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A vida familiar revista

Sem mistificações, autora argentina Ariana Harwicz faz um retrato ácido da maternidade e do matrimônio

POR Marcio Aquiles 2 MIN

24 jun

2 Min

A vida familiar revista

POR Marcio Aquiles

	

O marido e o bebê, intragáveis; a vida como um peso insustentável, acaso num universo em desencanto onde predominam dor e angústia; a loucura avançando acelerada. Essa é a percepção de mundo aos olhos da protagonista de Ariana Harwicz, em “Morra, amor”. Já no primeiro parágrafo, a mãe espiando os dois a brincar na piscina, escondida entre ervas daninhas, em um domingo, véspera de feriado… e com uma faca na mão. Depressão pós-parto? Melancolia crônica persistente?

Provavelmente não, pois é um sofrimento anterior, metafísico, talvez genético, inerente à condição humana, seja masculina ou feminina (cada uma com suas similitudes ou especificidades), embora a obra foque na última. A literatura da autora argentina carrega um pouco da lascívia visceral de Elfriede Jelinek, do humor mordaz de Dorothy Parker e do pessimismo de Virginia Woolf. O romance breve (uma novela, diriam alguns teóricos) é um soco no estômago, ou um coice, uma vez que o cenário é uma França rural nada idílica, onde há espaço para vizinhos que sofrem overdose de heroína ou sobrevivem à base do sexo virtual pago.

Memória, sonho, desejo e delírio combinados em literatura de primeira qualidade, altíssima sofisticação ficcional, uma voz narrativa que chegou para abalar estruturas (ainda!, infelizmente) convencionais – patriarcais, religiosas, dogmáticas… A indiferença pelo filho, o “foda-se” para tudo e todos, bem- vindos à vida contemporânea cética, niilista e sem utopias. O que choca (será?) é a sinceridade do relato, na mesma medida que fascina com a beleza de sua exposição.

São paisagens sensoriais e imagéticas (quer vislumbrar?, pense num filme da cineasta Lucrecia Martel, não pelos temas, mas por aquela atmosfera densa, e o quadro está feito), relato cru e decadente de uma família que se mantém apenas por inércia, assim como a comunidade que os acolhe. Metáforas e subordinadas comparativas são abundantes no texto:

“seu quarto era como a neve”; “trago odores como fogo-fátuo”; “os pássaros se desarranjam e arqueiam a corcova como touros”, gerando uma prosa de significativa visualidade. O adjetivo poético tem sido maltratado e banalizado pelo emprego excessivo, mas talvez seja a palavra-síntese mais apropriada para descrever o livro. O procedimento descritivo, aliás, é utilizado em abundância, e por meio dele as nuances dos fatos e as sensações da narradora ganham corpo, alma e história.

Morra, amor

Autora: Ariana Harwicz
Tradução: Francesca Angiolillo
Editora Instante

Marcio Aquiles é escritor, crítico literário e teatral, autor dos livros “A Odisseia da Linguagem no Reino dos Mitos Semióticos”, “O Eclipse da Melancolia”, “O Amor e outras Figuras de Linguagem” e “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário”, entre outros.

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