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22 set

Selton Mello

Confira a entrevista feita pela atriz Carolina Dieckmann

POR Carolina Dieckmann 2 MIN

22 set

2 Min

Selton Mello

POR Carolina Dieckmann

	

Prazer, Selton Mello. Eu tinha 14 anos quando a gente se conheceu. Uma menina de olhos vidrados no cara da TV. Aquela voz inconfundível dos filmes dublados da Sessão da Tarde, os cachinhos desarrumados e os olhos castanhos de uma doçura desconcertante. Lindo. E dos melhores, tenho que dizer. Só que para ser tanto, não basta ter todo o talento, a entrega, o estudo e a experiência… Precisa olhar nos olhos, ser generoso e parceiro para fazer jus ao significado. Selton é raro, do verbo especial. E mudou pouco de lá até aqui, quase nada. Nosso set foi sempre feliz, em 1994, e agora, no comecinho do ano. Somos parecidos na alma velha, no paladar infantil, no sono depois do almoço. Gostamos de cantar, de dançar, de rir e também de decorar texto e ser responsável. E de bater papo. Disso gostamos muito, aliás. Por isso fiquei feliz por estar aqui, nesta conversa que poderia ser num camarim, mas que você pode ler a seguir. Prazer, Carolina.

Depois de um tempão, voltamos a trabalhar juntos. E acho que estamos bem melhores agora, concorda? O que o tempo te trouxe de melhor e de pior?
Querida Carol, comilona tipo o Pac Man e magra porque a lombriga é bem criada, para começo de conversa, baita prazer ter você como minha entrevistadora. Prazer duplo pelo nosso reencontro em cena depois de 20 anos de Tropicaliente (novela de 1994), na minissérie 13 Dias Longe do Sol, que estreia em breve na Globo. Olha, definitivamente melhoramos sim nesse período. (Risos.) O tempo é generoso, traz maturidade, autoconhecimento e também dores na lombar e nos joelhos. Mas é gentil com quem é gentil com ele. Procuro me cuidar e de quem eu amo, ser atento com minha família, meus amigos, e não comer tanto chocolate. Escolho trabalhar em coisas inspiradoras, que me levem além e me façam crescer não apenas como artista, mas como ser humano. Neste breve espaço entre o berço e a cova, a boa é fazer o que te faz vibrar, o que te dá brilho nos olhos. É o que tenho feito. E pretendo seguir nesses trilhos que têm me levado por um caminho bonito.

Você, assim como eu, começou a trabalhar muito cedo. Já sentiu vontade de jogar tudo para o alto, alguma vez? Quando sentiu isso? O que pensou em fazer?
Mas, gente, penso nisso toda hora! Neste momento em que respondo esta entrevista pensei em usar a oportunidade, me despedir e partir para o meio do mato e cuidar de plantar batatas. Mas algo me coloca para a frente, que não sei medir. Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha no ar. Por isso é que eu canto, não posso parar. Por isso essa voz tamanha! Chega uma hora na vida de quem trabalha com arte que a obra ganha do criador. Tem gente que é tocada pelo que faço, e essas pessoas merecem que eu continue. Ok, é pouca gente, mas estou de olho nelas, faço por elas. Muito do fato de continuar vem disso, é como se fosse uma missão que não tenho o direito de interromper.
E pelos meus pais, maiores incentivadores e primeiros espectadores de tudo que faço, é por eles que também sigo em frente. Mas vontade de mudar o rumo da prosa tenho toda hora, dúvidas sobre tudo isso tenho o tempo todo. Só que tento usar isso para me impulsionar, não para permanecer estagnado. Cuido a cada momento para não ficar estéril artisticamente, procuro sempre viver grávido de ideias.

Não vou te perguntar se prefere dirigir ou atuar porque não posso estrear como entrevistadora sendo tão óbvia… Mas, por acaso, uma coisa influencia a outra? Depois que você virou diretor, ficou mais fácil ou mais difícil atuar?
As duas coisas me trazem prazeres distintos e complementares. Não sou mais o mesmo ator depois que entendi como funciona atrás das câmeras. Não fiquei melhor ou pior, mas diferente. Atuo há 35 anos, e isso é algo leve para mim. Procuro manter o olhar lúdico da infância. Quando era menino, atuar era brincar de ser alguém, e isso é a base mais correta sobre a profissão, atuar é brincar. Dirigir é um baita trampo, duzentas mil coisas para cuidar. Mas como tenho uma mente hiperativa é excelente, porque ocupo meu tempo pensando em coisas criativas. Meu novo longa, O Filme da Minha Vida, que estreou em agosto, foi uma das coisas mais lindas que tive a chance de realizar. O público que se encantou com O Palhaço (2011) vai igualmente se identificar com essa história de um jovem se tornando adulto, com uma narrativa terna e cheia de lirismo. O constante balanço entre ator e diretor, e o meu termômetro é o tesão. Se estou sem estímulo como ator me meto logo a dirigir para explorar minha potência criativa. E quando dirijo demais fico com uma baita saudade de voltar a atuar. Esse exercício constante de saltar para a frente e para trás das câmeras tem sido muito instigante nos últimos anos da minha vida.

