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Turismo responsável

Um guia para transformar a sua experiência durante uma viagem

POR Por Alex Fisberg e Mari Brunini 7 MIN

30 jan

7 Min

Turismo responsável

POR Por Alex Fisberg e Mari Brunini

	

Viajar e conhecer diferentes culturas parece estar escrito, de alguma forma, em nosso DNA. Saímos ao redor do globo em busca de aventuras e experiências marcantes que enriqueçam nosso espírito e nos tornem mais felizes. Mas, se é comum pensarmos em como uma viagem pode mudar a nossa vida, por outro lado, quantas vezes refletimos sobre o nosso impacto nos locais que visitamos? Como garantir que um local permaneça autêntico e atraente em sua essência, ao mesmo tempo em que promova o desenvolvimento local genuíno?
Tais questionamentos fazem parte de tendências crescentes em todo mundo como Slow Living, Small is Beautiful e Lowsumerism. A vanguarda no campo do turismo é o chamado “Turismo Regenerativo”, que considera o sustentável insuficiente e propõe um envolvimento maior, no sentido de voltarmos a ser parte da natureza e a evoluir com ela. Este conceito é sustentado por um tripé que aborda a nossa relação com a natureza, com o outro e com nós mesmos.

Alex Fisberg e Mariana Brunini fizeram exclusivamente para o site da TOP, um guia para um turismo mais responsável, vem conferir!
1)     Procure experiências autênticas
Vamos combinar: nem você nem o lugar que você visita querem ser enganados, né?
Quando viajamos, temos que tentar buscar experiências genuínas que contribuam
para o nosso entendimento a respeito de onde estamos chegando, em que tipo de
vivência estamos nos envolvendo e quem são as pessoas que estão nos mostrando o
lugar.
2)     Informe-se muito bem – antes, durante e depois – sobre o lugar que
você visita
Além do básico, é importante conhecer o contexto político, as condições de vida da
população – na baixa e na alta temporada – e garantir que sua presença como turista
sirva para contribuir com  quem vive na região, e não para ampliar as desigualdades
sociais.
3)     Esteja integralmente com seus 5 sentidos
Viajar é estar conectado não só às belezas visíveis, mas aberto aos sons e odores, ao
contato direto com artesanato e outras produções locais e, claro, com o paladar
aguçado para provar os temperos de cada experiência.
4)     Conecte-se – valorize a cultura local por meio de ações concretas
Seja participando de atividades culturais, como apresentações de música e teatro,
como indo a fundo para conhecer a cultura local, o importante é demonstrar com
ações práticas esse apreço. Se algo agradou, reconheça o trabalho, seja
financeiramente e/ou por meio de elogios e boas conversas.
5) Tenha consciência do seu impacto – seja com relação ao que você vai
consumir, seja com relação a sua presença no local, reflita se o som que você está
ouvindo não está incomodando o habitat dos animais da região, compre e valorize
produtos locais que enriqueçam a sua experiência.

6)     Reflita não só sobre o que traz de volta, mas o que você deixa como
rastro por onde passa – Uma ou mais garrafinhas de água por dia, produtos
de higiene pessoal, protetor solar, lâmina de barbear, salgadinhos e afins.
Lembre-se do tipo de embalagem que você introduz em um destino e procure
se informar sobre a capacidade de reciclagem e descarte destes materiais no
local. Muitas vezes os destinos não têm programa de coleta seletiva ou mesmo
tratamento de água. Por isso, sempre que puder opte por produtos
biodegradáveis e sem embalagens e caso não seja possível garanta que será
reciclado ou leve de volta com você para descartar adequadamente.
7)     Influencie positivamente a todos com quem tiver contato – Você também
tem muito para oferecer, seja a melhor versão de si mesmo em todas as
interações possíveis e ofereça oportunidades de troca e aprendizado com
todos ao seu redor.

8)     Use seu poder de influência para exigir práticas que promovam um
ambiente melhor – Procure se informar e batalhe para que os estabelecimentos e
fornecedores sigam excelentes padrões de conduta com funcionários, clientes e a
comunidade local.


