TOP Magazine

Profissão: Marcelo Skaf

O consultor ambiental e fotógrafo dos mares revela seus mistérios

POR Melissa Lenz 4 MIN

19 abr

4 Min

Profissão: Marcelo Skaf

POR Melissa Lenz

	

LADO A

Para o Cristo Redentor, no Parque da Tijuca (Rio de Janeiro), estar preparado para receber bem seus 2,2 milhões de visitantes, as Cataratas do Parque do Iguaçu (Paraná), 1.789.000, e Fernando de Noronha (Pernambuco), 89 mil – somente no último ano –, o paulistano Marcelo Skaf, 45, colocou o seu dedinho lá. “Faço esse planejamento para ‘uso público’ (termo usado para ‘turismo’) em parques nacionais há muitos anos”, diz. “Ajudei a fazer o Iguaçu, o Cristo, Noronha, o Bondinho…”. Hoje, os maiores operadores (players) que tocam os passeios dentro deles são clientes de sua empresa MSkaf – Consultoria Ambiental e Expedições, fundada há 18 anos. “Sou como se fosse a (revista) Top Destinos de planejamento de turismo em parques”, compara sorrindo.

KNOW-HOW

Essa história começou logo que terminou a faculdade de Oceanografia, no Rio Grande do Sul, e foi trabalhar com baleias jubarte, no sul da Bahia. “Fundamos o instituto e em dois anos fui convidado para assumir o parque”, conta. Chefiou o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos de 1996 a 1999. “Foi onde aprendi tudo sobre turismo, o que era legal e o que não era”. Quando saiu já estava pronto para abrir sua empresa e dar consultoria no Paraná, ao Parque Nacional do Iguaçu – até hoje seu cliente. “Atualmente fico para lá e para cá entre os parques do Brasil”, diz Marcelo, radicado no Rio.

LADO B

Mas esse business é somente um dos blocos de sua vida. Documentarista de natureza desde 1993, sua primeira expedição foi com o cinegrafista Lawrence Wahba (diretor do longa Todas as Manhãs do Mundo), quem conheceu em um barco em Paraty (RJ), no ano anterior. Eles atravessaram o Atlântico em uma escuna. “Saímos do litoral brasileiro e fomos até a África. Fizemos vários mergulhos rock and roll! Foi aí que fiquei cascudo mesmo”, relata.

Em 1998, deu a volta ao mundo com a missão de captar imagens da vida marinha para o canal GNT. “Partimos de São Paulo, de avião, e fomos para os Estados Unidos, Caribe, Flórida, África, Índico, Austrália, Nova Zelândia, pingando nas ilhas do Pacífico até chegar ao Equador. Mergulhamos nos pontos mais legais do planeta com bastante microvida, camarões lindos na Indonésia, tubarões em Galápagos, corais… Foi uma viagem de três meses com muita diversidade”, relembra.

TOP Destinos Gigantes dos Mares

Em novembro passado, Marcelo partiu com o publisher Claudio Mello e Lawrence Wahba para uma aventura na Ilha de Guadalupe, costa oeste do México, que durou um mês. “Percorremos boa parte do Pacífico, mergulhamos em ilhas pouquíssimo exploradas, vimos mais de nove espécies de tubarões, raias jamantas e outros bichos que normalmente seria impossível em uma viagem só. Isso foi um baita diferencial”. Essas imagens capturadas por Skaf na expedição “TOP Destinos Gigantes dos Mares” em breve serão vistas em um documentário inédito produzido para a televisão.

Mas o que o levou a desenvolver essas habilidades no fundo do mar?

A HORA DA ESTRELA

“Se jogar meu pai e minha mãe na água, eles não sabem nadar”, revela. Marcelo ganhou uma máscara de mergulho do avô em 1982. “Ele trouxe da Europa e me deu, ninguém sabe por quê. Eu não pedi.” O equipamento ficou esquecido por um ano e meio em sua casa, até as férias de verão em Guarapari (ES) – “arrumando a mala para a viagem, joguei dentro.” Ao chegar à praia, vestiu a tal máscara e colocou a cabeça na água. E a mágica aconteceu. “Foi como se tivesse sido teletransportado para outro planeta. Vi uma estrela do mar e me lembro até hoje. Fiquei encantado, encantado…”, suspira. Ficou sete horas lá. “É difícil explicar, foi um chamamento.” Aos 13 anos convenceu a mãe a matriculá-lo em um curso de mergulho livre. “Fiquei alucinado, só queria saber disso.” Em 1986, então com 16, começou a mergulhar com cilindro. “O dia em que respirei debaixo da água foi sensacional, surtei.” E nunca mais parou.

