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Profissão Waldemar Niclevicz

Após colocar o Brasil no topo do mundo, duas vezes no Monte Everest e nas montanhas dos Sete Cumes, além do temível K2, o mais célebre alpinista brasileiro comemora 30 anos de carreira preparando-se para escalar 82 montanhas nos Alpes em apenas 120

POR Simone Blanes 5 MIN

17 ago

5 Min

Profissão Waldemar Niclevicz

POR Simone Blanes

	

“Eu aprendi que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorre quando você está escalando-a”. A frase é de William Shakespeare, mas poderia ser de Waldemar Niclevicz, que diferente do famoso dramaturgo inglês, sabe exatamente o que isso significa. Nascido no Paraná, ele é o mais importante alpinista brasileiro de todos os tempos, pioneiro em desafios tais como as escaladas do Monte Everest – a maior montanha da Terra, com 8.848 metros acima do nível do mar, em que chegou duas vezes, pelo Tibete e Nepal -, do K2, no Paquistão – segunda mais elevada e considerada a mais perigosa, com 8.611 metros de altitude – e dos Sete Cumes, as montanhas mais altas de cada continente. “O alpinismo é uma grande busca pelo aprendizado. Mais do que chegar lá, é uma forma de se integrar e de se sentir parte da natureza”, diz. E vai além: “Existe a questão da superação, de alcançar o que parece impossível, mas tem muito a ver com a procura pela introspecção, pelo contato consigo mesmo e com sua fé. No alto de uma montanha é onde me sinto mais próximo a Deus”, reflete. Palavras de quem, por muitas vezes, alcançou o pico de cordilheiras, levando com ele o Brasil, representado pela bandeira nacional como a que ganhou de Pelé e mostrou ao planeta no cume do Everest, em 1995. “Quando conheci o Waldemar, eu era ministro dos Esportes e ele, um jovem montanhista que queria colocar a bandeira brasileira no Topo do Mundo. O Brasil nunca tinha chegado ao Everest e, para mim, foi um enorme prazer incentivá-lo a conseguir essa importante vitória para o nosso país”, escreveu o ex-jogador no prefácio da autobiografia fotográfica de Niclevicz, A história do alpinista que se dedicou a colocar o Brasil no Topo do Mundo (Ed. Sagarmatha, 2015). Ato este que desde então, o atleta repete toda vez que está nas alturas. “Sou muito patriota. Tenho orgulho de ser brasileiro e nas minhas expedições, me sinto representando meu país. Já levei mais de 200 bandeiras em montanhas importantes. Quando a tiro da mochila, até controlo a emoção, mas ao vê-la eu choro. É algo que me comove”, revela. Outra coisa que o emociona são os valores humanos desenvolvidos, potencializados e evidenciados através das experiências de escalada, que Waldemar faz questão de relatar. “O companheirismo, o cooperativismo, o ajudar ao próximo é essencial. Ao meu ver, as pessoas que praticam o alpinismo são mais amigáveis e menos egoístas pois quando estamos escalando, um depende do outro”, explica. Para ele, é nas montanhas, lugares mais intactos do globo terrestre, que os seres humanos conseguem fazer aflorar seus verdadeiros sentimentos. “Há uma relação autêntica porque você é obrigado a tirar todas as suas máscaras e mostrar quem realmente é. Em especial, num momento de perigo, de tensão. Por isso, eu digo que o alpinismo é uma filosofia de vida”. Lá, também, se aprende a respeitar a própria natureza e tudo que nela vive como os animais selvagens encontrados pelo caminho. “Eu rezo para encontrar bichos. Uma onça, um urso, até uma cobra. É um momento único, incrível. Provavelmente ele vai te olhar e ir embora. Se conseguir fotografar será maravilhoso, desde que não o incomode. São contatos raros, mas que espero ansiosamente”, diz. “Não tem heroísmo, e sim preparo. É lógico que é uma atividade perigosa, tem obstáculos, pode ter tempestade, avalanche, mas para mim é uma situação comum em razão da minha experiência. Algo que não se improvisa e sim se adquire através de treinamento. Por isso, posso dizer que nunca fiquei cara a cara com a morte. O alpinismo não é isso. Pelo contrário, é a sensação de estar vivo.”
Rumo aos Alpes
E em meio a tantas conquistas, lá se vão 30 anos. De uma carreira bem-sucedida, cheia de emoções, movida por um incansável Waldemar que, é claro, vai celebrar essa data tão especial do jeito que mais gosta: no alto das montanhas. Em seu novo projeto “Quatro Mil dos Alpes – em busca da essência do Alpinismo”, ele vai escalar 82 montanhas na Itália, França e Suíça em apenas 120 dias. “Essa expedição está sendo planejada desde 1990. Em 2002 ela foi para o papel, mas não consegui realizar por falta de patrocínio, algo muito difícil de conseguir no Brasil. Mas agora, graças a Deus, vou com recursos próprios”, diz. Para cada montanha, um plano diferente. Ou seja, são 82 planejamentos com estratégias para 47 investidas. “É o meu projeto com maior escopo até agora”, completa Niclevicz, que pretende também registrar tudo em uma série de reportagens, fotos e vídeos para justamente mostrar essa conexão do homem com a natureza, a essência do alpinismo. “As pessoas acham que é um sacrifício, mas para mim é sempre uma experiência prazerosa. Exige dedicação, mas proporciona algo maior do que qualquer esforço. Não vou lá para ter frio na barriga e sim momentos de satisfação, realização e contemplação”, conta o alpinista, que continua firme e forte em sua missão de escalar e cada vez mais disseminar os verdadeiros objetivos dessa atividade que o faz tão feliz. “No Brasil, nós sofremos por não termos nenhuma cultura de alpinismo. Não temos o frio, a neve e tudo que valoriza o esforço do homem nesse ambiente. Como o brasileiro não passa por isso, não entende porque a gente escala uma montanha”, afirma. “Agora, talvez compreendam um pouco mais porque os esportes de aventura estão na moda, mas ainda assim estamos bem longe dos países ligados às escaladas. A maioria acha que você é um estereótipo, que faz algo extraordinário e não é nada disso. É tudo feito com muita consciência, esforço, planejamento, treino e prudência”. Propósitos estes, que como ele explica, podem ser aplicados em outras áreas da vida, do trabalho a qualquer tipo de relacionamento. “Melhora tudo”. É o que ensina em suas conferências ministradas em empresas e corporações Brasil afora, que abordam temas como liderança, planejamento estratégico, gerenciamento de riscos e, especialmente, o real espírito de equipe. “Posso dizer que são sempre uma agradável surpresa. Apresentações que me emocionam, pois mostro como superar desafios e levar os ensinamentos do alpinismo ao mundo corporativo por meio de fotografias – outra grande paixão – que faço durante as expedições e são o fio condutor das mais de mil palestras que já realizei para o público empresarial.” 

