de Malta, no alto de uma colina, você encontra a cidade medieval de Mdina. Ela foi a capital do país até 1570, quando foi transferida para Valletta. É um pequeno tesouro que faz voltar no tempo. Menos de 300 pessoas moram na cidade fortificada. Caminhe pelas ruelas estreitas sem se preocupar com a hora. Visite a Catedral de St. Paul, o Palazzo Falson e, se tiver interesse, o Museu de História Natural. Para um almoço leve, sugiro o Palazzo de Piro ou a Fontanella Tea Garden para provar a famosa torta de chocolate. A técnica de vidro soprado, como a de Murano, é uma tradição em Mdina.

É possível visitar uma fábrica. Ainda nas proximidades aproveite para conhecer Rabat, onde se encontram as catacumbas de St. Paul e St. Agatha, e a cidade de Mosta com sua sagrada Notre Dame, que foi atingida durante a Segunda Guerra por uma bomba que não explodiu, quando estava cheia de gente.

Ao norte de Malta há dois bons programas para quem viaja com crianças. Um deles é o Aquário Nacional. Aproveite para almoçar e relaxar nas piscinas do Beach Club Cafe del Mar que fica ao lado. O outro é o parque temático Popeye Village construído para a gravação do musical Popeye estrelado pelo ator Robin Williams, em 1980, e depois transformado num complexo de entretenimento. Seu atrativo maior é a enseada de cor azul turquesa com várias atrações aquáticas.

Ainda nessa região vá até a L’Ahrax Coral Lagoon, uma grande piscina natural esculpida na falésia, que veio à luz quando o teto da gruta desabou. É preciso fazer uma caminhada de uns 200 metros para chegar até as bordas da gruta. Nos dias de mar calmo, um barquinho faz o trajeto pelo mar, a partir de Armier Bay, ao lado do Baia Beach Club, um lugar bacana para almoçar.

Depois de passar 4 ou 5 dias na ilha de Malta é hora de tomar o ferry, no porto de Cirkewwa, para a ilha de Gozo. A travessia dura meros 15 minutos e pode ser feita com ou sem carro. Se dirigir em mão inglesa não for problema para você, considere alugar um carro para circular por Malta e Gozo.

Tranquilidade é sinônimo do que está por vir. Famílias de pescadores, salineiros e pequenos agricultores moram nos povoados de San Lawrenz, Gharb, Marsalforn e Victoria, capital cultural e comercial de Gozo. Apenas um bate e volta é pouco, fique três ou quatro dias.

Dwerja Bay é a parte mais famosa de Gozo, onde ficava a Janela Azul, aquela rocha que colapsou em 2017. No local, há outras formações geológicas interessantes como a Blue Hole, uma piscininha cristalina no mar, super convidativa e a lagoa de água salgada Inland Sea, que se comunica com o mar apenas por uma fenda na falésia.

Se história mexe com você, os Templos de Ggantija precisam entrar no roteiro. São das estruturas megalíticas mais antigas do mundo, com aproximadamente cinco mil anos. O ingresso é combinado com o Moinho de Ta’Kola, antiga residência de uma família do século XVIII, hoje transformado em museu e distante 100 metros do sítio arqueológico.

Para uma dose de aventura, faça rapel nas rochas do vale Wied Il-Mielah e vá ao cânion de Wied Il-Gharsi. Encerre o dia fazendo uma pequena trilha a partir de Ramla Bay até a gruta que fica no alto da falésia – o pôr do sol vale o esforço.  Imperdível também ao cair do dia são as velhas salinas que se estendem a partir do Bolo de Noiva, uma rocha de formato inusitado.

Quer mais? Então, alugue um barco com marinheiro para curtir um dia com total  privacidade a ilha vizinha Comino, que no verão europeu é super disputada. Prepare-se para um dos azuis mais azuis da vida, e mergulhe de cabeça nas espetaculares Blue Lagoon, Crystal Lagoon e Baía de Santa Maria.

