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05 mar

Profissão: Mindfulness

A jornada do ex-executivo que abandonou tudo para viver em um monastério indiano e hoje ensina líderes de empresas a meditar

POR Melissa Lenz 3 MIN

05 mar

3 Min

Profissão: Mindfulness

POR Melissa Lenz

	

“Eu acredito ser uma pessoa comum com uma jornada incomum”, diz o paulista Davi Murbach, 38 anos, que aos 24 abandonou carreira, namorada, apartamento, carro, dinheiro, família e todos os seus bens para viver em um monastério indiano como monge Satyanatha (que significa “aquele que busca a verdade”). “Fui um adolescente normal, tinha medo que as meninas não gostassem de mim, mas meus buracos eram maiores.” Só que, ao contrário de seus temores, pretendentes nunca lhe faltavam – “eu era bastante namorador, um apaixonado crônico” –, porém, suas relações não duravam mais do que três meses – “sentia um vazio e uma necessidade de solidão muito grande. Algumas mulheres devem ter queixas de mim até hoje”, confessa, com um tímido sorriso na face.

Formado em engenharia da computação pela Unicamp, sua carreira ia de vento em popa no início de 2003. “Entrei em empresas excelentes.” Mas, de acordo com os indianos, todos nascem com uma tendência de alma que sofre influências externas ao longo do tempo. “Devagarzinho, aquele que tem uma certa vontade vai sentindo uma força maior”, Satyanatha explica. Era rotineiro vê-lo chorando na cantina da faculdade, emocionado com suas leituras de ensinamentos espirituais. “Foi ficando óbvio que eu era esquisito.”

Até que um dos sócios da consultoria internacional em que trabalhava fez cair sua ficha de que o caminho de Davi era o monastério. “Ele me perguntou quais os livros mais importantes que já tinha lido. Não me vinha nenhum de negócios, apenas de espiritualidade… Fiquei muito chateado, porque percebi que não teria jeito de eu ser um executivo.”

Prova para virar monge

Aos 23 anos, escreveu para um velho monge indiano dizendo que também precisava se tornar um. “Ele me deu o teste de ficar um ano no Brasil me preparando: largue seu emprego, passe o dia meditando, rezando, deixe namorada, se despeça de amigos, converse com a família e rompa todos os laços.” E assim o fez. Mas o mais difícil foi lidar com sua melancolia. “Temos um grande prazer em semear e ver crescer. Eu louco para construir, fui obrigado a desconstruir absolutamente tudo. Foi um momento de desconstrução do ego. Achava que era grande coisa e descobri que não era nada. Hoje, quanto mais nada eu sou, melhor. Não sou nada no meu centro, sou um potencial, uma luz. Se tenho que dar aula, viro alguém didático, com conhecimento, depois volto a ser um nada de novo. E é tão libertador. Porque sendo nada, posso ser tudo e me tornar o que eu quiser”, pondera o monge.

Uma noite de amor, porém, poderia ter recalculado toda a sua rota. “No aniversário de uma ex rolou um olhar, ela me puxou e disse ‘fica aqui’ sem saber que eu iria para o monastério. Se tivesse ficado lá, não teria ido mais.” Mesmo imaginando que aquele poderia ter sido o último beijo de sua vida, Davi respirou fundo e partiu. “Mais tarde ela ficou sabendo onde fui parar.”

No monastério

À beira da cratera de um vulcão, no Havaí, jaz um ortodoxo monastério indiano chamado Kauai Aadheenam, onde se aprende as técnicas de meditação da linhagem Natha, iniciada com Nandinatha há 2.200 anos, no alto da cadeia dos Himalaias. Entre os rígidos votos desses monges estão o celibato, a obediência, a confidencialidade, a fidelidade ao parâmpara (linhagem) e a pureza. “Foi maravilhoso, uma transformação. O mais difícil foi a obediência.” Saty chegou apenas com uma pequena maleta após ter doado todas as suas roupas e pertences – “com exceção de meu relógio preferido”, um Swatch preateado presenteado pela mãe em seu aniversário de 18 anos. “Você está apegado”, disse-lhe um monge. O jovem estendeu a mão, entregou a peça que seria doada em seguida. “É uma vida de completa dedicação. Ser monge é uma tecnologia do espírito. Uma técnica de atingir uma comunhão com esse transcendente que existe em todos nós, mas é difícil de encontrar no trânsito de São Paulo ou quando sua namorada olhou para outro”, define.

