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5 mil anos de história ligada ao vinho. Imagine a ressaca 

Com vinícolas que chegam a ter 200 km de corredores subterrâneos, a Moldávia revela também mosteiros milenares, restaurantes elegantes e um cenário natural fabuloso

POR Natália Manczyk, da moldávia 6 MIN

27 jul

6 Min

5 mil anos de história ligada ao vinho. Imagine a ressaca 

POR Natália Manczyk, da moldávia

	

Caves subterrâneas se estendem por 120 km de corredores guardando vinhos especiais das mais importantes personalidades do mundo. A adega tem dimensões tão grandes que só é percorrida a bordo de um carro. Na mesma região, um milhão e meio de garrafas estão muito bem estocadas em túneis e formam a maior coleção de vinhos do mundo, inclusive registrada no Guinness Book. Essas descrições poderiam ser de adegas subterrâneas da região de Champagne, na França, que embora já tenham até sido usadas como abrigo durante as guerras mundiais, não chegam nem perto em tamanho: têm “só” 20 km. Quando o assunto é vinhos, quem fica com os recordes de grandiosidade é a Moldávia, dona das duas maiores adegas do mundo.

O país é dos mais discretos da Europa. Não faz alarde com seus títulos dignos de deixar os poderosos com inveja, mas o território, entre a Ucrânia e a Romênia, poderia, sim, se gabar mais. Tem cenários grandiosos que combinam montanhas, vales e rios; mosteiros com cerca de 2.000 anos de história, uma das capitais mais arborizadas do continente e restaurantes elegantes tanto de gastronomia local quanto internacional.

Um dos motivos da Moldávia não estar na lista dos países mais lembrados da Europa é que o território é relativamente novo. Foi criado em 1991, a partir da dissolução da antiga União Soviética.

A história da região, no entanto, é antiga e rica, com terras que já integraram o antigo Reino da Moldávia, a Bessarábia, o Império Turco-Otomano e o Império Russo – trajetória que fincou no país construções históricas importantes. O idioma é o romeno, o que facilita a comunicação por ser um dos idiomas latinos. Não é difícil entender placas e cardápios e, embora nos restaurantes mais destacados todos falem inglês, caso queira se comunicar nas ruas, o espanhol e o italiano costumam ser entendidos.

Você aterrissará na capital Chisinau (se pronuncia Kishinóu ou Kishinév), que apesar de ser a maior cidade da Moldávia, tem seus 532 mil habitantes. O ritmo segue como o de cidades com o mesmo número de habitantes, como Florianópolis ou Londrina. Chisinau é arborizada, limpa, tranquila e segura. Jovens se reúnem nos modernos cafés e restaurantes, enquanto senhores e casais passeiam pelas praças e parques que colocam muito verde nessa comedida cidade.

Provavelmente antes mesmo de conhecer a capital, a visita será a uma das extensas vinícolas do país:  a Cricova e a Milestii Mici, a 16 km e a 18 km de Chisinau, respectivamente. Os europeus atravessam fronteiras só para conhecer essas que são as vinícolas com as maiores caves subterrâneas do mundo.

Na Cricova, os corredores de 120 km abaixo da terra são percorridos somente a bordo de carros abertos da própria vinícola, semelhantes àqueles de golfe. E a estrutura para os turistas é tão completa quanto a de vinícolas da Argentina, Uruguai, Chile ou África do Sul. Uma guia acompanha o tour por essa quase cidade dos vinhos subterrânea formada por corredores que chegam a 100 metros abaixo da terra, identificados inclusive por placas tais quais de ruas de cidades – com a diferença de que na Cricova todas as “ruas” remetem a vinhos, como a Cabernet e a Sauvignon.  Os corredores abrigam barris de carvalho húngaros, romenos e italianos; garrafas intermináveis de espumantes ao longo de 7 km, máquinas para engarrafamento, salas de degustação majestosas e até um cinema montado 80 metros abaixo da terra onde um vídeo conta a história da vinícola e do vinho na Moldávia.

A Cricova funcionou como uma mina de calcário desde o século 15 até 1947, quando especialistas em vinho descobriram que as caracteristicas da rocha para circulação de ar são capazes de manter a temperatura constante a 12 ºC e a umidade a 97%, o que são elementos propícios para o envelhecimento do vinho ali. Em 1952, então, o que era uma mina de calcário foi convertida em uma luxuosa vinicola.

