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A dissolução do narrador

POR Marcio Aquiles 4 MIN

07 ago

4 Min

A dissolução do narrador

POR Marcio Aquiles

	

A escritora Faye não é uma personagem particularmente interessante. Ao menos no que se apresenta em “Esboço”, primeiro volume da trilogia de Rachel Cusk. Pouco se sabe sobre ela, uma vez que o romance versa sobre as histórias dos personagens que cruzam seu caminho, em vez de suas próprias aventuras e reflexões. O leitor assimila em detalhes os episódios familiares de seu vizinho de assento num voo para Atenas, onde ela vai lecionar criação literária; a personalidade de Clelia, por meio de deduções com base no mobiliário do apartamento onde se hospeda; histórias sobre o filho da amiga do amigo; e por aí vai. Propõe-se, assim, um radical deslocamento da narrativa, haja vista que ela é ninguém menos do que a própria narradora do romance.

Esse procedimento reaparece em “Trânsito”, segundo volume da trilogia que a editora Todavia está lançando no Brasil. No entanto, passeios de barco por ilhas gregas e almoços com vinho são substituídos por conversas com o mestre de obras ou o cabeleireiro, por exemplo. Não que isso mude muita coisa, já que situações ou deslocamentos da narradora são irrelevantes, servem apenas como subterfúgio para que tenha acesso a histórias pessoais dos que a circundam.

A digressão alheia como dispositivo literário abre infinitas possibilidades, pois não é mais necessária a coesão narrativa do romance como um todo. Ao abrir o leque para histórias de qualquer interlocutor, que pode narrar qualquer episódio, de qualquer momento da sua vida, a autora cria um rizoma ficcional quase infinito. Em termos estruturais, cada capítulo funciona praticamente como um conto independente.

Como consequência, a noção de protagonista se dissolve e abre-se espaço para que o que seriam coadjuvantes se transformem nos vetores narrativos, criando uma espécie de alteridade rara em romances. Pelo fato de a narradora (em primeira pessoa) ser uma escritora, cria-se a falsa expectativa de que teríamos uma narração autodiegética (personagem principal é o narrador), mas não, Rachel Cusk cria uma tipologia híbrida.

O livro torna-se, portanto, uma metáfora sobre o próprio romance e o ato de narrar e ouvir/ler. São todos mecanismos conscientes, e a autora brinca com isso. Após encontrar uma colega, por exemplo, e escutar passivamente seus vários causos, como ocorre em todo o volume, ouve da amiga que se tivesse uma noite livre, poderiam se encontrar novamente para “pôr a conversa em dia de verdade”. Ou seja, é um deboche, uma provocação ao leitor, convidando-o a participar desse jogo.

No festival literário que a narradora participa, os dois autores que dividem sua mesa escreveram livros classificados como autobiográficos. E ambos têm à disposição vários parágrafos (ou minutos, para os personagens do livro) para narrar traumas e memórias da infância. Quando chega a hora da narradora, de quem o leitor, por convenção, pode desejar saber mais informações, ela tira anotações da bolsa, lê (o leitor não fica sabendo o quê), é aplaudida, e pronto!

Rachel Cusk é astuta o bastante para desconstruir sua própria persona por meio de sua personagem: “Acho que li um de seus livros. Mas não me lembro sobre o que era”. O recurso poderia garantir uma certa imunidade contra a crítica – não que tenha sido necessário, já que seus trabalhos vêm sendo muito bem recebidos por especialistas e leitores em vários países – ao evidenciar um tipo de autoironia de quem precisa demonstrar que está ciente de suas técnicas ficcionais. E ela está, às vezes até demais.

“Trânsito”, segundo volume da trilogia de Rachel Cusk, segue proposta de diluir narradora entre as múltiplas vozes de seus interlocutores

 

Trânsito

Rachel Cusk

Todavia, 2020

200 pág., R$ 59,90

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