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Profissão: Michel Tikhomiroff

Para o cineasta e diretor da série de TV O Negócio, produção nacional da HBO exibida em mais de 50 países, trabalhar é algo lúdico...

POR Roberto Marks 5 MIN

14 maio

5 Min

Profissão: Michel Tikhomiroff

POR Roberto Marks

	

Michel Tikhomiroff define seu trabalho como algo lúdico e, apesar da rotina — “sem rotina” —, como faz questão de ressaltar, na dinâmica e atribulada atividade de cineasta, ele afirma que não considera sua profissão como um trabalho, e sim uma espécie de brincadeira. “Volta e meia, naquele tumulto geral de um set de filmagem, eu me pergunto se aquilo é real ou se estou vivendo apenas um belo sonho, um devaneio.”

Como dizem os italianos, Michel é “figlio d’arte”. Seu pai, João Daniel Tikhomiroff, também é cineasta de renome internacional e considerado um dos principais diretores de filmes de publicidade do mundo nos rankings das revistas Shots e AdAge. Além disso, o avô Daniel Michael Tikhomiroff, russo que imigrou para os Estados Unidos, foi diretor de negócios da Universal Pictures para a América do Sul.

Mesmo tendo a genética do cinema, Michel diz que somente na juventude passou a considerar a ideia de se dedicar a essa atividade. “Desde criança vivia dentro da Jodaf, a produtora de meu pai, acompanhando o trabalho dele. Mas confesso que, na época, não me imaginava no futuro fazendo filmes. Claro que, bem provavelmente, um dia eu iria trabalhar na empresa, porém, não fazia ideia como”, conta.

Foto: Divulgação.

A revelação

Segundo ele, veio quando cursava o “Col”, o ensino médio na Catalunha, Espanha. “No começo dos anos 90, meu pai foi trabalhar na Europa e levou a família para morar em Barcelona, onde eu fiz os dois últimos anos do colegial. E foi lá, durante uma aula de história, em que foi exibido o clássico filme O Encouraçado Potemkin, do diretor russo Sergei Eisenstein, que descobri minha paixão e vocação”, diz.           

Michel lembra que ficou emocionado a tal ponto de chegar às lágrimas. “Foi algo incrível. Fui tomado de tal forma que precisei até me recompor, já que a maioria dos colegas na classe mostrava tédio e alguns, inclusive, até estavam dormindo. Mas fiquei tão envolvido, sobretudo pela técnica de filmagem arrojada para a época em que foi feita (1925), que comecei a pensar seriamente no meu futuro profissional.”

Ao voltar para casa, ele contou o episódio para os pais e lembra que teve nova surpresa: “Meu pai ficou encantado com o que relatei, já que ele nunca tentou influenciar as decisões com relação ao meu futuro profissional. Ficamos conversando horas sobre o filme e, alguns dias depois, ele me presentou com um dicionário completo da história do cinema, no qual mergulhei de cabeça”, detalha Michel.

Concluído o colegial, enquanto sua família retornava ao Brasil, Michel ia para os Estados Unidos. “Fui fazer curso de cinema na Tisch School of the Arts – Film & TV, na New York University”, detalha.

Formado, em 1998, retornou ao Brasil e foi trabalhar na produtora da família. “Na época, a principal atividade da Jodaf ainda eram os filmes de publicidade, mas eu já vim com a ideia de investir em cinema e TV.”

Em 2003, após incorporar algumas empresas da área de produção e pós-produção, a Jodaf se transformou em Mixer e passou a criar séries para a televisão. “Com isso fomos a primeira produtora a investir na produção independente de filmes, animação e séries. Inicialmente, focamos em parceria com emissoras para programas e documentários. Um dos primeiros projetos foi a série Mothern, para o GNT.”

Com o tempo, a Mixer ampliou suas atividades para a produção de filmes. Após dirigir Confia em Mim, seu primeiro longa-metragem, produzido em 2012 e que teve como protagonistas os atores Mateus Solano e Fernanda Machado, Michel passou a se dedicar à série de televisão O Negócio. “Levamos a proposta para a HBO. Eles gostaram e resolveram bancar o ‘negócio’”, sorri.

Foto: José Luis Beneyto

Com locações basicamente na cidade de São Paulo e uma abordagem inusitada, a série é um sucesso internacional que agora entra na sua quarta temporada, sendo exibida em mais de 50 países. “A ideia de garotas de programa adotando ferramentas de marketing para dinamizar sua atividade é curiosa e possibilita múltiplas opções no desenvolvimento da trama”, afirma Michel.

Essa visão pouco convencional de abordar temas relativamente complexos parece motivar o cineasta. Não por acaso, um de seus filmes preferidos é o anárquico O Fantasma da Liberdade, obra clássica do aragonês Luis Buñuel que se caracteriza pelo roteiro não linear: “Uma instigante aula de cinema”, diz Michel ao se referir à proposta original conduzida magistralmente pelo mestre do surrealismo.

Formatos da arte cinematográfica e distribuição via Netflix também o estimulam. “As séries nos dão a oportunidade de poder criar mais, desenvolver diversas facetas de uma história e possibilitar ao cinema se aproximar da literatura, algo que não é possível nos longas. Isso, inclusive, faz grandes talentos migrarem para a produção de TV. Já a distribuição amplia o mercado.”  

Pai de um casal, Jun e Mei, de 8 e 6 anos de idade, Michel procura equilibrar a vida familiar com sua atividade. Algo que não é nada fácil, principalmente no período de filmagens. “Quando estamos gravando, costumo acordar entre 4 e 5 da manhã para uma jornada em torno de 12 horas. Mas, se for à noite, o horário se inverte. Aí, para não atrapalhar a rotina da casa e das crianças, costumo me hospedar num flat.”

Além de dirigir filmes, Michel também é diretor artístico da Mixer Films e responsável por toda a área de conteúdo da produtora. Para conseguir equilibrar essa “não rotina”, como diz, ele trocou o café pelo hábito de beber chá conforme reza a tradição chinesa. “Don, um grande amigo meu, é mestre na arte de selecionar e criar chás e, inclusive, tem uma loja em Londres. Há alguns anos, ele me presentou com uma caixa com diversos tipos da bebida, e se tornou uma espécie de momento de relaxamento,  de colocar as ideias em ordem”, conclui o cineasta.

Foto de capa: Guilherme Sacon.

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