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27 Maio

A VIDA COMO ELA É

Pela imersão em histórias e vivências, Finok exibe sua arte de inspirações realistas

POR Carla Ferraz 6 MIN

27 Maio

6 Min

A VIDA COMO ELA É

POR Carla Ferraz

	

Os traços marcantes dão o tom das obras inspiracionais com referências significativas do artista Raphael Sagarra, conhecido como Finok. Ele tem o dom de retratar a realidade, transformando suas vivências em arte, misturando o provocativo e o irônico, sem esquecer o principal: a verdade. Afinal, para ele, o importante é apresentar o que está sentindo. “Eu tento mostrar a realidade como ela é, o que vivi. É difícil uma pessoa entender o que passei, a intensidade, cada um interpreta de uma forma totalmente diferente. Por isso, não procuro imaginar o que as pessoas vão pensar, mas ainda assim quero exibir a verdade”, diz o artista plástico de 34 anos. Em cada lugar uma experiência, uma lembrança e um ou vários personagens responsáveis por deixar as obras de Finok com uma nova cara. Mas não é de hoje que a arte está em sua vida. Desde criança, ele era incentivado a estudar artes e música pela mãe Olga e o pai Ricardo, que pintava telas com tinta a óleo. Já o garoto preferia desenhar em seus cadernos. Aos 12 anos, Raphael passou a se interessar pelo que via nas ruas, em especial as letras pichadas que não conseguia identificar. Até que um “C12” chamou sua atenção. Um amigo lhe disse que o significado era Calibre 12, e nesse momento ele decidiu aprender aquilo que tanto despertava sua curiosidade. Lia tudo que encontrava pela cidade, começou a pichar, mas logo mudou o foco para um grafite diferente. E ali surgiu sua paixão pela street art.

Pelos bairros, pelo país, pelo mundo

Criado no Cambuci, berço de grafiteiros famosos, Finok estava no lugar certo e na hora certa para aprender, até porque naquela época não existia internet: todas as técnicas e conhecimentos eram compartilhados nas ruas. “Você via alguém fazendo grafite, ia perguntar como fazer ‘bicos’ de spray mais largos, onde comprar… Uma vez, troquei uma bermuda por um desses”, comenta. E dessa troca de informações nasceram as amizades. “Meus ídolos do começo são hoje meus amigos. A maioria conheci naquele tempo, vendo como pintavam e aprendendo. Eu era mais novo e ficava ali, observando e perguntando”, lembra. Para grafitar, porém, era necessário técnica, algo bem mais difícil do que parecia. Mas em pouco tempo Raphael já estava com um projeto em mente: grafitar o maior número de bairros de São Paulo. Surgiu então a ideia de colar um mapa da metrópole em seu quarto e espalhar sua marca por toda a cidade: cada lugar concluído era assinalado com uma tachinha. “Eu não sei quantos bairros eu pintei, mas foram muitos. Uns extremamente pobres”, conta. Assim, cada canto da capital foi recebendo suas obras, formadas por um estilo cartoon, com uma carinha estampada na letra “O” de Finok e paletas fluorescentes. Normalmente, cada artista escolhe uma cor para assinar seu desenho, mas a vontade de Finok era criar uma identidade visual. “Meu início foi meio precoce, não tinha a mesma cabeça que tenho agora. O foco era totalmente o grafite, não me interessava por obras de arte. E minhas preocupações eram relacionadas à parte visual, a busca por um estilo próprio”, diz. “Hoje em dia, sou mais consciente e percebo que minhas últimas pesquisas são bem mais profundas. Não pode ser simplesmente bonito, porque se torna algo apenas decorativo. O mais importante é você transmitir algo, essa sensibilidade é o que te torna um artista. Vários não são considerados assim por não terem estudado ou por não estarem com exposições em museus, mas isso não significa nada. Uma pessoa que estudou certamente saberá como entrar no circuito, mas isso não a torna um artista. A arte nasce dentro das pessoas!”, avalia Finok, que a traduz como um sentimento. “Às vezes, a pessoa não sabe pintar, mas, se te traz alguma coisa, é arte.

É nítido quando um trabalho te toca e você não sabe nem explicar o porquê”, reflete ele, dono de um olhar crítico que o permite explorar com maestria as referências populares com as quais as pessoas se identificam. Suas obras também discutem princípios sociais. “Estou sempre pesquisando, não tenho um estilo definido, mas confesso que tenho o prazer em retratar pessoas e vivências em meus trabalhos.” Atualmente, Finok se concentra em projetos que envolvem telas e esculturas em madeira e cobre. E quer aprender a trabalhar com argila e metal. Mas seu maior foco são os seres “em que ficam as memórias, os momentos vividos, as conversas, os objetos que estavam em cena e até mesmo algo que não estava presente, mas remete ao artista”. “Até para a gente que está acostumado a ver lugares de extrema pobreza, existem cenas que marcam. A experiência fica mais forte e acho interessante, às vezes, valorizar coisas que não têm valor.’’ De seu processo criativo, ele detalha: antes de pintar, elabora um texto conceitual do que será feito e imagina a quantidade de obras. Para cada uma delas existe uma releitura e objetos que entram em conflito com o que foi pintado. Assim Finok deixa registrada sua arte, que já está no Chile, Portugal, Estados Unidos, França, Itália, Rússia, Inglaterra, Bélgica, Líbano, Índia, entre outros lugares. Sua conexão mais forte, no entanto, é com o Nordeste, que ele considera uma mistura do Brasil e reflete bem sua arte, que, mais do que imagens, traz a cultura do povo brasileiro.

 

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