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Profissão documentarista

Conheça as experiências que vivi nos mais belos santuários naturais do mundo

POR Lawrence Wahba 2 MIN

01 jun

2 Min

Profissão documentarista

POR Lawrence Wahba

	

 

Foram 197 dias de viagem. As aventuras que vivi em contato direto com a natureza e os animais dariam um livro, mas viraram um filme. Treze expedições, com filmagens nos lugares mais diferentes do mundo, e a observação da vida selvagem no seu habitat natural. Por isso, as acomodações foram as mais variadas possíveis, que vão de confortáveis cruzeiros no Ártico até barracas no meio do mato. De zero a cinco zilhões de estrelas, o que, na real, são as melhores: a céu aberto, no meio da natureza… Aqui, conto algumas das experiências mais marcantes dessas viagens.

Parque Nacional de South Luangwa, Zâmbia

O Parque Nacional de South Luangwa é um dos maiores santuários da vida selvagem para observar a fauna africana. Durante a estação seca, o leito do Rio Luangwa fica baixo, e vários animais de grande porte como hipopótamos, búfalos, zebras, girafas e elefantes se concentram na beira. Birdwatchers também se divertem já que há mais de 400 espécies de aves, incluindo 39 aves de rapina e 47 espécies migrantes da Zâmbia. Essa foi a primeira expedição. Ficamos no Zikomo Lodge, e ao chegar, não me surpreendi quando encontramos um leopardo descansando numa árvore.

Montei o tripé, esperei, e consegui cenas do felino ao despertar e quando desceu para caçar. Esse belo animal era um dos personagens de nosso filme, e conseguimos fazer o registro nos meus primeiros 15 minutos no parque! Durante os 12 dias, acordamos às 4 da manhã para documentar a vida animal no amanhecer, antes do nascer do sol. As filmagens correram tranquilamente, e os animais pareciam desfilar para nossas câmeras. Tivemos encontros diários com leões, búfalos, hipopótamos, elefantes, macacos… sem falar das aves e de mais quatro encontros com leopardos. Então, para quem quer conhecer um safári roots, anota este nome aqui: Parque Nacional de South Luangwa.

Ilha Svalbard, Circulo Polar Ártico, Noruega

No círculo polar ártico, na metade do caminho para o Polo Norte, fica Longyearbyen, uma das principais portas de entrada de um mundo inóspito, gelado e deslumbrante.
Lá, a manhã é medida em meses, e não em horas. Por um lado é bom porque podemos gravar a qualquer hora, já que o sol brilha 24 horas por dia. Por outro, é difícil acordar, pois dormir em um lugar que nunca anoitece é bem complicado. Fui ao Ártico filmar ursos polares, morsas, raposas e outros típicos da região. Para filmar as paisagens geladas fizemos uma expedição de trenó puxado por cachorros, e conduzi-lo foi bem divertido. Os huskies criados para o turismo são bem tratados e parecem se divertir tanto quanto nós. Confesso que às vezes eu trocava o ponto da câmera para dar mais um rolezinho de trenó…


Terminada a brincadeira, chegou a hora de trabalhar. Embarcamos num cruzeiro tradicional da Quark Expeditions, cuja estrutura e conforto é 5 estrelas… Porém, ao sair para os “passeios”, partíamos com um guia naturalista particular. Caminhamos três horas na neve com 30 quilos nas costas. O guia não podia ajudar, pois tinha de estar com as mãos livres para manusear seu rifle em caso de emergência com ursos polares. Passamos oito dias extasiados com a beleza das paisagens selvagens, intocadas e inesquecíveis. Picos majestosos, geleiras maciças, fiordes e o contraste da tundra tão colorida formam um ecossistema surpreendente. Conseguimos registrar todos os animais, inclusive o urso polar, o rei do Ártico e maior predador terrestre do planeta. Para nossa sorte, as duas avistagens foram do navio, sem qualquer tensão e de um ângulo excelente.

