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OSGEMEOS

Como dois meninos de família classe média baixa, criados em um bairro de tradição operária, entraram no círculo dos grandes nomes da arte contemporânea

POR Otavio Rodrigues 5 MIN

18 dez

5 Min

OSGEMEOS

POR Otavio Rodrigues

	

Você certamente já ouviu falar de OSGEMEOS. Mesmo que tenha vivido os últimos 10 ou 15 anos em outro planeta, ainda assim deve lhe ter chegado algo a respeito, a se levar a sério a ideia de que os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo não são deste mundo. Espalhadas pelos cinco continentes, suas obras aparecem em fachadas e empenas-cegas de prédios, em muros, paredes e estruturas das mais diversas, assim como nas mais importantes galerias e museus, nos mais elegantes livros e revistas de arte e design. Cores fortes, detalhes e personagens improváveis em situações que nos põem a pensar, entre outras maravilhas da criativa produção da dupla, fazem sucesso nos Estados Unidos, Alemanha, Cuba, Grécia, Lituânia, Inglaterra, Portugal, Itália, Dinamarca, Suécia e Japão – e até no Brasil.

Há quem ainda torça o nariz para artistas formados na chamada street art, quem veja separação entre essa cultura e as escolas clássicas. “Nem aí para isso”, diz Otávio. “A gente não acredita que exista uma ponte, que o cara sai da rua e vai para o museu”, acrescenta Gustavo. “Existem várias vertentes de arte e várias maneiras de se colocar os trabalhos – como em uma lateral de prédio, uma animação, uma exposição em galeria”, segue Otávio. “E se a ideia for apenas ir pintar na rua, a gente vai e pinta”, conclui Gustavo. (Bem, é assim que eles falam, um emendando a ideia do outro.)

 

Segredos no laboratório

Para entender melhor como chegaram nesse patamar, batemos à porta do estúdio, no Cambuci, mesmo bairro paulistano onde eles nasceram e se criaram. Quem abre o portão é um dos dois – se bem que, olhando melhor, parece uma versão diferente de um deles. “Eu? Eu sou o Arnaldo.” Nascido onze anos antes, o irmão mais velho é o homem das ferramentas, dos motores e fios, das engenharias e das engenhocas. Gustavo e Otávio concebem e desenham os projetos, Arnaldo executa. E logo vão surgindo outras pistas de seu papel crucial na formação dos caçulas. “Ele ficava desenhando de madrugada, chamava eu e meu irmão pra ver, a gente tentava fazer igual”, conta Otávio.

Em outros tempos, o galpão abrigou uma serralheria. Agora, bem reformado, está repleto de telas, esculturas, mobiles, entre uma infinidade de itens de coleção – como toucas-ninja e boombox (os equipamentos de som portáteis e potentes, ícones da cultura hip hop). “Por favor, não tirem fotos”, eles sempre lembram a quem chega. Há ferramentas nas paredes, sobre as bancadas e mesmo pelo chão. À direita, um plástico azul cobre uma Isetta, antigo microcarro de desenho italiano. À esquerda, o que um dia foi uma Kombi, agora com o feitio ovalado de um caramujo, tudo caprichosamente guarnecido por fitas de cobre. É a Cabeça/Casa. Onde antes ficava o parabrisa, há uma bateria musical escalafobética. Na traseira, como uma tampa, um enorme rosto feminino. Lá dentro, em ambiente intimista, uma instalação com vídeo-arte propõe interação entre os visitantes e os personagens, que têm forma de cubo. Não é fácil descrever uma obra d’ OSGEMEOS.

Um estúdio de vidro, nos fundos, abriga um dos tesouros do reino: discos de vinil, centenas e centenas deles, amealhados durante pelo menos 30 anos. “Começamos como DJs em 1988, de zoeira”, diz um. “Depois, demos uma parada, pra focar em desenho. Agora, voltamos”, diz o outro. “Está uma bagunça, vamos reorganizar tudo no novo estúdio, numa casa aqui ao lado. Tem discos da África, coisas chinesas raras, Madonna em coreano, eletro e freestyle, reggae, muita música eletrônica… Só coisa boa, selecionada a dedo!”, dizem os dois.

Da ópera ao hip hop

Nascidos em 1974, Gustavo e Otávio contam que começaram a se comunicar desenhando, antes mesmo de aprenderem a ler e escrever. “A gente desenhava juntos, no mesmo papel. Ou separava o papel, mas fazia o mesmo desenho.” Gustavo lembra bem da cartilha Caminho Suave, um clássico da alfabetização. “Você tinha o desenho do B, que era uma menininha com uma barriga. Ora, as letras podiam ter uma carinha. Isso influenciou muito a gente, que aprendeu a desenhar letra à mão naqueles cadernos pautados. Quando conhecemos o graffiti, vimos que tinha essa vida nas letras, então associamos uma coisa com a outra. Por exemplo, o Z de zabumba… Ahh, posso pegar esse Z e fazer o desenho de uma zabumba!”

A música é um dos pilares da obra deles. “Nosso avô sempre ouviu ópera, tinha uma coleção”, conta Otávio. “A gente ia na casa dele e ouvia aqueles discos no talo! Crescemos ouvindo ópera. Por exemplo, se você quando é criança ouve Turandot [última ópera de Giacomo Puccini], isso marca. Você fecha o olho e vê a cena, remete total àquela época. Música ajuda você a gravar essas imagens.” Outro oráculo dos meninos era Arnaldo, fã de rock progressivo, Pink Floyd, Led Zeppelin… “Mais tarde veio o hip hop e nós começamos a fazer scratch com os discos da família… Estragamos quase tudo!”

