TOP Magazine

Profissão: Missões (Quase) Impossíveis

Conheça Courtney Atkinson, o triatleta que subiu 7 montanhas correndo em 7 dias

POR Marília Aguena 3 MIN

31 jan

3 Min

Profissão: Missões (Quase) Impossíveis

POR Marília Aguena

	

Missão dada é missão cumprida. A frase do Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura no filme Tropa de Elite (2007), cabe facilmente no vocabulário do australiano Courtney Atkinson, de 38 anos.

O triatleta é movido a desafios, e vez ou outra inventa uns bem loucos. Tão malucos que parecem impossíveis de serem realizados, fazendo aquele nosso “treininho” parecer um tanto quanto infantil. O último deles? Ele subiu e desceu correndo sete montanhas australianas: Monte Meharry (Austrália Ocidental), Zeil (Território do Norte), Kosciuszko (Nova Gales do Sul), Bartle Frere (Queensland), Bimberi Peak (Território da Capital da Austrália), Ossa (Tasmânia) e Bogong (Victoria). Percorreu 145 km, em 25 horas de corrida no total. Para tanto, foram 11 voos (ou 13 mil km no ar) e 2.200 km de viagem na estrada. “Os maiores desafios são o acesso e as distâncias de uma montanha para outra. O clima também complica tudo. Enfrentei todos os tipos: calor, umidade, neve e depois o árido do deserto”, conta.

Fora a natureza implacável, que dificultou e muito o trajeto de Courtney, em especial quando cruzou com cangurus sobre montanhas cobertas de neve, foi atacado por sanguessugas, furou os pés em pedras e desviou de cobras venenosas durante a noite. Outro ponto que pegou bastante para o atleta foi o cansaço. “Maior do que uma meia maratona. Às vezes, era como se corresse duas por dia”, diz.

Atkinson passou literalmente sete dias correndo com pouco tempo de descanso, mas nada de hotéis confortáveis com cama, chuveiro quente e uma equipe médica com terapeutas para uma massagem ou relaxamento muscular. Pelo contrário, a rotina era bem exaustiva, com breves sonecas feitas em uma barraca. “Acampava no pé da montanha, acordava, tomava café e corria. Ia de carro para o aeroporto, chegava ao outro estado, entrava novamente em um automóvel e dirigia de duas a sete horas para a próxima montanha.”

E quando estava no topo, só dava tempo de tirar uma foto, dar uma olhada no entorno e já tinha de voltar. Com tantos deslocamentos, subidas e descidas, alguma coisa não funcionou? Por incrível que pareça, deu tudo certo. “Pensei que ia atrasar ou perder algum voo, mas foi tudo tranquilo.” Ele, porém, elenca três grandes dificuldades que passou naquela semana. A primeira delas foi na ilha da Tasmânia, o ponto mais ao sul da Austrália, onde perdeu muito tempo com deslocamento até o Monte Ossa. A descida e subida foram um capítulo à parte. “São 38 km, mas, por causa de uma inundação, não conseguimos chegar tão próximo da trilha de carro, já que as pontes e estradas foram destruídas.”

O percalço aumentou em 10 km o trajeto da corrida, que durou sete horas na neve. No Monte Meharry,  também enfrentou algumas complicações. A ideia era que uma equipe fosse acompanhando e iluminando o caminho com um carro off-road, mas o percurso era tão difícil que nem um automóvel 4×4 conseguiu acompanhá-lo. E lá foi Courtney com apenas uma lanterna na cabeça, correndo no escuro. Mais obstáculos no Território do Norte, a caminho para o Monte Zeil, onde as estradas estavam fechadas por causa das péssimas condições. O carro atolou e ele resolveu sair correndo dali mesmo, afinal, acreditava serem “somente 20 km”. Só que a situação das trilhas era tão ruim que não dava nem para correr.

A saída foi caminhar bem lentamente no meio da lama e do mato afiado, que deixou seus pés inchados. Isso sem contar as cobras por todas as partes, que fizeram a corrida durar seis horas. Detalhe: sem água e sem comida. Engana-se quem pensa que sua alimentação foi acompanhada de perto por um nutricionista. Atkinson precisou encontrar uma nova forma de balancear seu cardápio: as próprias mãos. “Normalmente como 90% saudável e 10% qualquer coisa que eu queira, porque queimo muitas calorias, mas nessa viagem, como estava carregando uma bolsa de 20 kg que tinha tudo o que precisava para a semana, a comida era somente o que eu conseguia levar nas mãos.

As lanchonetes de aeroporto ou mercadinhos do interior eram as escolhas do dia.” Mas isso teve um preço. Por ter corrido sem a recuperação que um atleta necessita, suas pernas ficaram completamente destruídas e os pés detonados, cheios de cortes. Sem contar a desidratação que teve no último dia. Além do preparo físico, tão importante quanto, é o controle mental, mas isso Courtney tira de letra. “Tento só fazer coisas que estou super a fim, que fazem a vida valer a pena e me motivam. Sempre tem uma batalha da mente contra o corpo em algumas corridas mais longas. Encontrei o motivo de estar nesse desafio, e isso deixa minha cabeça no lugar”, explica.

“Meu hobby é meu trabalho”

Não tinha como Courtney ter outro destino, afinal, o local onde cresceu é um prato cheio para quem tem alguma inclinação esportiva. “Sou de uma famosa praia de surfe em Gold Coast, então minha infância sempre foi correr, surfar e ficar na natureza. Na escola, percebi pela primeira vez que corria mais rápido que a maioria. E como a praia era praticamente o meu quintal, consegui chegar às Olimpíadas na modalidade triatlo”, conta o atleta, que já disputou os Jogos de Pequim 2008 e Londres 2012.

Atkinson perdeu as contas de quanto já correu na vida, mas num cálculo rápido estima algo em torno de 104 mil quilômetros. Ou seja, o suficiente para dar quase duas voltas e meia ao mundo. Quando não está treinando, passa o tempo com a sua “jovem família”, como gosta de descrever. Ele, inclusive, compartilha todas as aventuras que vive com a mulher e os dois filhos pequenos no perfil do Instagram @awolfamily. “Você pode me encontrar com amigos dando risada em um barco ou surfando.”

Com a rotina puxada e as inúmeras viagens, o jeito que arranjou para conciliar vida profissional e pessoal foi inserir todos no seu cotidiano. “Nem sempre é possível, mas quando estou com os meus filhos na natureza, eles geralmente esquecem  os eletrônicos e percebem que tem muito mais no mundo”, sorri. Aliás, é fácil ver a satisfação e o entusiasmo nos olhos e nas palavras dele. “Eu vivo o meu sonho! Todos nós pensamos que a grama é mais verde do outro lado e que tem sempre algo para encontrarmos, mas no momento não gostaria de mais nada além de ser atleta, explorar lugares e dividir tudo isso com a minha família.”

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO