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12 dez

O Hot Jesus é Matador

Ele já foi apelidado de “Jesus gostosão” pela imprensa norte-americana por conta de seu papel na série A Bíblia. Desta vez o ator português Diogo Morgado vira um implacável assassino de aluguel como a estrela do primeiro filme brasileiro da Netflix

POR Melissa Lenz 3 MIN

12 dez

3 Min

O Hot Jesus é Matador

POR Melissa Lenz

	

No tapete vermelho da première de O Matador, em novembro, em São Paulo, o maior desafio para qualquer desavisado era reconhecer o protagonista do pôster do filme – que seria exibido pela primeiríssima vez, até mesmo para alguns do elenco presente. “Estou curiosíssimo para ver, esse pessoal faz muito mistério”, brinca o belíssimo ator português Diogo Morgado, 36, poucos segundos antes de entrar na sala de exibição.
No faroeste dirigido por Marcelo Galvão (A Despedida, 2014, e Colegas, 2012) Diogo é Cabeleira, um temido matador do estado de Pernambuco. Criado por um cangaceiro local chamado Sete Orelhas (Deto Montenegro), que o encontrou abandonado quando bebê, ele cresce no sertão completamente isolado da civilização. Agora um adulto, ele finalmente vai à cidade para procurar o desaparecido Sete Orelhas e acaba encontrando uma cidade sem lei, governada pelo tirânico Monsieur Blanchard (Etienne Chicot), um francês que domina o mercado de pedras preciosas e anteriormente empregava Sete Orelhas como seu matador.


Leva-se muito tempo vendo O Matador para identificar qualquer traço do galã lusitano na pele do nordestino do cangaço. “Muita gente me dizia ontem ‘você está zoando! Como conseguiu ficar tão feio?’. Isso para mim é elogio”, ele conta aos risos na manhã seguinte, durante este encontro, no hotel. Nenhum traço de sotaque português no lisboeta também fluente em inglês, francês e espanhol. “Eu fui ao Pernambuco duas semanas antes de começar a rodar o filme para fazer laboratório [as filmagens levaram dois meses]. Fiquei vivendo na casa de uma senhora, num pesqueiro, e fiquei perdido sozinho com as pessoas do vilarejo para pegar o sotaque, a essência e as referências dessa gente da terra… Também aprendi a cavalgar direitinho, todo curvado”. De fato, ele tirou tudo de letra. Sua atuação no filme lhe rendeu a indicação ao Kikito de Ouro no Festival de Gramado deste ano.
Com 22 anos de profissão, o ator, diretor e roteirista já foi visto em várias séries de TV americanas. Também atuou em produções brasileiras, como o filme A Selva (2002), de Leonel Vieira, ao lado de Maitê Proença. Mas a fama internacional veio mesmo com seu retrato de Jesus Cristo na série A Bíblia (2013) e no filme O Filho de Deus (2014). Chegou a ser apelidado de “hot Jesus” pela imprensa norte-americana, que dizia que Diogo Morgado era o Cristo mais sexy de todos os tempos. Até Oprah o recebeu em seu programa.
Depois de ser santo, Diogo virou o próprio diabo em The Messengers (2015), na série de suspense e fantasia produzida pelo canal CW, o mesmo de Gossip Girl, Vampire Diaries e Arrow. Aqui ele é The Man (O Homem), uma figura maquiavélica que usa tudo o que sabe sobre os outros a seu favor. The Messengers foi cancelada e logo vieram outros trabalhos como CSI: Cyber (2015-2016), Malapata (2017), Ouro Verde (2017) e, enfim, a produção brasileira O Matador, já disponível na Netflix.
Dividido entre sua casa em Lisboa e Los Angeles, Diogo acaba de dirigir e produzir um thriller de ficção-científica nos Açores. “Foi por isso que raspei a cabeça. Virei o Cabeleira descabelado”, ele brinca. O filme, Solo, foi rodado todo em inglês e está em fase de pós-produção para ser lançado nos cinemas de Portugal em 2018. “Em janeiro ou fevereiro eu volto para Los Angeles. Tem umas coisas legais rolando…”, adianta. Confira nossa entrevista exclusiva.