Os turistas percorrem 7 km dos 120 km que formam essa vinícola sob as rochas. E um dos trechos mais impactantes são as suntuosas salas de degustação: na Congress Room surpreende uma mesa para 30 pessoas. Na outra sala, o mérito vai para a decoração imitando um barco que remete ao período em que a Europa era parte do fundo do mar. Já a Fireplace Room é indicada para encontros intimistas, enquanto a The Big House recria salas de casas tradicionais moldavas (inclusive com janelas falsas e tapetes, tudo a 50 metros abaixo da terra). Já a última sala, toda majestosa, não à toa é chamada de Presidential Room: é composta por uma mesa com capacidade para 60 pessoas, onde costumam se reunir líderes mundiais com uma acústica perfeita, calculada para que a pessoa de uma ponta consiga ser ouvida pelo convidado da outra ponta da mesa.

Outra área fenomenal é a ala de coleções privadas, que, claro, não tem nada de simples. São corredores e mais corredores subterrâneos que guardam 1 milhão de garrafas de vinhos – especialmente de personalidades do mundo. A coleção mais especial é a do vinho Easter Jerusalem, produzido em só um lote, em 1902.

Com seus 120 km abaixo da terra e vinhos guardados em um total de 80 km, a Cricova é a segunda maior adega do mundo. A recordista é ali perto, a Milestii Mici, com seus 200 km e vinhos guardados por galerias que se espalham ao longo de 55 km a 80 metros de profundidade –  embora também turística, esta não é tão visitada quanto a Cricova. Na Milestii Mici – vinícola que consta no Guiness Book como a maior adega em número de garrafas – é possível percorrer os corredores subterrâneos em carro próprio, bicicleta ou a pé, e, assim como na Cricova, assistir a um filme de apresentação da vinícola e degustar vinhos em salas exuberantes. Os programas de degustação são vários.

O Tezaur, por exemplo, contempla, além da visita, a prova de sete vinhos, um menu com a tradicional placinta (bolo recheado de queijo ou maçã), queijos de ovelha com vegetais, aperitivo de carnes diversas, e como prato principal, porco assado, coelho assado ou carne com ameixas secas, além de sobremesa e duas garrafas de vinho de presente. Tudo por 1400 leis moldavos, ou cerca de 71 euros.

O ponto alto de uma viagem pela Moldávia é o momento dos almoços e jantares. Afinal, o país tem restaurantes elegantes, com pratos de primeira. Não pense que há algo errado quando vir pratos como um tataki de atum ao molho de lentilhas ou um dourado recheado de cogumelos custarem cerca de 10 euros. A moeda na Moldávia vale pouco, o salário mínimo é de 300 euros, e com isso os restaurantes mais caros de Chisinau – elegantes como em qualquer outra parte do mundo ¬–  servem pratos sofisticados a preços módicos.

O La Sarkis é um desses restaurantes e é a chance de provar pratos de gastronomia georgiana e armênia, além da internacional. O menu inclui, por exemplo, confit de pato ao vinho, acompanhado de amoras, noz-moscada e maçã; atum ao molho de pimentas com quinoa e lulas ao molho agridoce. Outras dicas são os restaurantes japoneses Fusion Jeraffe e Esushi, o italiano Il Forno e o wine bar Taste of Blu. Situado no hotel Radisson, é o lugar para provar bons vinhos moldavos trazidos à mesa pelos sommeliers, especialmente os produzidos com a uva local, a feteasca.

A avenida Stefan cel Mare Blvd. é o coração da cidade, e basta uma curta caminhada para ver igrejas, embaixadas e parques pitorescos. É ali o cartão-postal da capital, a catedral ortodoxa Nasterea Domnului, que pode parecer simpes por fora, mas por dentro impressiona com a riqueza dos afrescos. A quatro pequenas quadras da avenida, você se depara com o Museu Nacional de Etnografia e História Natural, que ocupa um imponente edifício que, erguido em 1903, já chegou a ser um centro cultural do Império Russo. Fazem parte da coleção achados arqueológicos, esqueletos, carpetes da região produzidos desde o século 13, entre outros artigos. Mais duas quadras e poucos passos, você vai topar com um espaço verde que pode parecer infinito. É o parque Dendrarium, com cerca de 1000 espécies de árvores, uma romântica coleção de rosas e um cenário completado por jardins muito bem decorados e um calmo lago, pontuado de branco pelos cisnes e patos.