 

Depois de tantos anos de carreira, você já sabe se gosta mais de fazer drama ou comédia? E de assistir?
Gosto de variar. Sempre tentei encontrar esse balanço também nas minhas escolhas como ator. Sou liso, não deixo nenhum rótulo grudar em mim (risos). Então mixei O Cheiro do Ralo com Os Maias, Lisbela e o Prisioneiro com Jean Charles. Assim estou sempre tentando exercitar a elasticidade de minhas possibilidades como intérprete, que não são muitas. Aliás, se você quer saber, me acho um ator bem limitado, mas minhas escolhas ajudam a disfarçar essa falta de grandes capacidades. Portanto, me acho melhor administrador do que ator. Assim que descobrirem isso será a hora do projeto de plantar batatas. Enquanto não sou descoberto, vou trabalhando com afinco. Quando estou em cena, meu compromisso é com a humanidade desses papéis. O que não me falta é sensibilidade, e isso eu levo para tudo que faço. Como espectador gosto de tudo, quer dizer, quase tudo. Sou grilado com filme de terror, pode dar pesadelo (risos). Adoro drama, as séries todas, os clássicos, os grandes comediantes como Peter Sellers, Jerry Lewis e, mais recentemente, o Ben Stiller. Sou do tipo que vê um filme por causa de um ator ou diretor. Sean Penn sempre tem minha atenção, além de Woody Allen, De Niro, Mastroianni e, aqui no Brasil, os grandes atores do cinema, Paulo José e José Dumont.

Fazer cinema é muito diferente de fazer TV? Consegue sentir o mesmo prazer nos dois sets? De qual você consegue ficar mais tempo longe sem sentir tanta saudade?
É parecido no fazer, mas é diferente pra quem vê. A TV é um utensílio doméstico, e não vai aí nenhum demérito. Você está ali atuando e a pessoa está vendo ao mesmo tempo em que passa uma roupa ou fala ao telefone. Um filme exige uma atenção maior do espectador: ele sai de casa para ver numa sala escura e, por isso, presta mais atenção no que você faz. Mesmo em casa, com tantos novos suportes, você tem o prazer de parar para ver um filme, uma série, com uma atenção mais acentuada. Por outro lado, não temos uma indústria de cinema, enquanto na TV somos um dos maiores produtores do mundo. Então o treino diário na televisão, o poder errar e arriscar é algo fascinante, e foi minha grande escola. Em uma novela, por exemplo, você pode começar de um jeito, ao longo do trabalho ir testando outras coisas e terminar de outra forma que ninguém vai perceber claramente. Não tenho tanta saudade de nenhum veículo porque trabalho bastante. E quando não estou realizando alguma atividade, gosto mesmo é de ficar em casa, descansando, bem preguiçoso, lendo, vendo filmes e séries. E isso alimenta na mesma medida que me entretém. A real é que trabalho loucamente, e não acredito em sorte. É o tal negócio: “Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”.

Como é ser o sonho de consumo de todo mundo que faz cinema no Brasil? Quem são os seus?
(Risos.) Ah, eu sou? Não me venha com esse tipo de afirmativa, sua chocólatra anônima. Adoraria trabalhar com Walter Salles, Fernando Meirelles, Fernanda Montenegro. Sou fã da Maeve Jinkings, Wagner Moura, Irandhir Santos, Tatá Werneck e Gabriel Leone, espero fazer alguma coisa com eles em algum momento. Rodrigo Santoro, meu melhor amigo, o maior cavalheiro desse meio artístico, também é um cara com quem pretendo juntar forças em breve.

Você sempre foi e é um dos atores mais reservados que eu conheço. Precisa de muito esforço para se manter assim?
Esforço nenhum. Ser low profile é moleza para mim. Mineiro, né? Não me interesso pela exposição gratuita e nem acho que devo ter opinião sobre tudo. Entendo um pouco do que faço, não sou especialista nem em mim mesmo. Então, o recolhimento é saudável, e deixo que meu trabalho, na maior parte das vezes, fale por mim.

