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A única viagem onde todo mundo fica feliz por descobrir um novo golpe

Artes marciais japonesas: descubra mais sobre esse ensinamento milenar em uma viagem imersiva pelos dojos, ryokans e outras particularidades da cultura do país

POR Carla ferraz  Fotos Luca pucci 8 MIN

04 jun

8 Min

A única viagem onde todo mundo fica feliz por descobrir um novo golpe

POR Carla ferraz  Fotos Luca pucci

	

Na terra do sol nascente, as tradições milenares convivem em perfeita harmonia com as tecnologias. É incrível perceber como os fanáticos por mangás e games dividem espaço com os cosplayers e samurais. O país tem o dom de unir culturas diferentes de forma harmônica e respeitosa. E, obviamente, não tem como falar do Japão sem mencionar as artes marciais- uma fusão de luta, filosofia, respeito ao próximo, hierarquia e muito aprendizado. A prática em que os valores educativos, morais, físicos, estéticos e espirituais convergem em autoconhecimento.

Ao redor do mundo, pessoas praticam artes marciais em busca de equilíbrio, controle e o sentimento mais profundo de paz. Mas a história desta luta, que surgiu como defesa e ataque de guerra, não é de hoje. Alguns historiadores acreditam que as artes marciais são uma expressão cultural, que se encontra em diferentes civilizações desde os primórdios da História, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Cada arte se aperfeiçoou e teve sua ramificação, desenvolvendo diferentes técnicas de combate e transformando a antiga tradição de luta em esportes modernos.

No Japão, a filosofia que inspirou todas as artes marciais atuais foi o Budô (ÙëÔ³), termo que é um conjunto de regras disciplinares, responsável por conduzir em direção elevada (física, mental e espiritual) e serve para distinguir o estilo de vida dos praticantes. O Budô combate não só o inimigo externo, mas também o nosso “ego”, um inimigo interno, que deve ser derrotado. Bu (Ùë) significa “guerra” ou “marcial” e provém da época em que as técnicas dos antigos samurais eram ensinadas com o intuito de vencer o exército inimigo. Este conjunto de técnicas era chamado de “bujutsu”: “arte de guerra”, “arte marcial” ou “técnicas de guerra”. Por sua vez, Do (‘³) significa “caminho”, que emana o sentido religioso sobre o caminho da iluminação, vivenciado em cada ensinamento, buscando a evolução do ser. Ou seja, modalidades terminadas com Do, como judô, aikidô, sumô, kendô, iaidô, kyudô, significam o caminho de algo. Judô, por exemplo, é “caminho suave”, aikidô por sua vez “caminho da harmonia”.

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Por falar em caminho e jornada, foi em busca deste conhecimento, que o fotógrafo Luca Pucci viajou para o Japão. Ele sempre se interessou pelos costumes japoneses – praticava judô desde seus sete anos – e aproveitou sua última viagem para fazer uma imersão na prática de judô e aikidô. Já era sua segunda vez em Tóquio, e Luca marcou um dia para conhecer o Kodokan, que é o Honbu Dojo central de judô. Dojo é o local em que se treina artes marciais e esta foi a primeira escola de judô do país, fundada em 1882, por Jigoro Kano.

Seu nome Kodokan significa Instituto do Caminho da Fraternidade. O dojo pode ser considerado como o seminário de cada modalidade. A área é respeitada como se fosse a casa dos praticantes e é normal os alunos reverenciarem antes de entrar. As aulas são ministradas pelos melhores mestres e o dojo central é responsável pela filiação em todo o mundo. Lá são realizados treinos abertos, divididos entre os andares próprios para crianças, mulheres e homens. É bem comum ver os japoneses saindo do trabalho e indo para lá lutar. A aula é bem livre: aquecimento e luta, sem juiz e pontuação. A maioria dos judocas é faixa preta, mas contam com aulas para iniciantes também. Mas isso não significa que estrangeiros não possam ter a chance de vivenciar uma luta por ali. Para poder treinar no dojo, a escola no Brasil precisa ser afiliada. Foi assim que Luca conseguiu ter sua primeira experiência.

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Ele foi visitar o espaço sem nenhuma pretensão e, ao entrar no prédio, recebeu o convite de uma mulher (sem saber que ela era a mestre do judô feminino), para conhecer a aula. Depois ela explicou como funcionava, onde era a recepção internacional – você paga uma a taxa de oito dólares que dá direito a uma aula de três horas -, e a loja local, que vende quimono e faixa que pode ter o nome do judoca bordado em japonês. O convite chegou na hora certa, havia três anos que o fotógrafo não pisava em um tatame. “Ela entrou no elevador e me chamou para treinar, eu não podia negar, era uma oportunidade única. Conheci os mestres e fiz amigos. O judô, mais que uma arte marcial, é um conhecimento, uma educação”, comenta Luca. Ele praticou judô por 15 anos e parou por ter lesionado os dois joelhos. Da lesão veio o amor por outra arte marcial, o aikidô (considerado como “arte da paz”) que não tem movimentos agressivos.  “O aikidô é mais moderno que o judô, suas técnicas são baseadas na autodefesa, através da combinação de movimentos atacantes redirecionados à força adversária, ao invés de combatê-lo diretamente. Ambas modalidades possuem os mesmos princípios, porém esta preserva mais o corpo, é um exercício mais leve e trabalha muito com a mente”, conta. Com isso em mente, Luca retornou ao Japão para treinar a nova modalidade. Desta vez com uma imersão de 16 dias com foco total no aikidô.

