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A brasileira que tem um quintal com mais de 510 milhões de km²

Para Cyntia Franco, velejar tornou-se um estilo de vida, e ela conta sua experiência e as aventuras pelos mares do mundo aqui

POR Gabriela del Carmen 6 MIN

24 jul

6 Min

A brasileira que tem um quintal com mais de 510 milhões de km²

POR Gabriela del Carmen

	

Cyntia Franco vem de uma família que sempre esteve próxima ao mar. Desde criança se aventurava no oceano com seus familiares, apaixonados por barcos a motor. Mas, seu fascínio pelas embarcações a vela veio mais tarde, aos 18 anos. Acompanhando seu pai e seu tio em uma viagem de três dias de São Paulo ao Rio de Janeiro, conheceu um grupo de franceses que a convidaram para passear de veleiro. Amor à primeira navegação.

Ela acabou mantendo contato com os estrangeiros, que passaram um tempo no Guarujá. Por conta da amizade, um deles a chamou para acompanhá-los numa viagem de barco aos Estados Unidos. Porém, como estava terminando a faculdade de Artes, Cyntia optou por esperar a Graduação para depois desbravar o mundo.

“A gente ficou se comunicando por carta durante seis meses, caso no caminho eu quisesse encontrar com eles. A última que eu tinha recebido dizia que estavam em Caiena, na Guiana Francesa”, conta.

Concluiu o curso e, na época com  apenas 20 anos, não podia sair do país sem autorização dos seus pais. Após muita resistência, conseguiu convencê-los e partiu a procura dos companheiros, mesmo sem saber se continuavam na Guiana Francesa. “A última carta dizia para que quando eu chegasse, fosse a um hospital encontrar com um médico que me levaria até eles”. Dito e feito. “Parecia um sonho, coisa de filme”, relembra. Levou a carta para o aeroporto e seguiu as orientações. Achou o tal do médico e perguntou se seus amigos ainda estavam por lá. E por sorte, ainda estavam.

Reunidos, passaram uma quinzena levando turistas para famosa Ilha do Diabo, a seis horas de veleiro da capital. Era a forma que encontraram para ganhar dinheiro e depois seguir viagem aos Estados Unidos. “A ilha é incrível, a natureza tomou conta de tudo, as ruínas das prisões são cheias de raízes das árvores, que entraram nas edificações e quebraram todo o piso. Mas é cheia de ratazanas enormes, então a gente dormia em redes”, explica.

Depois de duas semanas Cyntia, acompanhada dos dois franceses e um médico, seguiu viagem para a América do Norte. “Eu falei para o meu pai que a gente chegaria em três meses, mas demoramos sete, porque íamos parando em tudo quanto era lugar, curtindo”, conta. Mas, como em qualquer viagem que vale ser recordada, não deixou de passar por apuros.

Mais de trinta anos depois, ela se lembra muito bem da parada que fizeram em Trinidad e Tobago, localizado próximo da Venezuela. Aproveitando o passeio, a velejadora decidiu praticar windsurf. O problema? A água do rio era contaminada. “Eu tinha saído do Brasil sem nenhuma vacina. No meio do caminho eu comecei a ficar com febre”. Estava com estafilococos, microorganismos que causam infecção na pele e teve que ser operada ali mesmo, sem anestesia.

Seguindo os rumos que a vida criava, optou por passar um tempo na Bélgica, onde entrou na Academia de Artes e na Faculdade de Astrofísica. “As coisas foram acontecendo. Eu saí do Brasil para ficar três meses fora e acabei voltando só depois de cinco anos”.

Aos 26, regressou a seu país de origem e no ano seguinte deu a luz à sua filha Ìsis. De volta à rotina, começou a trabalhar com tecnologia, “mas eu não conseguia mais me adaptar ao país, queria ir embora”. Mudou-se para a Austrália aos 35 anos, candidatando-se para um emprego de professora de Tecnologia da Informação. Trabalhou em Brisbane e Sydney, economizando dinheiro para sua próxima viagem. Feliz, porém sempre com aquela saudade de estar no oceano. “Como meu trabalho é por contrato, é fácil eu me planejar, posso guardar dinheiro e sei quando vou poder velejar de novo”.

O desejo de voltar para o balanço do mar ficava cada vez mais forte. Durante a noite, sonhava que estava no meio do oceano, sem conseguir enxergar nenhuma porção de terra ao seu redor. Ficava o tempo todo se perguntando onde estava, sem referência nenhuma, cercada por água. Talvez tenha sido um despertar espiritual ou simplesmente suas vontades mais profundas ganhando força.

Foi, então, que em 2011, aos 52 anos, foi para a Bahia, de onde pretendia iniciar uma nova jornada. Conheceu um dinamarquês que procurava companhia para velejar até os Açores. “Foi minha viagem mais desafiadora”, garante. Como fazia anos que não velejava, passou os primeiros três dias completamente enjoada pelo balanço do veleiro.

