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Para pensar no que é ser índio

Produção tem índios Krahô como protagonistas e discute a identidade indígena

POR Walter de Sousa, com exclusividade para a TOP Magazine 4 MIN

16 abr

4 Min

Para pensar no que é ser índio

POR Walter de Sousa, com exclusividade para a TOP Magazine

	

Todo mês de abril, quando a imprensa decide produzir reportagens sobre os índios por ocasião do dia dedicado a eles (19 de abril), ressurge a discussão: o índio que se “rende” à cultura do branco deixa de ser índio? Afinal, quando o índio é de fato índio? Uma produção nacional em que os atores são índios Krahô do Tocantins e que trata de um dilema decisivo para Ihjãc, da tribo Pedra Branca, promete contextualizar melhor esse debate. A cena inicial do filme “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos” coloca o personagem numa caminhada noturna até uma cachoeira onde ouve a voz do pai falecido pedindo que ele faça a festa da sua morte. Assim como os índios do Alto Xingu (Mato Grosso), os Krahô celebram o ritual que ficou conhecido pelo nome de Quarup, ou seja, a representação do morto por uma tora de madeira adornada que passa por uma série de rituais até ser chorada pela última vez pelos vivos. A partir do ritual, a alma deixa o mundo dos vivos e passa a viver na Aldeia dos Mortos. Assim, sua memória se extingue entre os que ficaram e que com ele conviveram. Esse chamado, na verdade, faz Ihjãc entrar num profundo processo de rejeição pessoal. Se ele ouviu a voz do pai morto, esse é um claro sinal de que ele precisa se tornar pajé, que é o único entre os membros da tribo que dispõe da habilidade de se comunicar com o outro lado. “Não quero isso pra mim”, revela à mulher, que traz um filho de colo.

Para fugir da sua sina, o índio abandona a família e vai para a cidade tratar das dores que sente por conta do chamado místico, tratando-as como sintomas de um mal físico. Assim, ele tenta se “curar” com a vida do branco, acreditando que, com isso, o espírito da Arara, que o aguarda, irá se esquecer dele. Da mesma forma como o chamado é vivido internamente, o dilema também o é, camada que o espectador acessa pela leitura subjetiva do filme, entre silêncios e poucos diálogos. Se trata, por fim, de uma história simples sobre um tema complexo, a identidade do índio. Com direção do português João Salaviza e da paulista Renée Nader Messora, que convive com os Krahô desde 2009, o filme ganhou o prêmio do júri da Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2018. O som do filme é um caso à parte. Enquanto a história silenciosa de Ihjãc se desenvolve, os ruídos da floresta atravessam as almas dos espectadores urbanos. (Walter de Sousa)

Confira o trailer:

 

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos

Direção: João Salaviza, Renée Nader Messora

Elenco: Henrique Ihjãc Krahô, Raene Kôtô Krahô e os habitantes da aldeia Pedra Branca – Terra Indígena Krahô

Produtora: Embaúba Filmes

Estreia: 18 de abril

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