 

Tacando fogo na sala

A rotina na casa dos Pandolfo na virada dos anos 1980 não era igual à da vizinhança. “Crescemos no Cambuci, éramos classe média baixa, o pai trabalhava numa fábrica, a mãe também… Não tinha isso de ‘mãe, me dá uma bicicleta!’ Tinha de inventar brinquedo”, lembra Otávio, já dando vez ao irmão. “A gente era louco pelos seriados japoneses do Ultramen e do Ultraseven. E sabia que era tudo cenário, então queria fazer igual. Pegava caixa de sapato, caixa de papelão da feira, e usava para montar cenário na sala. Ficava só a gente com a moça que trabalhava em casa, às vezes nossa avó, e a sala virava uma instalação. Levava um mês pra montar um prédio! Uma maquete perfeita, igualzinha. Janelas, móveis, poltroninhas, os mínimos detalhes.” E o que, por Godzilla, eles faziam com tudo isso depois? “A gente tacava fogo, que nem nos filmes.” Os pais não reprimiam, davam liberdade. “Só pediam para tomar cuidado e não incendiar a casa.”

 

Dança nova na esquina

Um episódio angular nesse mingau geminiano de música/desenho/pintura rolou em 1982, quando Arnaldo os levou a uma festa. “Era na casa de uma menina que ele devia estar pegando, só tinha gente mais velha, uma doideira, uma bagunça”, vai Otávio contando. “Tínhamos 8 anos. Ele nos pôs sentados numa sala e colocou um filme pra rolar, dizendo que a gente precisava ver. Era The Wall, do Pink Floyd. Aí, fudeu…” Gustavo cita outra paulada que levaram na época: Heavy Metal, produção canadense de 1981, com sons de Black Sabbath, Cheap Trick, Devo e Blue Öyster Cult, entre outros. “São várias músicas do rock e, para cada uma, um desenho animado. Assim como The Wall, marcou muito a gente.”

Outro portal se abriu por volta de 1984, quando a galera da rua começou a ouvir rap e dançar break. “Todo dia aqui na esquina, meninos e meninas, umas cem pessoas!”, diz Otávio. “A gente nem sabia direito o que era aquilo, mas queria fazer igual.” Faltava informação sobre o movimento hip hop, contudo, e as rixas entre as turmas de bairros diferentes não ajudavam no intercâmbio. “A galera daqui não podia andar na Mooca, a da Mooca não podia andar aqui. Foi aí que nasceu o movimento na estação São Bento, que uniu todo mundo. Não importava de onde você vinha, quem você era, se branco ou preto, azul ou verde.” O pai ficou preocupado com as frequentes jornadas dos meninos ao centro da cidade, passou a ir junto para ver do que se tratava. “Ele ficou tão conhecido por lá quanto a gente”, diz Gustavo.

Tirando as camas do quarto

Eles contam que, certo dia, alguém na São Bento veio com uma história de que uns caras estavam grafitando um muro no Cambuci. “Como assim? Não tinha muita gente fazendo isso na cidade e aparece uns caras estranhos no nosso bairro! Tá louco? A gente foi lá a milhão, não podia deixar”, lembra Otávio.

Os invasores foram detectados próximos a igreja Renascer, na rua Lins de Vasconcelos. “Tinha um point de skate ali e os caras estavam lá pintando uma parede. Só que quando a gente chegou, viu que eles eram muito bons. Tinha o Speto, o Binho, o Cícero, caras do skate, não do hip hop – e não estavam brincando, não. O Speto, principalmente, nos impressionou muito. Naquela época, o pessoal da São Bento seguia a escola de Nova York, só se via cara com estilo próprio em livros e revistas importadas. Daí que, em vez de brigar, ficamos amigos.” Speto foi o primeiro a reconhecer o talento singular dos irmãos, além de ser um exemplo vivo de que dava para viver só da arte. “Ele foi lá em casa e falou pra mãe: o dia que descobrirem esses dois, eles nunca mais vão ficar aqui.”

Também sob a influência de Speto, OSGEMEOS afirmam ter começado a buscar uma linguagem própria. “Fomos na casa dele e vimos que tinha um estúdio. Decidimos montar o nosso. Tiramos as camas do quarto, pusemos os colchões de lado e abrimos espaço para mesas e banquetas. Ficamos quatro anos ali, 100% focados em desenho, estudando mesmo. Aerografia, guache, canetinha, aquarelado, hiper-realismo, comics, escultura… Foram quatro anos de velas acesas ao longo da madrugada, escutando um som e desenhando.” Quando saíram da imersão, ganharam as ruas. “Fazíamos um mural, outro, outro… Ficávamos um mês na Radial Leste pintando, vinha a Prefeitura e apagava. Tudo bem, fazemos outro.”

 

Do Cambuci para o mundo

Até que, um dia, toca o telefone de casa com um gringo na ponta da linha. “Sim, são meus filhos”, respondeu a mãe, boa de inglês. Um tal de Barry McGee, em temporada de estudos na cidade, havia anotado o contato que os meninos acrescentaram em um dos murais. Poucas horas depois, estava no estúdio-quarto do Cambuci com uma caixa de bicos especiais para tinta spray, stickers e outros presentes. OSGEMEOS ainda não sabiam, mas se tratava de um cultuado representante da arte contemporânea, um dos pioneiros do graffiti nos Estados Unidos. Bem, o resto é história, já comentada em síntese nas primeiras linhas deste perfil. Confirmando a profecia, os dois nunca mais pararam em casa. “Nossa agenda é difícil. Tudo tem de ser programado um ou dois anos antes”, diz um dos dois.

 

FOTOS: Jairo Goldflus

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