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Agora não tem mais como duvidar que o Brasil foi abençoado por Deus

As histórias locais e todas as belezas naturais do Parque Nacional Chapada das Mesas, no Maranhão, fazem do destino uma aposta certeira

POR Flavia Vitorino, de Carolina (MA) 5 MIN

27 jul

5 Min

Agora não tem mais como duvidar que o Brasil foi abençoado por Deus

POR Flavia Vitorino, de Carolina (MA)

	

Talvez seja uma síndrome mundial, mas é notável que nós brasileiros fomos educados erroneamente com a cultura aspiracional que enaltece o turismo em outros países. É possível que seja também uma questão de escapismo, visto que nossa História envolve tantos problemas com a política e a economia (entre vários outros), desde que fomos descobertos, que a vontade que dá é de viver outras histórias por aí. E tem a questão dos estereótipos: o Brasil do samba, futebol e carnaval, o que não é bem verdade. Porque a real é que somos terra do axé, do maracatu e da mistura toda. Das festas de reinado, de São João e do boi-bumbá. E se não for pra falar de festa, falaremos dos oito milhões e meio de quilômetros quadrados de diversidade natural. Do cerrado, dos cânions, das serras e da natureza que a cada ano, brota aqui uma nova paisagem que precisa ser vista. E é assim com a Chapada das Mesas.

É bem provável que você já tenha ouvido falar dos Lençóis Maranhenses ou do Jalapão, mas dos milhares de hectares de cerrado nos municípios de Carolina, Riachão, Estreito e Imperatriz, no centro-sul do Maranhão, quase ali na divisa com Tocantins, talvez não. Ali é o Maranhão raiz. Brasil sem disfarces. Nem adianta procurar por resorts ou hotéis de charme e restaurantes descolados, porque não tem. É cultura local, música local e beleza local o que não é pouca coisa de forma alguma. Florestas de buritizais, sertões, relevo de chapadas vermelhas, compõem um estonteante conjunto de curiosas formações rochosas, cânions, cavernas e cachoeiras.

O Parque Nacional Chapada das Mesas foi criado, porque grupos locais (chamados na época de ecoloucos) decidiram lutar firmemente para barrar a construção de duas hidrelétricas nas águas do Rio Farinha. O processo de criação da unidade de conservação durou anos, mas foi finalmente aprovado em 2005, protegendo todos os 160 mil hectares da área total da região. Seu nome veio por conta de seus platôs, que lembram realmente o formato de mesas de pedra. Isso se deu devido aos paredões de rocha de arenito formados há milhões de anos.

A melhor forma de chegar é voando até a cidade de Imperatriz – MA, que fica a quase 300 quilômetros de distância de Carolina, a cidade base para se hospedar e conhecer o parque. Dali, o interessante é ter um carro (4×4) e um guia especializado para rodar toda área, voltando sempre para a cidade no fim do dia. E já que a região, como disse, é “raiz”, o interessante é fazer as conexões e reservas antecipadamente.

O município de Carolina tem pouco mais de 20 mil habitantes. Os carolinenses vem se habituando aos poucos com a chegada de visitantes para a região, então, não existem tantas opções de hospedagem como nas outras Chapadas brasileiros, por exemplo. Uma boa opção é a Pousada dos Candeeiros, um casarão de campo do século XIX, distante cinco minutos a pé das margens do rio Tocantins, e a 4 km da entrada do parque. E é ali na pracinha central, ou sentada nas cadeiras na beira da calçada da pousada que fazíamos uma roda de conversa, entre guias e moradores pra planejar o dia seguinte.

Entre os contos locais, era nítida a paixão dos maranhenses pela sua terra, misturada pela preocupação dos processos de desapropriação que vem se arrastando juntamente com a aprovação da área preservada.

O paraíso das águas, como os moradores chamam a região, tem quedas de todas as formas. São 89 cachoeiras catalogadas e mais de 400 nascentes. Dos cenários mais paradisíacos que já vi no Brasil, o poço azul e o encanto azul me fizeram ter a sensação de que ninguém mais havia estado ali antes da minha chegada. A cor da água é tão azul quanto a piscina do melhor resort de luxo que você já visitou. E no mesmo dia, dá para se transportar para um cenário meio Jurassic Park na queda de 76 metros da cachoeira de Santa Bárbara, com acesso através de uma ponte pênsil para dentro de um cânion estreito.

