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20 out

Sem cara nem coroa

JÁ OUVIU FALAR EM BITCOINS? CONHEÇA AS MOEDAS DIGITAIS QUE CHEGARAM PARA REVOLUCIONAR O SISTEMA FINANCEIRO

POR Kike Martins da Costa 3 MIN

20 out

3 Min

Sem cara nem coroa

POR Kike Martins da Costa

	

O mundo acelerou a velocidade de suas mudanças. Primeiro, a forma como consumíamos música passou por uma verdadeira revolução. O mesmo está acontecendo com a TV. Táxis se tornam espécies ameaçadas de extinção e muitas lojas estão fechando suas portas por causa do comércio eletrônico. Agora essas transformações também começam a mexer no sistema financeiro, e a inovação não deve ficar restrita aos operadores do mercado e aos economistas. Pelo andar da carruagem – a ou melhor, do carro elétrico –, todo mundo vai ter seu cotidiano afetado pela chegada das moedas virtuais.
Até o momento, porém, pouca gente está nesse barco. Ainda é difícil assimilar a riqueza como algo impalpável, abstrato, sem um lastro em um bem e sem o controle de uma entidade como um Banco Central. Pois é justamente isso o que os bitcoins e seus similares são: dinheiro com a mesma utilidade do real ou do dólar, mas puramente digital. Não existem de forma física, material, e não são emitidos por nenhum governo. Por fim, têm aceitação mais restrita, e seus valores são determinados livremente pela oferta e pela demanda.
O bitcoin é a mais popular dessas moedas criptografadas, e recentemente ganhou notoriedade por sua incrível valorização. Desde a primeira transação com bitcoin de que se tem notícia, realizada em 2010, ela já subiu mais de 100.000.000%. Exemplo perfeito disso é o caso do norte-americano Erick Finman, que, aos 12 anos, ganhou US$ 1.000 de sua avó e investiu toda essa grana em bitcoins, seguindo a dica de seu irmão mais velho. Hoje, prestes a completar 18 anos, ele já é um milionário e nem pensa em cursar uma universidade.


Mas todo mundo pode ter essa lucratividade? Laércio Cosentino, fundador e CEO da Totvs, faz um alerta importante: “É preciso ter em mente que o bitcoin ainda é uma tecnologia em nível recente de maturação e adoção, por isso é capaz que ainda aconteça muita variação e que seja difícil antecipar as razões dessa volatilidade. Caso tenha algum dinheiro guardado e que não fará falta em um curto período de tempo, e você queira conhecer como funciona a cryptocurrency, saiba que pode comprar frações da moeda e que, como em todo investimento de alto risco, pode perder dinheiro”.
“Antes de usar, comprar ou investir em bitcoins, entenda melhor como funciona, investigue os riscos e aprenda as formas seguras de armazenamento. É fundamental saber como realizar os back ups das chaves privadas. Não invista um centavo antes de ultrapassar essas etapas”, avisa o economista Fernando Ulrich, um dos maiores estudiosos sobre moedas virtuais do Brasil.

 
Bolhas, pirâmides e foguetes
O bitcoin “nasceu” em 2008, criado por uma pessoa misteriosa que se identifica como Satoshi Nakamoto. Na época, para comprar uma pizza, eram necessários 10 mil bitcoins. Em 2012, cada moeda digital já valia US$ 5. No mês passado, sua cotação chegou a US$ 4.800, e alguns especialistas dizem que pode chegar a US$ 8.000 ou até um pouco mais. A monero, moeda lançada em 2014, teve este ano uma valorização de mais de 50% em apenas uma semana. Oba! E quando isso vai acontecer de novo? Infelizmente ninguém sabe antever.
Mas há também aqueles que enxergam nessas valorizações meteóricas uma “bolha” ou uma “pirâmide” que pode se desmantelar. “Não podemos comparar. Essas moedas se valorizam pelo princípio da oferta e demanda. Hoje os bitcoins em circulação representam US$ 71 bilhões, e os ethereuns, mais uns outros US$ 27 bi. Existe o risco de implosão desses negócios? Sim, assim como em qualquer outro. Imagina se todas as pessoas resolvessem retirar o dinheiro dos bancos – o que aconteceria com as finanças mundiais? Ainda que exista muita volatilidade nas moedas digitais, não acredito que deva acontecer uma evasão de US$ 71 bilhões assim, de uma hora para outra, nem de US$ 27 bi”, opina Cosentino.
Já Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, vê de outra forma o futuro dessa ascensão louca dos bitcoins e similares. “O motivo pelo qual acho que não vale a pena comprar moedas virtuais agora não é porque não acredito nelas. É justamente o contrário. É que esse tipo de tecnologia está se tornando parte da infraestrutura da economia global. Em outras palavras, está no processo de virar ‘commodity’. Um outro passo nesse processo de ‘comodificação’ das moedas virtuais é a concorrência. Bancos centrais de diversos países estão estudando lançar suas próprias criptomoedas – com a vantagem de possuir um mínimo de lastro na economia daquele país, coisa que o bitcoin não tem”, avalia.
De fato, as grandes instituições financeiras têm por costume aguardar para entender e ter certeza de que o modelo funciona, antes de fazerem algo que possa ser uma ameaça ao seu negócio. Foi assim que agiram com várias “fintechs” – start ups que lançaram serviços inovadores e, depois de se mostrarem viáveis, foram compradas ou imitadas pelos bancos.