Mais algumas dicas:
– Faça muitas perguntas e venha com abertura para boas trocas.
– Procure entender o contexto das vivências e abrace as adversidades com empatia,
em geral em alguns lugares a noção de tempo é diferenciada, aproveite para
desacelerar e entrar no ritmo local.
– Tenha em mente o respeito às demandas e oportunidades locais.
– Procure se conectar emocionalmente com lugares e pessoas.
– As pessoas no geral gostam de compartilhar suas histórias e cultura – esteja com
interesses genuínos.
– Procure negociações justas.
– Se gosta de fotografar, chegue com calma, peça permissão antes.
Turismo responsável – também conhecido como sustentável ou consciente – é um
conjunto de princípios que valorizam um estilo de viajar que minimize os impactos
negativos e maximize o potencial de colaborar com o desenvolvimento positivo dos
destinos, a população e economia local. A turismóloga Marianne Costa é fundadora da
empresa Vivejar e acredita na necessidade das empresas de turismo agirem de
maneira coerente – interna e externamente – para garantir uma relação de ganho entre
todos os envolvidos em uma experiência de viagem com potencial de transformação.
Integrante do coletivo Muda!, que une empresas de turismo com o objetivo de
fomentar o turismo responsável no Brasil, a turismóloga ressalta a importância da
troca entre os principais atores envolvidos com o turismo para garantir uma
abordagem de melhoria contínua em todos os aspectos de uma viagem.
Turismo de Base Comunitária – nesta forma de organizar o turismo de uma região, a
comunidade local é protagonista e co-criadora da experiência junto ao turista,
garantindo não só uma vivência genuína para o visitante, como um real ganho para a
comunidade. As atividades são desenhadas com o objetivo de compartilhar o que há
de melhor e mais relevante no destino, mas também de garantir uma distribuição de
tarefas e renda que beneficie a comunidade como um todo.
Segundo documento redigido em 2002, durante uma conferência de turismo
responsável promovido pela WTM em Cape Town, o turismo responsável:
– minimiza impactos econômicos, ambientais e sociais negativos.
– gera maiores benefícios econômicos para a população local e aumenta o bem-
estar das comunidades anfitriãs.
– melhora as condições de trabalho e o acesso ao setor.
– envolve pessoas locais em decisões que afetam suas vidas e chances de vida.
– faz contribuições positivas para a conservação do patrimônio natural e cultural,
abrangendo a diversidade.
– proporciona experiências mais agradáveis ​​para os turistas através de conexões
significativas com a população local e uma maior compreensão das questões
culturais, sociais e ambientais locais.
– fornece acesso para pessoas com deficiências físicas.
– é culturalmente sensível, incentiva o respeito entre turistas e anfitriões e
constrói orgulho e confiança locais.

Para saber mais:
Global Sustainable Tourism Council  – https://www.gstcouncil.org/
WTM Responsible Tourim – http://responsibletourism.wtm.com/
Exemplos de locais que sofreram consequências negativas a partir do Turismo
Ilhas das couves – Ubatuba
No litoral norte de São Paulo, a minúscula Ilha das Couves é composta por apenas
duas faixas de areia, a praia da Terra e a praia de Fora (conhecida também por
Japonês), com respectivamente, 100 metros e 250 metros de extensão. Mesmo assim,
vinha recebendo em torno de 5.000 turistas por fim de semana, segundo a prefeitura.
Com caixas de som, térmicas e coolers, toalhas, esteiras, fraldas descartáveis usadas
e muito lixo, o cenário antes deserto se transformou por completo. Uma força-tarefa
entre o Ministério Público Federal, Prefeitura de Ubatuba, Ibama, Parque Estadual da
Serra do Mar e APA Marinha está realizando estudos técnicos de capacidade e
suporte de visitação diária para recuperar e conservar a região.
Ilha do filme a praia
A paradisíaca praia de Maya Bay, famosa por ter sido retratada no filme “A Praia”, com
o Leonardo diCaprio foi fechada em junho de 2018 para visitação de turistas. A
manobra, prevista para durar pelo menos quatro meses, tem como objetivo recuperar
o ecossistema da região, esgotado pela intensa presença de pessoas, embarcações e
descarte de lixo na praia. A Tailândia recebeu no último ano 35 milhões de turistas, e
Maya Bay, na ilha de Koh Phi Phi Leh, quando for reaberta poderá receber apenas
dois mil turistas por dia, metade da frequência atual.
Exemplos de locais que conseguiram ter consequência positivas a partir do Turismo
Zero Kovalam Waste, na Índia
Em uma geração, Kovalam se transformou de tranquila vila de pescadores em um
concorrido destino de férias de turistas ocidentais, o que levou a uma explosão de
dejetos descartados. Preocupados, os moradores buscaram soluções diferentes de
incinerar os dejetos, que faz um estrago ainda maior ao meio ambiente. Assim, nasceu
a Zero Waste Kovalam. Foram instaladas estações de tratamento de água para que as
pessoas possam reabastecer sem ter de consumir novas garrafas de plástico,
moradores foram treinados para produzir sacolas de alfaiataria de baixo custo para
substituir as de plástico e os turistas receberam orientação em relação às questões da
poluição na praia. O fundador da iniciativa, Jayakumar Chelaton, tem orgulho de
mostrar como o tema do lixo acabou interligando de modo visível e pragmático
questões mais amplas, como governança, saúde ambiental e justiça econômica na
região.

Fotos: Alex Fisberg e Mari Brunini

 

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