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Os Casamentos Vão Durar?

A crise de fidelidade nas redes sociais está similar a conserto de produtos eletrônicos: melhor trocar que consertar, no caso pessoas"

POR João Luiz Vieira 2 MIN

16 out

2 Min

Os Casamentos Vão Durar?

POR João Luiz Vieira

	

O que será do relacionamento a dois, do casamento duradouro, da fidelidade, de mim e de você nesse mundo volátil onde se troca de parceiro entre uma e outra cutucada numa rede social, uma curtida ou um compartilhamento em outra, um nude ou vídeo contendo ereção em mais uma possibilidade de entrar em contato com um desconhecido, usando dois e, muitas vezes, um único dedo? Não sabemos ainda. Precisamos de tempo, mas Ailton Amélio, psicólogo clínico, doutor em psicologia e professor do Instituto de Psicologia da USP (1985 – 2014), autor dos livros Relacionamento Amoroso (Publifolha), Para Viver Um Grande Amor (Editora Gente) e O Mapa do Amor (Editora Gente), acredita que as facilidades de acesso ao corpo de outro indivíduo transformaram a nossa vida numa grande festa, no que ela tem de bom. E de ruim. O que será de nós? Há mais dúvidas que respostas, por isso propusemos um diálogo.
TOP Como lidar com a fidelidade em tempos de redes sociais?
Ailton As redes sociais facilitaram muito a traição, porque o indivíduo pode ter contato 24 horas por dia com outras pessoas, com as quais pode haver interesse recíproco. Mesmo que não haja inicialmente, as redes facilitam o desenvolvimento para uma linha amorosa.
Isso é diferente de quanto tempo atrás? Quando foi essa virada?
Acho que quando universalizou a entrada às redes sociais, inclusive com o acesso via smartphone. Ficou muito fácil entrar em contato com conhecidos a qualquer hora do dia, e esses podem ser ponte para desconhecidos que podem se tornar íntimos. Colocou ao alcance da mão o contato com as pessoas, quase que literalmente falando, quando se digita. Você fica mais amigo e mais confiante, em casa, usando os dedos. E havendo interesse amoroso e/ou sexual, a coisa evolui facilmente.
A proliferação de aplicativos “de paquera” também favoreceu esse panorama?
Os aplicativos já são diretos. Quem entra já está declarando interesse, disposição ou disponibilidade amorosa. Mas a facilidade independe de o contexto ser um aplicativo especializado porque, pensemos no Facebook: alguém pede para ser adicionado, amigo de amigo… E aí começam as conversas, curtidas, comentários, cutuques, enfim, há uma evolução.