Tecnologia do espírito

Para explicar essa “tecnologia espiritual”, Satyanatha começa pela origem da palavra “técnica”, que vem do grego tékhne (método). “Monges têm um objetivo: ver o divino em todas as coisas e viver isso; o que os define é essa busca do monos, uma luz que existe em todos os seres. Então você abre mão de outras que quer menos.” Só que com tanta abdicação, ele nunca sentiu falta de mais conforto ou de namoradas, por exemplo? “Claro que sim, por isso se chama renúncia, não repulsa.” Seu colchão tinha apenas 2 centímetros de espessura. “Não era para me torturar. Mas é na absoluta simplicidade que você não tem onde se esconder de si mesmo. Se estava triste, era óbvio. Não havia confortos externos, ia ser feliz por quê? Não tinha uma Ferrari me esperando na garagem ou alguém para admirar meu trabalho. Teria que ser feliz de dentro pra fora. E fui descobrindo que era possível.”

Partiu Palo Alto

Após sete anos aprendendo as técnicas de meditação Natha, o monge resolveu partir. “A ortodoxia que me incomodava era só poder instruir quem se convertia ao hinduísmo. Gravar um vídeo ensinando só era possível depois de 36 anos lá.” Saty sabia que os mestres eram melhores do que ele. Mas disse ao seu o que sentia: “Será que não tem gente precisando que até meu pequeno ensinamento seja válido?” O velho, muito ponderado: “Você não veio aqui pra ser quem não é. Mas para descobrir quem é. Se achou que é um professor de todos, então seja”. Eles abriram o mapa-múndi para Saty escolher um destino: Vale do Silício, Universidade de Stanford, Palo Alto. “Eles me deram uma passagem e dinheiro que duraria um mês e meio. Eu teria que sobreviver de alguma maneira.”

Saty dormiu em hotéis pulguentos de beira de estrada e morou no quarto da casa de um engenheiro americano da Tesla – até hoje seu amigo. Durante três anos e meio, deu aulas de meditação em Palo Alto, estudou manuscritos antigos religiosos na Universidade de Stanford e viajou entre Estados Unidos e Europa, carregando uma mala de livros e outra de roupas. “Eu viajava e ensinava.”

Mindfulness para executivos

De volta ao Brasil, o mestre continua sua jornada pelo mundo mas alugou uma pequena casa no bairro paulistano do Itaim Bibi onde ensina suas técnicas de meditação aprendidas no monastério. Ele também ministra no Espaço Natividade, na Casa do Saber e em companhias como a Vivo, em São Paulo. Entre seus alunos, pagantes ou não – “às vezes só recebo em good karma” –, tem de estudantes a executivos, empresários, milionários a bilionários. “Quando vejo um grande líder, coloco sentado no meu pufe e pergunto: tem ideia da sua responsabilidade? Sabia que pode alterar a consciência das pessoas? Você impacta milhares”, diz ele, que leciona para alguns dos homens mais ricos e poderosos do Brasil, entre os quais, presidentes de multinacionais com mais de 1 milhão de consultores. “A vida me colocou em uma posição em que tento convencer esses empresários a se tornarem a melhor versão deles mesmos. E meditar é isso”, reflete. “A gente acha que é vítima das circunstâncias sendo que podemos decidir o nosso melhor através da técnica de respiração, de mentalização e de mindfulness (estado de atenção plena).”

Grandes empresas, entre as quais a Vivo – que tem até uma sala para meditar em seu prédio-sede –, já oferecem aulas de meditação e mindfulness para seus funcionários. Dos benefícios comprovados no ambiente do trabalho estão redução do estresse, melhora do foco, concentração, criatividade, saúde e aumento da inteligência emocional. Um estudo feito pela bióloga Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, aponta que, além de ajudar a relaxar, a técnica é capaz de modificar estruturas e funções cerebrais. “Muitos executivos me procuram quando descobrem que escalaram uma montanha que não tinha tudo para eles. Encontraram dinheiro, fama, mulheres… [e por falar nelas, agora ele pode ter namorada, a quem chama de ‘‘mulher amada” – “É uma prática diferente”] Mas e agora? Por que estou sentindo esse vazio?” É aí que o sábio guru entra em ação. “É preciso encontrar a felicidade dentro de você. Cada um tem a sua verdade.” Se há dois anos as pessoas meditavam meio escondidas – “era uma coisa que cheirava a incenso ou tinha cara de roupas coloridas” –, atualmente os altos executivos de grandes corporações assumem publicamente que a prática os tornou melhores líderes. “Hoje mesmo o Christian Gebara (COO da Vivo) sobe no palco da empresa e fala que medita na frente do presidente da companhia (Eduardo Navarro)”, comenta Satyanatha, com um sorriso bastante feliz. Segundo o monge, Gebara o procurou quando estava em um momento acelerado e difícil. “Começamos a conversar e uns seis meses depois ele veio com uma ideia: ‘Por que você não cria um aplicativo para ensinar as pessoas a meditar?’”