Ilha de Vancouver, Columbia Britânica, Canadá

A Ilha de Vancouver é um dos santuários mais diversos da América do Norte. Há florestas milenares, costões rochosos, lagos, praias, montanhas e fiordes, cheios de vida animal. No meu ponto de vista, a melhor forma de explorá-la é de carro, pois são muitos cenários, atrações e possibilidades.
Fui documentar o ciclo de vida de um animal essencial para o equilíbrio da floresta e dos oceanos: o salmão, cuja migração anual é um espetáculo. À medida em que os peixes deixam o mar e enfrentam a correnteza dos rios em direção ao mesmo local que nasceram, para reproduzir, os mais diversos predadores aproveitam o banquete.


Documentamos leões-marinhos, ursos pretos e águias, além dos dois mundos do salmão e suas criaturas: o fundo do mar e as florestas que circundam os rios. Entretanto, minha experiência mais especial se deu no continente, quando fui a Great Bear Rainforest, onde fica o Great Bear Lodge, ou Alojamento do Grande Urso. Confortável e acolhedor, é tocado pelo biólogo americano, Tom Rivest, especialista em ursos grizzly. Quando os salmões migram em direção aos rios, dezenas desses majestosos ursos vêm caçar. Tom construiu cabanas de observação bem perto deles, mas eu tive um encontro ainda mais próximo: uma mamãe urso com seu filhote apareceram na margem do rio andando lentamente em nossa direção. Tom começou a falar com ela calmamente: “Hey mamma, you have a nice boy”. Embora saiba que a razão do som é evitar que o animal se surpreenda, não segurei o riso de nervoso por estar há menos de 10 metros da ursa. Nessa época, com fartura de comida nos rios, os ursos grizzly são pouco agressivos, mas uma mãe poderia nos matar facilmente se sentisse que éramos uma ameaça potencial a seu filhote. Ela chegou a menos de cinco metros de mim, mas deu a volta e nos evitou. E eu, fotografei.

Baja Califórnia, México

A Baja Califórnia no México é uma terra de contrastes. É onde um dos desertos mais áridos do planeta beija o rico oceano Pacífico. E esse encontro foi o tema do nosso documentário. Eu e o oceanógrafo Marcelo Skaf embarcamos no MV Seascape rumo ao arquipélago de Revillagigedo, popularmente conhecido como Ilhas Socorro. Após 24 horas, chegamos a um oásis no Pacifico, apelidado de Galápagos mexicana, um dos melhores lugares do mundo para se mergulhar com grandes animais. Tubarões, baleias e golfinhos são comuns, mas a grande atração são as raias jamanta, que atingem 7 metros de envergadura, mas são dóceis. Esses gigantes gentis nos seguiam por mais de meia hora, chegando praticamente a tocar nos mergulhadores. Mal sabia eu que ainda estava prestes a vivenciar a maior emoção no mar – e nem precisei entrar na água para tal.

No caminho de Puerto Adolfo Lopez Mateo, paramos dois dias em La Paz para mergulhos e filmagens no deserto, mas o que me trouxe aos confins da Baja Califórnia foi testemunhar pessoalmente um fenômeno que me fascina desde criança: Las Ballenas Amigables, ou as baleias amigáveis.
Por alguma razão que intriga a ciência, ali as baleias cinzentas não são apenas mansas, mas costumam trazer seus filhotes para serem acariciados por turistas a bordo de pequenos barcos de madeira. Por mais que eu tivesse lido e visto documentários a respeito, a emoção de estar lado a lado a esses gigantes, acariciando-os foi a experiência mais forte de integração com a natureza que já vivi. Tudo isso, você pode ver no filme Todas as Manhãs do Mundo.

Lawrence Wabba é mergulhador e cinegrafista, diretor de documentários do National Geographic Channel e do filme Todas as Manhãs do Mundo
Serviço:

Zikomo Safari Lodge, Mfuwe, Zâmbia
zikomosafari.com
Radisson Blu Polar Hotel, Longyearbyen, Noruega
radissonblu.com/en/hotel-spitsbergen
Quark Expeditions
quarkexpeditions.com
Great Bear Lodge, Port Hardy, Canadá
greatbeartours.com

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