Enfim, Malta é plural, hospitaleira, solar, festiva, histórica. Agrada facilmente famílias que viajam com crianças, casais que procuram um destino romântico, mulheres que viajam sozinhas e amigos que querem curtir o verão. Tem personalidade marcante deixada pelos recortes do passado e uma beleza natural que emociona. Um belo refúgio mediterrâneo para apostar e se encantar.

 

Dicas quentes

COMO CHEGAR

Não há voos diretos do Brasil para Malta. É preciso fazer uma conexão em algum país europeu: Itália, Espanha, Inglaterra, França, Alemanha. Saiba que da Sicília para Malta há tanto voos curtos da Ryanair e Air Malta, como travessia de ferry boat. Consulte a Virtu Ferries que faz o trajeto de 130 quilômetros entre Valletta e Pozzallo, em 1h45m. Pode ser uma boa dobradinha.

MOEDA

O euro é a moeda oficial.

DOCUMENTOS

Brasileiros não precisam de visto para permanecer por até 90 dias em Malta. É necessário apresentar passaporte com validade de três meses após a data de saída do país e carteira internacional de vacinação contra a febre amarela.

 

Onde Ficar

MALTA

Domus Zamittello. Hotel butique localizado num palácio histórico do século XVII, no centro de Valletta. Tem apenas 21 acomodações clássicas e um bom restaurante. domuszamittello.com

The Phoenicia Malta. Esse charmoso hotel pertence a The Leading Hotels of the World e está localizado nos portões de entrada de Valletta, a alguns passos da Fonte de Tritão. Tem 136 quartos e uma piscina deliciosa. lhw.com

Cugó Gran Macina Grand Harbour. Um mimo, em Senglea, no Grand Harbour. Conta com apenas 21 suítes de design contemporâneo num prédio cercado por muralhas. O rooftop tem visual lindo da marina e seu restaurante Hammett’s Macina é muito bom. cugogranmalta.com

The Xara Palace. Luxuoso hotel com selo Relais & Châteaux localizado dentro das muralhas da cidade de Mdina. Tem apenas 17 quartos e bem sossegado. xarapalace.com.mt

GOZO

Cesca Boutique Hotel. A antiga residência da matriarca Francesca foi transformada num simpático hotel de 18 apartamentos, a um quilômetro da Baía de Xlendi. Administrado pela família e garante uma experiência genuína. cesca.com.mt

Kempinski San Lawrenz. Maior hotel da ilha de Gozo, perfeito para famílias. Tem 135 quartos e várias piscinas que fazem a alegria das crianças. kempinski.com

 

Onde Comer

VALLETTA

Rampila: restaurante no centro de cozinha maltesa contemporânea.

Nenu The Artisan Baker: um lugar simples para experimentar a pizza de Malta chamada de ftira.

Legligin: para degustar a tradicional cozinha maltesa da mama.

SENGLEA

Hammett’s Macina: cozinha mediterrânea com ambiente agradável.

SLIEMA

Ta’Kris: bistrô maltês escondidinho, tradicional, bem concorrido.

GOZO

The Boat House: restaurante na praia de Xlendi, para comer um bom peixe.

Ta’ Rosina: restaurante onde Angelina Jolie e Brad Pitt gravaram cenas do filme À Beira Mar.

MDINA

Palazzo de Piro: para um almoço descontraído em uma varanda.

Fontanella Tea Garden: famoso pela torta de chocolate.

MARSAXLOKK

Pisces: ambiente simples de frente para o mar, bom para comer peixes frescos trazidos pelos pescadores locais.

Tartarun: restaurante de cozinha mediterrânea caprichada.

BEACH CLUBS

Café del Mar: lugar animado para quem gosta da combinação praia e piscina. Fica na Baía de St. Paul ao lado do Aquário de Malta. Tem duas piscinas concorridas, boa música e drinques para brindar o pôr do sol.

Baia Beach Club: no extremo norte da ilha, em Cirkewwa, perto do L’Ahrax Coral Lagoon. Ideal para almoçar ou fazer uma parada antes de tomar o ferry para a ilha de Gozo.

 

*Claudia Liechavicius é jornalista, fonoaudióloga e apaixonada pelo mundo. Fundadora do site Viajar pelo Mundo e autora do livro “Quer Viajar?”. @claudia_liechavicius

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