Ao melhorar, porém, os desafios não diminuíram. Foram 39 dias seguidos no mar apenas os dois em um veleiro pequenininho. “O dinamarquês era rude, ele me maltratava, me xingava e eu tinha que me proteger”. Hoje, olhando para trás, reconhece que a circunstância a ensinou a ser forte e realmente perceber um mundo machista, principalmente entre os velejadores.

“É muito complicado ter homem no barco, não respeitam e não gostam que mulher mande. Eles querem mandar, e não fazer o que você fala. Se eu sou a capitã, sou responsável pelo barco e pela vida de todo mundo que está nele”.

De fato, levantar a vela, mudar os ferros, ter agilidade de movimento e conseguir fazer um contrapeso bem feito não é trabalho para qualquer um. Cyntia conta que para manter-se em forma faz muito levantamento de peso, corre quatro vezes por semana e está sempre exercitando os músculos da barriga. “Como eu sou muito leve, tenho que usar o meu corpo inteiro. O six pack tem que estar forte”, explica.

O fim da viagem para os Açores também foi desafiador. Cyntia pegou uma infecção alimentar. “A bactéria entrou no meu rim direito e se alojou. Depois, cheio de pus, resolveu sair pela corrente sanguínea. Quase morri no hospital com um choque séptico”. Passou 25 dias recebendo tratamento e drenando o pulmão. Quando finalmente recebeu alta pesava apenas 38 quilos. Ou seja, não podia continuar velejando nessas condições. Demorou três meses para se recuperar, com uma alimentação saudável, exercícios físicos diários e fortalecimento dos músculos.

Outra aventura pela qual passou foi em uma viagem para a Espanha, com velejadores que conhecera nos Açores. Para a preocupação de todos, logo no primeiro dia começou uma tempestade muito forte, que fez com que o piloto automático da embarcação quebrasse.

Foi aí que realmente aprendeu a manobrar um barco. Foram sete dias seguidos sem nenhuma parada, conduzindo a embarcação manualmente no meio de uma tempestade enorme. “Eles largaram o volante comigo, não sabia o que fazer. Veio uma onda enorme, eu tentei virar e o boom (retranca), que se junta no mastro, desceu para a água. Meus companheiros vieram correndo me ajudar”. Teve que aprender na prática e no meio de muita adrenalina. Ficavam revezando a direção a cada duas horas durante todos os dias de trajeto até chegar em La Coruña, na Espanha.

Após 40 anos velejando ao redor do mundo, ainda faltava realizar um grande sonho: comprar o seu próprio veleiro. Entre viagens e seu trabalho como professora, guardava seu dinheiro para juntar a quantia necessária. Foi quando recebeu uma ligação do banco dizendo que ela tinha 300 mil dólares de créditos disponíveis com base em sua propriedade em Brisbane. Caiu como uma luva. Comprou seu veleiro em fevereiro de 2019. Apelidado de Blue Bie, é um catamarã Outremer 43 pés.

E não apenas comprou a embarcação. Aos 60 anos, trocou seu apartamento pelo veleiro. Preso em uma poita, ele conta com duas cabines duplas, dois banheiros, chuveiro, sala e cozinha. “Eu fico sozinha, meu veleiro é minha ilha. E quando quero sair para passear eu levo a minha casa toda”, diz. Todo self sufficient, a água é restrita e a energia, obtida por meio de painéis solares. Quando chove, Cyntia recolhe a água para encher os tanques, que garantem uma capacidade total de 240 litros.

Sua rotina mudou completamente. Quando venta muito, logo de manhã ela precisa levantar o dingue, para que não fique batendo. O mesmo ocorre antes de dormir. O banho é limitado, depende se tem água quente disponível. Caso contrário, ela utiliza o chuveiro da universidade. Para trabalhar, utiliza o dingue.

A maior dificuldade é a manutenção, já que as coisas quebram e, como é um sistema muito complexo com tudo conectado, é preciso sempre consertar, seja o timão, âncora e painel solares ou o encanamento, eletricidade e a correia.

Mas no final do dia, tudo vale à pena. “Para mim, velejar é uma forma de meditação, totalmente afastado de tudo. No mar não tem barulho nenhum. Só eu e os peixes”. E os planos para os próximos destinos, obviamente, são muitos.

 

DICAS QUENTES

Sobre o barco
Próximos projetos

Cyntia pretende fundar uma ONG para ensinar mulheres que sofreram abuso ou violência doméstica a velejar e se tornarem mais independentes e corajosas.

Além disso, ela lançou com outras mulheres que também desbravam o mar, o livro Mulheres Velejando Pelo Mundo. A edição conta com 28 histórias, em português e em francês, sobre as memórias e trajetórias delas.

www.facebook.com/mulheresvelejandopelomundo/

 

 

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