 
Usos e costumes
A dinâmica da criação e do funcionamento dos bitcoins é muito complexa e difícil de ser explicada, mas nem por isso você precisa se sentir excluído. Eu não entendo de mecânica e não sei como o motor do meu carro faz ele andar, mas nem por isso tenho medo de dirigir. O mesmo acontece com a minha televisão: como é que alguém consegue fazer tantos canais chegarem até aqui em casa por meio desse pequeno fio ou via satélite? Não me interessa, o que eu quero é sintonizar no meu programa predileto e relaxar.
Para usar o bitcoin, o mais é importante é saber do que ele é capaz e como fazer para operacionalizar isso. Sua função primordial é, como as moedas tradicionais, servir como meio de pagamento. “No Brasil, uma incorporadora começou recentemente a aceitar bitcoins como forma de pagamento para seus imóveis e, no Japão, acaba de ser reconhecido como moeda e já é usado em vários segmentos. Estes são apenas alguns exemplos e, como eles, temos muitos outros casos que demonstram o aumento de confiança das pessoas sobre as moedas virtuais. É exatamente assim que a força de uma economia é construída: quanto mais confiança, maior o valor”, observa Cosentino.


“As moedas digitais devem ser vistas não como um fim em si mesmo ou um investimento como outros tantos, mas como um meio, capaz de multiplicar a inovação em inúmeras atividades econômicas reais. É aí que mora o dinheiro”, atenta Ronaldo Lemos, que acredita que elas podem viabilizar muitos negócios na web, sem a intermediação de bancos e outras instituições financeiras.
Com essas moedas transnacionais, é possível pagar salários de funcionários que estão prestando serviços no exterior, adquirir produtos online, fazer transferências de dinheiro com menos burocracia e muito mais. O chato é que essas virtudes das moedas criptografadas também podem facilitar o trabalho de criminosos. Em abril passado, uma mulher foi sequestrada em Florianópolis e os autores do crime exigiram que o resgate fosse pago em bitcoins! Isso porque, diferentemente de uma conta bancária, os endereços das carteiras de bitcoins não são necessariamente ligados à identidade dos usuários. Qualquer pessoa pode criar um endereço de bitcoin novo e as chaves privadas associadas a ele a qualquer momento, sem a necessidade do registro e o fornecimento de informações pessoais. Por esse mesmo motivo, é preciso redobrar a segurança no equipamento onde você mantém a sua conta – ou e-wallet. Se você bobear, ela pode ser invadida por hackers, e o resultado dessa visitinha indesejável será uma “limpeza” completa no seu estoque de moedas digitais e chaves privadas.
Todas transações feitas com bitcoins são registradas no blockchain (também conhecido como “protocolo da confiança”), que é uma tecnologia que visa a descentralização como medida de segurança. São bases de dados distribuídos e compartilhados que possuem a função de gerar uma rede ultrassegura na comunicação direta entre duas partes, ou seja, sem o intermédio de terceiros. O blockchain é visto como a principal inovação tecnológica do bitcoin, e seu projeto original tem servido de inspiração para o surgimento de novas criptomoedas e de bancos de dados distribuídos.
Enfim, não resta dúvida de que as moedas virtuais têm um grande futuro pela frente – seja de maneira independente ou ligadas a instituições financeiras tradicionais. Só é importante ficar esperto e nunca esquecer da volatilidade das coisas no universo digital. Lembram-se do Second Life, que já foi valorizadíssimo e hoje jaz na mesma vala do Orkut? E o Snapchat, que disse “não” quando recebeu uma proposta de compra de US$ 3 bilhões do Facebook e hoje não deve valer nem um centésimo desse valor! Ok, essas redes sociais não são produtos financeiros como as moedas digitais, mas são um exemplo dessa surreal alavancagem das iniciativas no mundo online e das constantes mudanças que ocorrem nesse ambiente.
O importante é saber a hora de entrar e entender muito bem onde está se metendo ao negociar com moedas criptografadas. Se não, você corre o sério risco de ser roubado por um hacker malandro ou de achar que está rico quando, na verdade, só terá em mãos algo que vale tanto quanto um maço de notas daquele dinheirinho de brinquedo do “Banco Imobiliário”.

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