A viagem foi dividida por cidades e treinos diferenciados. Além disso, como a academia que ele treina no Brasil têm parceria com o Japão, isso facilitou muito o seu roteiro e do amigo Claudio Felipe, também praticante de artes márcias. A primeira parada foi em Tóquio com treinos realizados na fundação Aikikai (quartel-general mundial do Aikidô), criada em 1940 pelo segundo doshu Kisshomaru Ueshiba, filho de O Sensei Morihei Ueshiba. O Aikikai Hombu Dojo, serve para desenvolver e divulgar o aikidô, com referências técnicas para instrutores ao redor do mundo. “Treinar lá é o sonho de todo praticante do aikidô”.  As aulas acontecem sete dias por semana, (para saber os horários e a grade dos mestres, basta entrar no site, já que cada mentor tem uma maneira de realizar os ensinamentos e as classes são sempre lotadas). A primeira aula acontecia às 6h45 e era ministrada pelo Doshu, neto do fundador. Os treinos eram feitos na parte da manhã e a tarde Luca aproveitava para fotografar. Depois seguiram para Osaka até chegar ao encontro do mestre Hori Shihan em seu dojo. Para se ter uma ideia, ele é o sétimo grau de faixa preta, aluno direto do filho do criador de aikidô, que vive em Sanda, na província de Hyogo, cerca de uma hora de trem de Osaka. De lá, seguiram com o mestre por mais duas horas de carro até Kannabe. A cidade a oeste do Japão é conhecida por ter montanhas cobertas de neve na temporada de inverno e, no verão, por atrair praticantes de artes marciais e que relaxam em suas águas termais. O ambiente é ideal para o Gashuku, treino em que os alunos viajam com seus mestres para uma imersão, uma oportunidade de estar isolado e concentrar-se. Ali o treino acontece pela manhã, tarde e noite. Toda a turma, inclusive o mestre, ficou hospedada em um Ryokan, típica acomodação do país gerenciadas por famílias e com preços acessíveis. O nosso era uma casa no campo de um casal de agricultores, uma super imersão cultural. Eles eram muito receptivos e o espaço extremamente organizado, limpo e a comida deliciosa.

Ali, todos dormem em um futon sobre um tatame. Tudo simples, mas maravilhoso. “Eu e meu amigo éramos os únicos estrangeiros, tudo era falado em japonês. O dono do Ryokan que cozinhava e, no primeiro dia, ele nos recebeu com um sukiyaki, uma experiência cinco estrelas com um preço muito baixo”. Além da vivência de treinos, tiveram a oportunidade de tomar banho japonês (“onsen”), que são casas com piscinas termais e jantar com o mestre.

Na hora do jantar, o mestre aponta para um aluno que instantaneamente começa a cantar uma música, um karaokê ao vivo. E uma  simples batida de palma indica o fim do jantar, todos se levantam, limpam o ambiente e vão direto dormir. Na manhã seguinte, voltaram para Kyoto e ficaram mais cinco noites hospedados perto aos dojos. Lá, o treino foi com a mestre Yoko Okomoto, que também treinou o filho do fundador e tem o sexto grau de faixa preta. Ela tem um dojo, o mais internacional que visitamos. “Aproveitamos cada minuto para treinar, conhecer os japoneses que estavam treinando e fazer amizades”, comenta Luca.

De Kyoto voltaram para Tóquio, já com um gostinho de quero mais. “Eu pretendo voltar todo ano. Como o nome já diz, aikidô e judô significam um caminho de vida que você escolhe. E esse caminho nunca acaba, sempre tem alguma coisa para aprender e é sempre melhor aprender direto na fonte”, afirma ele. Vale uma última dica preciosa: “Para quem já treina, o ideal é ficar no mínimo duas semanas. Senão, o melhor é ficar um mês inteiro no Japão, que equivale a um ano de treino no Brasil. Se já for um praticante, é só mostrar a carteirinha e entrar direto na aula avançada, caso contrário fará as aulas de iniciantes. Todos recebem muito bem os estrangeiros. Eu recomendo começar por Tóquio, afinal os dojos centrais de judô e de aikidô estão por lá”. A viagem foi tão intensa, que Luca está pensando em abrir uma agência para organizar viagens ao Japão para os praticantes de artes marciais.

 

COMO CHEGAR

Não existem voos diretos do Brasil para o Japão. A melhor opção é fazer uma escala nos Estados Unidos, Europa ou via Dubai. Não esqueça de verificar a exigência de visto no país de conexão.

DOCUMENTAÇÃO

Brasileiros precisam de visto para visitar o país. A requisição pode ser feita em uma Embaixada ou Consulado do Japão, mediante ao pagamento de uma taxa e apresentação de alguns documentos juntos com o passaporte. O visto poderá ser de uma, duas ou de múltiplas entradas.

QUANDO IR

As quatro estações japonesas são bem definidas, a primavera vai de março a maio, com temperaturas mais amenas e época das cerejeiras (sakuras).

ONDE FICAR

Se for fazer uma viagem de imersão nas artes marciais, o ideal é ficar hospedado próximo aos dojos: Judo centro Kōdōkan: kodokanjudoinstitute.org/en/

Centro aikido Aikikai: aikikai.org.br/

Japan Karate Association: jka.or.jp/en/

Centro kyoto aikido Aikido Kyoto: aikidokyoto.com/en/

*Luca Pucci . fotografo e apaixonado por artes marciais epela cultura japonesa, a paixão é tanta que faz aulas de japonês desde seus 14 anos. Em todas as viagens pelo Japão ele aproveita para desbravar, fotografar e lutar no território que se sente em casa.

@elelucapucci

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