Um cara família
Quem vê Waldemar, escalando uma montanha, destemido e cheio de adrenalina, não imagina que longe dela, é um homem bastante tranquilo. Serenidade esta que ele aprendeu e até hoje busca ao chegar no topo. “Uma sensação que continua sincera e espontânea como na primeira vez”, diz o alpinista, que começou aos 16 anos subindo a montanha do Parque Estadual do Marumbi, no Paraná, e atualmente, aos 52, se considera realizado. Formado em turismo e pós-graduado em economia do turismo, diverte-se em dizer que nunca teve um emprego com carteira assinada. “Sempre fui empreendedor e fiz projetos, todos ligados às montanhas. Sou um acadêmico, um pesquisador”. Também orgulha-se em relatar sua coragem ao largar a carreira militar para seguir o desejo de alpinismo, mesmo contrariando a vontade do pai. “No início, ficou furioso porque ele foi militar. Não entendia o porquê já que seria mais confortável eu me transformar em um oficial do exército. Hoje, ele e minha mãe entendem e apoiam meu trabalho”. O que Waldemar nunca conseguiu deixar é seu estado natal. Vive em Curitiba com a esposa e o filho Nicolau, de um ano e meio, a quem sonha ter como seu sucessor. “Em dez anos, espero que ele já esteja me acompanhando”, sorri. Mais vontades para o futuro? “Ter um programa de televisão, talvez. E continuar fazendo exatamente o que faço hoje. Até porque ainda tem muita montanha para eu escalar”. Assim como diz a canção No Topo do Mundo, dos americanos do Imagine Dragons: “Eu tive as montanhas mais altas, eu tive os mais profundos rios. Você pode ter tudo, mas a vida continua…”, Waldemar Niclevicz ainda tem sim, muito orgulho para nos dar.
Acompanhe a mais recente expedição de Waldemar Niclevicz a bordo de um Audi XXX em parceria com a TOP Destinos em @waldemar_niclevicz

Fotos: Divulgação

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