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24 out

Profissão Houssein Jarouche

Ele transformou o ofício de comercializar móveis, atividade tradicional de sua família, com a dinâmica de olhar e vender cada peça como obra de arte

POR Roberto Marks 5 MIN

24 out

5 Min

Profissão Houssein Jarouche

POR Roberto Marks

	

Buscar um caminho diferenciado para uma atividade consolidada e bem-sucedida é sempre um desafio, que implica em riscos e desconfiança. Mas foi justamente esse projeto que fez com que Houssein Jarouche criasse a Micasa, há 20 anos, hoje referência em criatividade e vanguarda no segmento de móveis e objetos de arte para decoração de residências. “A proposta foi oferecer uma alternativa ao mercado, com atendimento baseado na exclusividade e na difusão do design”, detalha o empresário.

Nascido em uma família envolvida há longa data na comercialização de móveis — seu pai foi um dos pioneiros em São Paulo —, Houssein resolveu enfrentar esse status-quo ao desenvolver uma proposta bem mais arrojada, com foco em clientes que desejavam algo diferenciado. “O polo de móveis de São Bernardo é popular e movido pela necessidade. Mas notei que algumas pessoas estavam ficando
mais exigentes.”     

O design norteou seus objetivos. “Sempre gostei de arte. Quando garoto, desenhava carros em perspectiva e até imaginava um dia trabalhar como designer na indústria automobilística”, lembra Houssein, que nasceu na região do mais importante polo automotivo brasileiro. Esses planos mudaram quando seus pais decidiram voltar para a terra natal deles, o Líbano, na segunda metade dos anos 1980. “Eu tinha 13 anos e, junto com meu irmão caçula, tivemos que acompanhá-los.” 

Enquanto isso, os irmãos mais velhos ficaram no Brasil tocando o bem-sucedido negócio de comercialização de móveis da família. Ele lembra que a adaptação a uma nova e peculiar cultura, em um país que estava saindo de uma guerra civil, foi complicada. “Uma mudança completa de rotina e hábitos, e o mais difícil foi ter que aprender a ler e escrever em árabe para poder frequentar a escola. Precisei ter aulas com professor particular.”

Após cinco anos e apesar do esforço dos pais em criar o ambiente apropriado para os filhos mais novos se estabelecerem no Líbano, Houssein quis retornar ao país. “Quando completei 18 anos, disse a eles que gostaria de voltar ao Brasil, já que não havia me habituado à vida no Líbano e achava que teria mais chances de desenvolver meu potencial profissional aqui. Eles concordaram e vim para trabalhar com meus irmãos no comércio de móveis em São Bernardo.”

A visão curiosa de quem havia ficado afastado do negócio, porém, proporcionou o insight de que as coisas tinham mudado e os consumidores estavam procurando peças exclusivas. Percepção essa que, inclusive, gerou conflito com os familiares. “Propus investirmos em móveis de design diferenciado. Habituados ao dia a dia do negócio, meus irmãos discordaram, achando que a proposta não era factível e que deveriam continuar comercializando móveis da maneira como sempre haviam feito até então.”

Mesmo com a negativa, ele conseguiu convencer o irmão mais velho a apoiá-lo em uma nova sociedade. “A Micasa foi inaugurada em 1998, em São Bernardo, com o objetivo de atender a um nicho de mercado: o de clientes que desejavam peças com design exclusivo. No começo, eu mesmo desenhava e prospectava fornecedores. Depois, passamos a ser procurados por fabricantes. Em pouco tempo, o nome da loja acabou difundido no meio dos designers, decoradores e arquitetos.”

A Micasa passou a ser então um ponto de referência e encontro para troca de ideias entre os profissionais do setor, lembra Houssein. “Muitos deles também levavam seus clientes até a loja para ver os móveis, o que acabou gerando a popular e eficiente propaganda boca a boca. Porém, eles costumavam se queixar da distância e do trânsito para chegar até a loja. Assim, decidi que deveríamos nos instalar em um ponto mais central, em São Paulo. Mas meu irmão não gostou da ideia e decidiu sair da sociedade.”

Aí surgiu o impasse: a falta de capital para tocar o negócio sozinho e em novo local. “A sorte foi que, na ocasião, apareceu um interessado em comprar o ponto comercial do prédio onde estávamos instalados. Com o dinheiro do negócio e algumas economias, consegui o valor necessário para me capitalizar e iniciar a nova empreitada”, conta Houssein, que procurou um ponto bem localizado nos Jardins, área nobre na capital paulista, mas longe das tradicionais regiões de venda de móveis.

Isso, segundo o empreendedor, foi decisão estratégica. “O foco da Micasa, desde o começo, foi ser difusora de ideias e tendências em tudo que se refere ao design e vanguarda no mobiliário e decoração. Até por isso escolhi uma casa para instalar o showroom”, destaca. Atualmente, além de peças de designers e fabricantes brasileiros, a Micasa comercializa móveis de marcas internacionais como a alemã Vitra Design e a espanhola BD ­— Barcelona Design.

Outra iniciativa de Houssein foi estender a atuação para o mercado de arte. “Essa é outra área que sempre me fascinou e que me levou a abrir a galeria. Nela, o foco principal é a pop art, vanguarda na década de 1960, e os desdobramentos contemporâneos desse movimento”, diz o empresário, que, além de colecionar obras dessa tendência, cria suas próprias peças nos raros momentos de folga. “São painéis com apliques feitos usando fitas adesivas multiuso, silver-tape.”

A paixão juvenil pelo design de automóveis também faz parte do universo atual de Houssein, que mantém uma coleção de exemplares da primeira geração do Ford Mustang, modelos fabricados nas décadas de 1960 e 70, antes mesmo de ele ter nascido. “Gosto do design daquela época e o Mustang representa bem o estilo que predominava no período.” Sem contar seus investimentos em outros ramos como a restauração de um prédio com mais de cem anos na Praça da Sé, centro de São Paulo. “Acho que devemos preservar o patrimônio histórico tão rico da cidade”, finaliza o empresário. 

Fotos Jorge Sato

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