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25 dez

Profissão: Kondzilla

Ele é dono do maior canal brasileiro no YouTube, com 23 milhões de assinantes e mais de 10 bilhões de views. Conheça a história do jovem da periferia do Guarujá que contribuiu para o boom do funk na internet

POR Marília Aguena 3 MIN

25 dez

3 Min

Profissão: Kondzilla

POR Marília Aguena

	

Você pode nunca ter ouvido falar dele, até porque seu trabalho é de bastidores, mas Konrad Dantas, mais conhecido como Kondzilla, criou uma espécie de MTV do funk no YouTube. Seu canal é o maior do Brasil – com mais de 23 milhões de assinantes e cerca de 10  bilhões de visualizações – e o quarto mais assistido do planeta, segundo o ranking americano Tubefilter. A plataforma cresceu sem grandes pretensões. “Hoje somos o nono maior de música do mundo, mas a ideia era conseguir me manter, pagar as minhas contas e, com o dinheiro, chegar à  publicidade”, explica. Engana-se, porém, quem pensa que é apenas mais um youtuber ou influenciador digital. “Sou um administrador de sonhos”. E é mesmo. Ele dá espaço e fama para jovens artistas da periferia que dificilmente seriam reconhecidos ou teriam sequer uma oportunidade de ter uma canção tocada numa rádio atualmente. Na real, ele entendeu e colocou em prática a nova forma de fazer música: primeiro a internet e depois o resto. Segundo levantamento da empresa de monitoramento ConnectMix, no Brasil, o sertanejo domina 74% da programação musical das rádios. Coisa bem diferente da internet. Já no YouTube, quem domina as views são o funk e o pop. E no Spotify a coisa é mais democrática: o sertanejo aparece com 40%, pop com 32% e funk com 22%. Kondzilla atribui os diferentes números ao preconceito. “Não é porque o funk teve uma ideia genial de correr atrás do digital antes dos outros gêneros. Era o único recurso que a gente tinha, e sabia que ia ser democrático. O consumo (do funk) cresceu junto com o novo mercado”, diz. Não estamos falando de apenas um ví­deo postado em seu canal massivamente acessado por todas as classes sociais.

Konrad produz conteúdo audiovisual para os artistas, ou seja, dirige, fornece equipamento e edição dos clipes. A vontade de ser um videomaker é antiga. O jovem nasceu em uma comunidade carente no Guarujá, litoral sul de São Paulo. Aos 18 anos perdeu a mãe, que era funcionária pública e havia deixado um seguro de vida para ele. Com o dinheiro, foi para a capital paulista estudar publicidade e fazer pós-produção. Logo ingressou em uma agência, onde viu que “as coisas não eram bem como ele pensava”. Próximo da música, decidiu fazer clipes de rock e hip-hop, só que foi no funk que encontrou o resultado que esperava. “Já sabia da importância do ritmo para quem é da favela. E sempre foi muito forte no litoral. Foi lá que consegui o resultado que queria”. Apesar da pouca idade – tem 29 anos -, o currí­culo só aumenta: sob o guarda-chuva Kondzilla, tem produtora, gravadora e e-commerce de roupas, além de ser empresário de alguns artistas, é diretor na produtora Conspiração Filmes – onde já fez filmes publicitários para marcas como Nestlé e Skol –  e está na lista da revista Forbes como um dos jovens mais influentes do paí­s com menos de 30 anos. Até no mundo da moda já circulou, a convite do estilista Alexandre Herchcovitch. “Ele me disse que desejava um vídeo com uma pegada mais jovem e que gosta muito da estética que a gente apresenta nos clipes. O Alê queria associar a marca dele a isso, até porque a coleção tinha sido inspirada um pouco nos nossos ví­deos”. Nesse dia, o funk invadiu o Teatro Municipal e se misturou à ópera.

 

Toque de Midas

Como dizem no Rio de Janeiro, “o funk desceu o morro” ou “invadiu o asfalto” e hoje é significado de festa animada para pessoas de todas as classes sociais. “Não me sinto responsável por isso, mas sei que tenho uma participação”. Mesmo assim, Konrad critica a marginalização do ritmo. “Acontece e sempre vai acontecer, porque cresceu nas margens. Essa palavra é muito mal interpretada. Assumir que o funk evoluiu na marginalidade já soa como bandidagem, coisa que não tem nada a ver”. Quem já viu os ví­deos dirigidos por ele percebe seu estilo logo de cara: edição dinâmica, cores e pegada jovem. O valor inicial de um clipe é R$ 20 mil, e vai de acordo com o orçamento do artista. Mansões, carros esportivos, correntes de ouro ou qualquer outra ostentação deixam mais caro. “Como lido com pessoas, sempre temos algum tipo de contratempo. Esses dias fui filmar em Los Angeles, nos EUA, e chegou uma galera perguntando o que estávamos fazendo no bairro deles.

A gente explicou que era um artista brasileiro e querí­amos prestigiar o local. Quando viram que éramos brasileiros, permitiram as gravações. Eles respeitam bastante o Brasil”, conta. Diferente do ambiente que constantemente vemos nos videoclipes de funk, Konrad tem uma vida mais discreta e seu hobby é fazer churrasco com os amigos. “Antes eu colecionava tênis caros, mas parei. Já comprei todos que queria, e agora vou guardar o meu dinheiro”, explica sorrindo. Também é evangélico e afirma que em nenhum momento a crença atrapalhou sua carreira. “O que acontece no meio, que é talvez o que viria de encontro com a religião, eu não paro para pensar. Só quero saber qual é o resultado do meu trabalho e o que vai trazer para o cliente. Tenho uma visão estritamente profissional e entendo a responsabilidade que a cultura do funk traz para quem é de periferia”, afirma. Agora, Konrad trabalha em um novo projeto. “Estou desenvolvendo uma série de ficção. Escrevo com uma equipe de roteiristas, mas a ideia é toda minha”, conta. E os sonhos do grande administrador de sonhos? “Boa pergunta. Tornar a empresa cada vez maior e continuar realizando o sonho das pessoas”.

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