O que você sentiu na primeira vez que se viu tão diferente em O Matador?
É muito legal! Desde quando vi o roteiro, sabia que necessariamente seria um personagem que desde sua forma de andar, de falar, de se mover, de agir e de pensar, tudo seria composto. É um tipo desenraizado da sociedade. E isso que é bacana, entrar num mundo de possibilidades que pode variar do mais animalesco ao primitivo, do caprichada ou sutil. E esse campo de escolha é o que se torna fascinante para nós. Quando me vejo em um filme, estou no momento fazendo aquele personagem. Não sou eu, o Diogo, de forma nenhuma. Ontem fiquei satisfeito por isso. Sinto que o compromisso com a verdade foi atingido. Por isso estou feliz e descansado.
O que foi mais complicado para você no papel do Cabeleira?
O mais difícil foi matar bicho! (risos) Não é nem isso, porque a gente não chegava a matar, mas manejar o animal que já estava morto. É uma coisa que não é tranquila para mim.
Chegou a dar algum frio na barriga a questão de ser o protagonista deste primeiro longa produzido aqui pela Netflix em um papel tão característico do sertão brasileiro?
Deu tanta responsa quanto fazer Jesus Cristo em inglês. Uma coisa é um sotaque, outra é uma língua. Se faço um personagem em outro idioma e tem que passar verdade, a responsabilidade de passar um sotaque diferente quando eu falo a mesma língua é a mesma. Também já fiz filmes em francês, espanhol…
Qual cena te deu mais orgulho neste filme?
Como sou pai, todas as cenas com o garotinho [filho de Cabeleira] eu guardo de um jeito especial. Porque eu tinha meu avô [que morreu em Lisboa no dia da première no Brasil, e o enterro acontecia no dia desta entrevista], que não era muito afetivo na sua manifestação de carinho. Ele era assim meio bruto, mas você conseguia ler o amor e carinho nas entrelinhas. Há pessoas que são mais fechadas na sua forma, não quer dizer que não sintam, e acho que o Cabeleira era um pouco assim. Como ele não tem referência de social, dessas coisas dos afetos humanos, ele não sabe traduzir isso na sua manifestação social de carinho, de amor. Mas sentiu uma coisa esquisita dentro dele. Essa coisa da proteção, do “vem cá menino”… Engraçado que na última cena, em que ele diz: “pega suas coisas e vamos embora”, tinha mais coisas escritas no roteiro. Eu falei assim: “Marcelo (Galvão), vamos… Isso vai mostrar um Cabeleira mais humano que não é. Acho que está bom ele chegar e dizer: ‘pega suas coisas e vamos embora, só isso”. Só o fato de estar lá, pegando o menino de volta, já é a demonstração de seu amor pelo filho.
Até que ponto Marcelo Galvão te deu liberdade?
O Marcelo dá muita liberdade. Eu já era fã dos filmes dele, Colegas e A Despedida foram dois que me encheram assim (põe a mão no peito). Fiquei muito impressionado com sua capacidade narrativa como contador de história. Para mim foi mais fácil dizer “claro que sim, vamos lá, vamos fazer esse trabalho! É o Marcelo, ele sabe o que está fazendo”. Ele sabe a sensação que quer criar numa determinada cena. E no fundo, é isso que ele passa para você, e serve de guia para a gente criar junto. Creio que desde cedo ele percebeu que o Cabeleira é um daqueles personagens que você não tem uma forma fechada de fazer. Cada ator que interpretasse com certeza daria uma essência diferente. Então se ele não tivesse essa abertura criativa, de dar liberdade para o ator, acredito que ele matava o filme. Portanto, nessa medida foi super gostoso trabalhar com ele.

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