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O silêncio dos outros

Vem ler a resenha exclusiva sobre "O Silêncio dos Outros", filme que chega aos cinemas dia 28/02

POR Mônica Arouca, com exclusividade para TOP Magazine 4 MIN

26 fev

4 Min

O silêncio dos outros

POR Mônica Arouca, com exclusividade para TOP Magazine

	

O silêncio é algo com que se compactue?

“Uma coisa é um país; outra, um regimento/uma coisa é um país; outra o aviltamento”. São esses versos do poeta brasileiro Affonso Romanno de Sant’Anna, que vêm à memória durante a narrativa punjante de O silêncio dos outros, segundo longa-metragem de Almueda Carracedo e Robert Bahar. Em 96 minutos, os diretores retratam, com cenas reais e testemunhos recentes, parte dos 40 anos de ditadura do General espanhol Francisco Franco (1882-1975) e a busca por justiça daqueles que sobreviveram ao regime totalitarista. Quando não falam os sobreviventes, falam por eles seus descendentes.

Franco foi um dos ditadores que mais tempo ficou no poder no século XX: de 1936 a 1975. Mandou matar e torturar centenas de opositores, instalou campos concentração, abriu valas comuns, ordenou o sequestro de milhares de recém-nascidos e de crianças, sob o pretexto de que fossem criadas por famílias que os recuperassem do “gene vermelho” do comunismo, já que eram filhos de “republicanos rojos”. O livro Eugenia da hispanidade e regeneração da raça, escrito em 1938 pelo médico Antonio Vallejo Nágera, formado na Alemanha nazista e chefe de psiquiatria do governo franquista, foi o balizador para os sequestros de crianças na Espanha. Não se sabe do paradeiro delas até hoje, mas um dos personagens do filme, o juiz espanhol Baltazar Garzón, estima que entre 30 mil e 114 mil foram dadas à adoção.

As ditaduras não apresentam muitas variantes, mas a do franquismo deixou sequelas até hoje diante do “pacto de esquecimento” imposto pela lei na Anistia, em 1977, aos algozes da época. O acordo impediu, por exemplo, que esse ignóbil capitulo da história da Espanha fosse estudado nas escolas e endossou a impunidade. Apesar de postularem que as ditaduras são crime contra a humanidade, os sobreviventes e seus descendentes não convenceram o judiciário, e as atrocidades seguem impunes.

Ao explorarem bem os depoimentos em primeiro plano, Carracedo e Bahar propõem ainda mais proximidade entre a fala dos oprimidos e o telespectador empático. São relatos dolorosos, como os de José Galantés, que até há pouco tempo vivia na mesma rua que seu torturador, “Billy, o menino”.

É preciso ouvir os sobreviventes para que a silêncio não seja o manto anestésico que cala o fascismo, e o filme vem em boa hora, já que vários países parecem não ter aprendido com o passado e por isso mesmo podem revivê-lo. Franco foi enterrado na região conhecida como Vale dos Caídos. Nada mais apropriado.

Vem conferir o trailer:

Serviço:

O silêncio dos outros (El Silencio de Otros, Estados Unidos/Espanha, 2018), direção de Almuda

Carracedo e Robert Bahar. Produção-executiva: Pedro Almodóvar, Agustín Almodóvar e Esther

Garcia. Documentário/96 minutos.

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