Tudo é muito cênico. Acordamos às 5 horas da manhã para assistir o sol nascer no tal “portal da Chapada”. É uma formação de estrutura natural no centro de um grande rochedo que fica bem no alto. Uma espécie de “pedra furada”. O mais curioso é que na noite anterior, um dos moradores havia me contado que o buraco nessa rocha formava exatamente o desenho do estado de Maranhão. Eu estava ali na frente dela, e a luz do sol atravessando esse buraco não me deixou dúvidas. Tive que concordar que é mesmo verdade – só não me peçam para explicar como isso é possível.

E se o assunto é mistério, o rio farinha também tem sua história. Acompanhando seu curso, ele aparece largo como na cachoeira da Prata, com quedas turbulentas de cerca de 18 metros de altura, ou também na queda de São Romão, com 25 metros, chegando até a formar piscinas naturais em águas tranquilas. Mas aí ele simplesmente desaparece numa fenda, uma pedra apelidada pelo fenômeno de “sumidouro”.

Histórias que continuam, todos os dias. O grande barato da noite é ouvi-lás sentado nas mesas da calçada ali no miolinho da cidade, na avenida Getúlio Vargas, onde ficam todos os restaurantes de Carolina. Entre eles, o Panela Velha e o Espaço Gourmet, que servem opções regionais, mais caseiras. Foi assim que decidimos partir para o trekking do Morro do Chapéu na manhã seguinte, quando o guia me contou que era lá que os indígenas realizavam todos os ritos das tribos locais que existiram por ali.

Digamos que seja uma “escalaminhada” com aproximadamente 400 metros de trilha morro acima, sendo que cerca de 220 metros são caracterizados por elevações acumuladas e precisamos de ajuda dos braços para subir. Exige um preparo físico, mas não de atleta. O cume é plano e a vista é eterna, e te leva pra abraçar os 360 graus de todo o horizonte da região, já que ali é o ponto mais alto da Chapada.

Existe muita coisa pra se ver. No último dia, ainda tinha comigo uma lista de lugares e de histórias, mas que já sabia que ficariam pendentes para uma próxima visita. Neste dia, o carro ficou na garagem para dar lugar à mountain bike, em um pedal de cerca de 18 km em estrada de terra e mata fechada, entre paredões rochosos até chegar no Abrigo Matrinxã da Serra da Lua. Dali, foram mais 10 km até um barco nas margens do rio Tocantins que me levou para a grande despedida: o pôr-do-sol no meio do rio com a imagem da Chapada ao fundo.

Brasil está longe de ser só do futebol e do samba. Precisamos deixar de ser “Narcisos às avessas” e abandonar o  complexo de “cão vira-lata” das expressões de Nelson Rodrigues. É um país problemático, mas que não nos impede de termos amor e orgulho de nossas belezas naturais.

 

DICAS QUENTES

Como Chegar 

A maneira é voando de São Paulo para a cidade de Imperatriz (MA). As companhias aéreas Latam Airlines, GOL e AZUL oferecem voos para o destino. Depois, alugar um carro para mais 250 kim de estrada até a cidade de Carolina, porta de entrada para o Parque Nacional Chapada das Mesas.

Onde ficar

O destino tem opções bem básicas, mas já é preciso viajar sabendo que resorts e hotéis de charme não são a pegada do destino.

Uma das melhores opções é a Pousada dos Candeeiros no centro da cidade. Um casarão do século XIX com suítes divididas em três categorias. Café da manhã e wi-fi disponíveis.

Quem leva

A agência Venturas Viagens oferece pacotes e viagens para diversos destinos nacionais.

Saiba mais em: venturas.com.br

 

*Flávia Vitorino é turismóloga, jornalista e mãe de duas meninas. Escreve sobre viagens de natureza desde 2011 e tem como objetivo principal mostrar que aventura é algo que está ao alcance de todos.

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