Meditação pelo celular

O “neomonge” – como já é chamado aqui pelos amigos (neo vem do grego: novo, atualizado) – ponderou: “Não seria a mesma coisa do que um professor ao vivo, mas teria o potencial de atingir milhões de pessoas”. No ano passado, foi então lançado o app Vivo Meditação, com mais de mil meditações criadas e gravadas na voz do próprio Satyanatha. Tem práticas que vão de cinco a 50 minutos voltadas para as mais variadas situações: desde dormir melhor a aumentar a performance no trabalho. “Tem algo de mágico e extraordinário pegar o conhecimento dessa antiga linhagem de 2200 anos e disponibilizar no celular. Porque há menos de 15 anos, para ter acesso a ele, tive que largar tudo e ir para um monastério aos pés de um vulcão extinto.

E agora parte desse conteúdo está disponível para todos. Vivemos um tempo de maravilhas de expansão da consciência”, avalia o guru.

10 dicas de satyanatha para viver melhor no ambiente de trabalho

  1. Respire com consciência. Observe a respiração e os efeitos do ar, que entra e traz vitalidade para você. Comece a inspirar e expirar mais fundo, sem forçar. Deixe que o ar saia mais lentamente do que entrou. Quando sua mente quiser pensar, volte a observar o ato de respirar, seus efeitos em cada membro, e em cada parte de si.
  2. Eleve sua consciência. Tudo o que existe fora de você pode lhe afetar com força ou com leveza, dependendo apenas da sua reação. Os seus pensamentos definem a sua realidade.
  3. Quando uma pessoa estiver fora de sintonia consigo mesma, irritada ou ansiosa, não troque energia. Deixe de focar nos olhos dela e apenas fixe o seu olhar no centro da testa dela – isto cessa o fluxo da carga dela até você.
  4. Dê mais atenção ao que realmente importa. Se consegue dar menos foco a alguma coisa, aquilo perde a força em você. Assim, os fatos de uma situação serão os mesmos, mas a sua experiência deles será muito diferente.
  5. Coloque a mente no seu aprendizado, na sua dedicação e na alegria de ser você. Deixe o que quer que incomode ali, fora de si, quase sem importar, como um barulho a mais. Sinta a energia do seu coração, lembre-se da lição a ser aprendida e da compaixão por aqueles que ainda não sabem viver com suavidade. Então, dedique-se a ser você a luz que queria que o outro – e o mundo – tivessem.
  6. Para cada incoerência, seja mil vezes coerente. Ao barulho, responda com o silêncio; e no caos seja a escada para algo melhor. Você não pertence àquilo de que se desapega. Ao afirmar isso em si, semeia uma vida nova que nasce ao seu redor, a partir da sua verdade e do seu coração.
  7. Ame a vida. Ame a si próprio, sentindo o seu coração, onde fica o centro de energia chamado de chakra anahata, segundo os hindus. Vá fazendo este amor crescer – amando desde simples animais e pessoas amadas até outros humanos ainda desconhecidos – até que este sentimento tome você por inteiro, como uma bolha feita de luz.
  8. Mergulhe em si mesmo e conheça o universo que existe no seu interior. Comece a se acostumar com o silêncio mental em sua própria profundidade, deixando de lado o passado e o futuro. Esteja no momento presente e aproveite a sua companhia. Na hora da meditação só existe você, sinta sua presença.
  9. Relaxe e deixe o corpo tranquilo. Para não atrapalhar sua meditação, sente-se confortavelmente, com as costas eretas ou apoiadas, e os ombros levemente para trás. Pode sentar-se no chão, em uma almofada, ou poltrona gostosa, contanto que se mantenha ereto. Lembre-se de cada parte do corpo, agradecendo cada músculo e suas células e relaxando para que a mente possa voar.
  10. Controle o fluir dos pensamentos. Os escolha de forma gentil na sua mente, ressaltando e energizando os melhores, que vibram boas energias.
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