OVELHA NEGRA

Aos 18, ingressou no curso de Engenharia na USP – “eu era o orgulho dos meus pais, pois naquela época você tinha que ser engenheiro, advogado ou médico” – mas em seis meses largou para prestar Oceanografia na FURG (Rio Grande do Sul), sem segunda opção. “Fui bem kamikaze. Meu pai ficou puto. De alegria passei a ser a desgraça da família.” Mas não desistiu deles. “Eu ia mergulhar e não conseguia traduzir em palavras tudo o que via para meus pais. E naquela época não havia internet.” E como não conseguiria levá-los para baixo da água, teria que trazer o fundo do mar até eles. De que jeito? Através de imagens. “Comprei uma camerazinha Minolta de filme bem fininho que pelo menos já dava para mostrar o shape das coisas.” Naqueles tempos não existia digital. “Era uma maneira diferente de fotografar, mais old school.”

Profissão: Perigo

Planejamento de longas expedições em áreas remotas, logística de movimentação de segurança, primeiros socorros estão entre as especialidades de Skaf. Para alguns programas de sobrevivência, como Desafio Celebridades e Desafio em Dose Dupla, irem ao ar no canal Discovery, é ele quem vai a campo primeiro. “Se precisa ter um rapel na cachoeira, nossa equipe desce primeiro, monta, organiza, orienta os participantes do programa e o diretor como as coisas têm que acontecer. Qualquer problema, a responsabilidade é nossa também. Tem que levar desfibrilador, maca e uma tranqueirada toda.” É preciso ter uma gama de conhecimentos. Quase que como o MacGyver (personagem da série Profissão: Perigo, de 2006). “Apesar de estar fazendo uma expedição rock and roll você tem que ser um profissional completo porque existem regras que precisa aplicar. Isso vai de primeiros socorros a saber operar barco, bote, dirigir caminhão, entender um pouco de elétrica, hidráulica, eletrotécnica, um conjunto de habilidades que te colocam em um grau de segurança bacana.” Ele nunca  chegou perto da morte?

SOS SOBREVIVÊNCIA

Marcelo já viu a Senhora da Foice duas vezes com Lawrence. “Estávamos em Wolf, uma ilha em Galápagos que tem muita corrente, para documentar os tubarões-martelo. A temperatura da água estava mais quente que o normal e os bichos abaixo dos 40 metros. Lá os mergulhos são à deriva: o barco solta você em um ponto para mergulhar conforme a correnteza.” Porém, um imprevisto lá embaixo: eles pegaram uma corrente forte que os levou ao sentido contrário do barco. “Saímos longe para caramba e ficamos seis horas à deriva. Foi tenso. Demos porrada em tubarão com câmera, vimos golfinhos… Não tinha mais filme para fotografar.” A outra situação foi mergulhando na Antártica. “O tempo muda muito rápido. Em três minutos está sol e fecha tudo. De repente ficou preto e tinha um pedaço de gelo em cima da gente… Quando conseguimos nos desvencilhar, restavam uns minutinhos… Vi um filminho passar. Mas foram duas vezes entre mais de 3500 mergulhos… É pouco”, avalia.

PELOS MARES DO MUNDO

130 imagens clicadas por Marcelo em 20 anos de carreira estão em seu livro Pelos Mares do Mundo (Batel Editora), lançado em 2015. As fotografias vão de paisagens submarinas, detalhes e texturas de seres marinhos captadas em regiões como Moçambique, África do Sul, Nova Zelândia, Mar Vermelho, Papua-Nova Guiné, Ilhas Canárias, Ilhas Oceânicas Brasileiras Caribe, Antártica e Ártico. Imperdível.

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO