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22 nov

Profissão: Marcos Ermírio de Moraes

Empreendedor nato, ele transformou a paixão em um grande negócio, provando que é sim possível trabalhar com o que ama e ainda ganhar dinheiro

POR Marília Aguena MIN

22 nov

Min

Profissão: Marcos Ermírio de Moraes

POR Marília Aguena

	

Fazer várias coisas diferentes e ao mesmo tempo não assusta Marcos Ermírio de Moraes. Muito pelo contrário. O empresário de 53 anos é movido a desafios e embora seja de uma família abastada, quis voar solo e ter suas próprias conquistas. Uma delas é a organização do Rally dos Sertões, que veio de uma grande paixão, a velocidade. Engenheiro florestal de formação, ele acredita já ter rodado mais de 300 mil quilômetros só em corridas off road, o suficiente para dar quase três voltas ao mundo.
Mas vamos ao começo… Um dos herdeiros do Grupo Votorantim, das maiores multinacionais da América Latina, Marcos trabalhou na companhia durante 12 anos, o que lhe deu mais estofo para construir todo o seu atual império. Lá, ele viu a empresa passar por um processo de reestruturação interna, quando todos da família saíram das funções executivas para fazerem parte apenas do conselho. E procurou se encontrar profissionalmente, ingressando em algumas empreitadas não tão bem sucedidas, mas sem nunca desistir. A resposta, porém, estava o tempo inteiro aos seus pés. Literalmente, ele tira o sustento da terra. Hoje foca todos os seus investimentos no Rally dos Sertões e em seis fazendas – quatro no interior de São Paulo, em que cultiva café e laranja e outras duas, no Mato Grosso do Sul e em Tocantins, onde cria gado de corte e, em breve, pretende apostar em grãos. Já a paixão por velocidade é antiga. Na juventude já gostava de motos e carros. Conhece o Rally dos Sertões desde a primeira edição, em 1993, mas só foi comprá-lo três anos depois. “Era amador, muito mais uma enorme aventura do que uma grande corrida. Naquela época não tinha carro 4×4 no Brasil, então o grid era composto só por motos. Em seguida, tentamos experimentar outras categorias como carro e caminhão”, explica. E deu certo. Hoje é o segundo maior do mundo, ficando atrás somente do Paris-Dakar. Isso porque com os tempos de vacas magras, a duração do rally passou de dez para sete dias. Otimista, Marcos projeta o retorno dos dez dias de competição para, consequentemente voltar a ser o maior do globo.

Mas isso contando apenas o tempo da prova porque se levar em consideração a estrutura, o Rally dos Sertões é ainda o maior, mesmo com três dias a menos. Coisa que ele não esperava, embora admita que desde o começo tenha se preocupado em ter um evento financeiramente saudável. A corrida movimenta por volta de R$ 25 milhões por edição e cerca de R$ 180 mil reais por dia, em cada cidade por onde passa. Dunas, a empresa criada por Marcos para administrar a competição, também tem uma grande preocupação em deixar um legado social. “Em 2000, participei do Paris-Dakar e vi que os caras usavam muito e de tudo, e não deixavam nada nas cidades por onde passavam. É uma pobreza enorme. Aqui no Brasil tem lugares parecidos e vi que podíamos fazer algo”, conta. O Rally dos Sertões, por exemplo, tem uma equipe de médicos voluntários que viaja com os competidores, mas atendem também à população carente e realizam até pequenas cirurgias. Além do atendimento médico, bibliotecas e escolas são construídas, bem como cisternas e a infraestrutura de saneamento básico. “Não é nada fácil viabilizar algo assim no país, ainda mais do jeito que é politicamente. Me sinto gratificado e motivado para continuar fazendo e ao mesmo tempo buscando as novas fronteiras do Brasil que são sempre gigantescas”. Na edição 2018, O Rally dos Sertões volta para o nordeste e em 2019, Marcos pretende desbravar as terras da Amazônia. Falando em desbravar, ele mergulha de cabeça quando aparece uma oportunidade de negócio e já teve até uma empresa de cosméticos sob o guarda-chuva da Dunas. “Vi que era um mercado que ia bem até mesmo na crise. Procuramos algum link com os sertões do país e desenvolvemos xampus, condicionadores e cremes a partir do extrato de frutos brasileiros do cerrado”, lembra. O negócio não teve o retorno esperado e ele acabou vendendo a sua parte.
Pronto para todas


Da terceira geração de uma das famílias mais poderosas do Brasil, filho de Ermírio Pereira de Moraes e sobrinho de Antonio Ermírio de Moraes, Marcos é um dos sucessores do conglomerado Votorantim. A fortuna da família é hoje avaliada em mais de US$ 1 bilhão. Mas ele tem hábitos simples. Com vida discreta, é avesso às redes sociais e pouco se encontra na internet sobre sua vida pessoal. “Ainda bem”, diz. Luxo para o empresário é poder tomar tereré – bebida típica sul-americana feita com a infusão de erva-mate em água fria – em uma roda de amigos em uma de suas propriedades em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Aliás, se mudar para lá, em breve, é um de seus sonhos que espera realizar o quanto antes e passar cada vez menos tempo em São Paulo. Quando não está trabalhando, Marcos corre nas duas pistas particulares de rally que tem em sua fazenda no interior paulista, e que somam quase sete vezes a extensão do autódromo de Interlagos. Hoje ele não compete mais no Rally dos Sertões, mas está quase todos os meses nas estradas do Campeonato Brasileiro de Cross Country. Também pode ser visto facilmente em um clube de tiro esportivo. “Gosto de tiro ao prato, melhora a minha concentração e dou uma relaxada”. Como quase todo fã de velocidade, tem Ayrton Senna como ídolo. Seu filho, aliás, herdou essa paixão do pai: Lucas Moraes também é piloto de motocross. De qualquer forma, Marcos é um exemplo a ser seguido. Resolveu ser empreendedor em um país com política complicada e é senhor do próprio destino, mesmo sendo de uma família tradicional e bilionária. E quando parecia ter quase tudo, lutou e abriu portas com muito esforço. Em um mundo de aparências e ostentações, precisamos de mais Marcos por aí.

Fotos: Sanderson Pereira

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