Ultimamente, a realidade tem dado um banho na ficção, né? Você acha que a crise política, que mexe tanto com a moral do país, pode deixar o telespectador mais careta? Isso interfere diretamente no que as pessoas querem assistir?
A vida como ela é está mais estranha do que a ficção. O véu da roubalheira generalizada foi levantado e não seremos mais os mesmos. Vivemos a era da constatação da legalização da ilegalidade. Um pavor constante ver o quanto se rouba, enquanto a saúde, a educação e os direitos básicos agonizam em praça pública. Nunca me interessei por nenhum viés partidário, não me sinto representado por nenhuma ideologia política. Quero que tudo se ajeite, que todos, sem exceção, paguem por depenarem o patrimônio público. Uma reforma geral deveria ser feita urgentemente. Não vejo no horizonte pessoas capazes de mudar o estado das coisas, mas temos que ter esperança. Talvez isso tudo sirva para brotar novos pensamentos, mais nobres, mais humanos, e com isso novas pessoas comprometidas com a população, e não com o próprio bolso. Não sei se o espectador vai encaretar, na verdade acho que pode se dar o oposto e as pessoas ficarem mais sensíveis para tudo, não apenas nas artes. Uma nação cansada é o que temos no momento, mas disso tudo pode surgir uma nova era, mais luminosa.

Um livro, um filme e uma série. Pode ser preferido ou do momento.
Um livro: Um Pai de Cinema, de Antonio Skármeta, que inspirou meu novo longa metragem O Filme da Minha Vida.
Um filme: Paris, Texas do Win Wenders, porque acho o filme mais lindo já realizado.
Uma série: The Crown da Netflix, os bastidores da realeza, personagens humanos e cativantes.

Você teria mais vontade ou curiosidade de trabalhar fora do Brasil? Já recebeu propostas?
Tenho vontade sim, já recebi convites, mas não pude fazer ou não eram coisas inspiradoras. Tenho agente nos Estados Unidos, fiz o filme Soundtrack, em inglês, e a série que estou filmando com José Padilha para a Netflix pode ser legal para isso, mas não deixaria toda uma vida estabelecida aqui para começar do zero. Se algo que eu fizer no Brasil reverberar lá fora e surgirem convites, daí poderia ser bacana.

Consegue citar os trabalhos que não podem faltar na lista dos que mais te encheram de orgulho? Vale na atuação e na direção. Claro, citar e explicar o motivo da escolha.
Putz, são todos filhotes queridos. Mas vou tentar: Chicó de O Auto da Compadecida, pela enorme força popular. A obra magistral de Ariano Suassuna encontrou nas mãos de Guel Arraes o diretor ideal, e fizemos um marco no audiovisual. Mais de 20 anos se passaram e até hoje sou abordado com um sorriso no rosto por espectadores muito distintos e todos apaixonados por esse trabalho. Entramos nos corações dos brasileiros para sempre. André de Lavoura Arcaica, baseado na obra-prima de Raduan Nassar. Luiz Fernando Carvalho fez um filme lindo, poderoso, e ali compreendi a dimensão da minha profissão e tomei as rédeas do meu destino nas artes. Sessão de Terapia, que dirigi pessoalmente os 115 episódios de três temporadas, e digo que foi meu magistrado atrás das câmeras. O Palhaço, um êxito gigante com um filme sensível, que conseguimos a raridade de agradar público e crítica, algo popular e refinado, um orgulho danado desse trabalho. João Estrella de Meu Nome não é Johnny, um baita sucesso, dirigido por Mauro Lima, um personagem que o público ama até hoje. Mas ficaram de fora coisas valiosas como Ligações Perigosas, que considero meu melhor trabalho na TV.

Acho que desde que a gente se conhece você mora sozinho. Não tem vontade de ter alguém te esperando, quando chega em casa? Tipo o gato que eu quero te dar, por exemplo?
(Risos.) Tô pensando ainda no gato! É lindo o que me mostrou, mas não paro em casa, e esse felino vai ficar aqui sozinho? Como é que eu faço com esse gato, Brasil? Não temo a solidão, sou amigo dela, me alimento de suas possibilidades. É uma escolha, e não tá ruim, não. Portanto, sobre o fato de sentir falta de alguém me esperando em casa, eu jamais responderia essa pergunta com outra pergunta. Mas era necessário terminar a entrevista assim, Carol? Isso faz diferença? Aceita mais um pastelzinho? Sua água é com gás ou sem gás? Respondi a pergunta?

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