Outro dos pontos fenomenais da Moldávia é Orheiul Vechi (“antiga Orhei), um complexo a cerca de 50 km de Chisinau com mosteiros, achados arqueológicos e vilas antigas espalhados no alto de um vale ao longo do rio Raut.

Depois de algumas curvas pela estrada, o visual que se descortina é de rochas altíssimas margeando as águas do rio pontuadas por cúpulas de mosteiros. Em meio àquele silêncio natural, quebrado só pelo som das águas, emergem ruínas de 2.000 anos da era das invasões mongóis na região e a igreja ortodoxa dedicada à ascenção de Maria. Mas nada é mais curioso que um mosteiro montado literalmente dentro de uma rocha no alto da falésia.

É marcado apenas por um sino e uma cruz dispostos no alto da pedra, e, basta descer alguns degraus, para encontrar altares, tapetes, mesas e velas, tudo dentro da caverna. É habitada inclusive por um monge, um senhor de barbas brancas e capa preta, que, sempre em silêncio, deixa os visitantes entrarem naquela sagrada moradia. Ele resolveu viver como os antigos monges, que habitaram a rocha também do século 13 ao século 18.

Não se acanhe e caminhe pelos arredores do monastério. Você vai encontrar vilas de casas de pedras, que estão lá apenas para lembrar como vivia a população nos anos de 1900 e restaurantes típicos graciosos. Um conjunto que gera duas sensações: a de se estar em um cenário do filme Um Violinista no Telhado e o discreto privilégio de pisar em atrações quase secretas na Moldávia.

DICAS QUENTES

Como ir

Não há voos diretos do Brasil a Chisinau. O aeroporto internacional, a 13 km do centro da capital, recebe voos de companhias como a Lufthansa (rotas a partir de Frankfurt); Turkish Airlines (que opera voos desde Istambul), Austrian Airlines (desde Viena) e Air Moldova, companhia moldava que opera a partir das principais cidades europeias, como Berlin, Dublin, Lisboa, Londres e Roma, além de São Petersburgo e Tel Aviv.

Documentação e Moeda

Brasileiros não precisam de visto para visitar a Moldávia.

A moeda é o leu moldavo, e MDL 1 equivale a US$ 0,05.

Não há grandes problemas de segurança na Moldávia, mas muitas ruas são escuras. É essencial rodar com um guia ou em tours, especialmente para chegar às atrações e receber informações e curiosidades do país pouco conhecido.

Quando ir

Evite o inverno, quando a temperatura média é de -1.5 °C , mas pode chegar a -10 °C.  Se quiser ver as parreiras carregadas de uvas, o ideal é ir à Moldávia durante o outono.

Onde ficar

Chisinau

Nobil Luxury Boutique Hotel: o piso de mármore, os lustres de cristal, os tapetes sofisticados e a decoração clássica fazem desse cinco estrelas um dos mais luxuosos hotéis do país. Para relaxar, a dica é ir ao Nobil Spa ou ao restaurante que revela uma bela vista. nobil.md

Radisson Blu Leogrand Hotel: com quartos grandes, restaurante elegante com vista panorâmica, academia com sauna e ótima localização, o hotel é garantia de conforto. radissonhotels.com

Berd’s Design Hotel: a atenção aos detalhes é o grande diferencial desse cinco estrelas, que tem decoração personalizada em cada quarto, restaurante italiano e centro de bem-estar com spa e cabelereiro. berdshotel.com

ONDE COMER

A gastronomia é ponto alto da viagem, já que restaurantes refinados estão espalhados por toda a capital. Há ótimas casas com menus italianos, japoneses, caucasianos, e, claro, moldavos. A comida moldava é uma influência das gastronomias da Romênia, Ucrânia, Rússia, Grécia, Polônia e otomana. O prato mais tradicional é a mamaliga, polenta geralmente acompanhada de sour cream, queijo cottage e carne de porco. Também costumam ser servidos nos restaurantes a sopa de beterraba borscht, sopa de frango, bolo de carne e a placinta, bolo geralmente recheado de queijo ou maçãs.

QUEM LEVA

Pacotes para a Moldávia são raros. A operadora Transeuropa oferece um roteiro com duas noites em Chisinau, incluindo também Frankfurt; cidades da Ucrânia e Minsk, na Bielorússia. Mais informações:  transeuropa.com.br

* Natália Manczyk é jornalista de viagem há 13 anos. Já percorreu mais de 60 países e atualmente vive em Berlim, na Alemanha. Para seguir suas viagens: portadeembarque.com.br ou @Portadeembarque

 

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