É como se a gente estivesse sempre, 24 horas por dia, numa grande festa, com pessoas circulando, interessantes ou desinteressantes, interessadas ou desinteressadas. É isso?
Perfeito. Antigamente havia testemunhas, você tinha de ir até o local encontrar quem lhe interessava, gastava tempo. Agora a coisa se tornou contínua, como se estivesse numa festa, em contato permanente com os convidados, e de uma forma sutil, discreta.
Essa miríade de possibilidades desnutre relações mais sólidas e/ou permanentes, como se o indivíduo pensasse que a troca de personagem é rápida, quase que imediata, e aquele vazio sempre pode ser preenchido? Em outras palavras, as pessoas estão indispostas a encarar as inevitáveis crises de relacionamento a dois?
A volatilidade aumentou muito, assim como as separações, e isso se deve, também, às oportunidades oferecidas pelas redes sociais, que facilitam a troca e garantem alguém na fila. Tem um estudo inglês que fala disso, de fila de espera nas redes, onde as pessoas marcam possíveis interessados. Mesmo que não deem sequência, elas têm uma noção de que “a fila anda”, e há planos B, C e D. Além disso, a fila ficou visível. Você sabe quem está falando, quem mostra interesse, quem curte tudo que é publicado. As filas de outrora agora são nítidas: quem, por qual motivo, quando e como. É como preço de produtos eletrônicos: melhor trocar que consertar.
Não há um ponto positivo?
O lado positivo é que o contato pelas redes sociais é mais frequente. Pode se ganhar intimidade mais rapidamente, trocar informações, manifestar afetividade, mostrar cuidado e preocupação. Isso é bom para o relacionamento.
Fidelidade é um mito ou está ligada ao romantismo?
Diz-se que romantismo é cultural, foi inventado à época da cavalaria. Não acredito. Pode ter ganhado visibilidade ou status social, mas o romantismo, tanto quanto pude concluir nos estudos a que tive acesso, é universal. Há relatos muito antigos, do tempo dos faraós egípcios. O livro do Salomão, bíblico, é romântico, com poemas para a amada. O que acontece é que algumas culturas oficializam como critério para o casamento, sendo que outras, não. O que varia o tempo e nas culturas é quanto o romantismo é base, desejável, para um relacionamento. Em sociedades onde o casamento é arranjado, ele está cada vez mais extinto, é um estorvo. O romantismo interfere, se contrapõe a planos mais racionais. Mas se é um problema, é uma prova indireta que ele existe, e está presente naquele povo. Fidelidade, porém, é um mito. Há estudos que dizem que culturas que têm a fidelidade como ordem têm paralelo nas traições. Isso é bem firme. Para você ter uma ideia, tem culturas que abominam a traição. Apedrejam, cortam o nariz e usam preventivos, como burca, para evitar contatos entre pessoas do sexo oposto. Tudo para coibir a traição. Estudos mostram, porém, que não são bem-sucedidos. Diminuem a incidência, mas não impedem de trair. Aqui no Ocidente, que tem a monogomia como ideal, cerca de uma em cada dez pessoas não é filha do pai que pensa. Isso é dado coletado em exame genético, com finalidade para entender o histórico de doenças, mas, ao mesmo tempo, faz-se o de paternidade. Por outro lado, se trai pouco. As estatísticas sobre traição são bem distorcidas. Se você já traiu alguém na vida você é considerado um traidor. Isso do ponto de vista de estatística. Não se leva em conta que você ficou 30 anos casado e traiu no 31º ano. As estimativas de traição equivalem a 70% dos indivíduos. Amostras de uma pesquisa norte-americana antiga, de 1995, tinham uma pergunta interessante: ‘Em um ano, quantos parceiros você teve?’ Somente 3% tiveram mais de um, ou seja, pode ser gente que não traiu. Acho que se trai pouco, mas ela é grave, ou seja, se traiu uma vez, você vira estatística.
O que é uma traição?
Traição é enganar o outro, romântica ou sexualmente. Não é o ato. Quem pratica suingue ou tem casamento aberto, por exemplo, não está traindo.
Por que há um acordo entre as partes?
Isso. Não é o ato de transar ou se envolver com o outro que configura uma traição. É o fato de estar mentindo, enganando o parceiro.
Se ela está namorando e troca mensagens em aplicativos ou nas redes sociais. Isso é traição?
Se está enganando, ou omitindo esse fato do parceiro é, sim, traição. A traição varia em graus de gravidade.
Não precisa ter um fato físico então?
Não, basta enganar o outro. Ou ativamente, ou por omissão.
Num divórcio, o indivíduo pode alegar que foi traído pela rede social?
Não tenho certeza. Mas, atualmente, não se precisa de justificativa para se divorciar. Não se precisa provar nada. Não é contravenção trair pelas redes sociais.
No Japão, há indivíduos que estão praticando sexo com bonecas de vinil e com robô. Se um rapaz trair sua namorada com uma robô configura traição?
Segue a mesma regra: me agarro ao princípio de enganar o outro. Pode ser com um homem, uma mulher, com dois, com três, com bonecas ou com robôs. Psicologicamente, acho importante manter um nível alto de sinceridade, embora não cheguemos aos 100%. Se não vira uma loucura: a gente não se compromete com o outro.
Seu ponto de vista é otimista ou pessimista com a interferência das redes sociais na intimidade?
O ser humano é moderadamente poligâmico, mas pouca gente consegue manter por tanto tempo vários relacionamentos. A formação de vínculos duradouros é inerente à espécie humana, embora, frise-se, que as facilidades atuais tendam a diminuir, talvez, a ideia de fidelidade, porque as tentações são muitas. Até a arara-azul fica com o mesmo parceiro pela vida toda, porém ela trai. Estudos genéticos provam que ela tem ararinhas com os vizinhos e que até elas também pulam de galho.

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