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Na balada do mar

De empresário da noite paulistana a um dos mais respeitados velejadores do mundo, Beto Pandiani narra suas aventuras

POR Kike Martins da Costa 2 MIN

01 jul

2 Min

Na balada do mar

POR Kike Martins da Costa

	

Em abril de 2000, após 170 dias de uma longa viagem de veleiro iniciada em Puerto Montt, na Patagônia chilena, Beto Pandiani ouviu alguém lhe dizer: “Você acaba de subir o Everest de Havaianas”. A frase, na verdade, valia não só para essa expedição, a Rota Austral, mas também para as outras seis ousadas aventuras marítimas desse destemido santista de 60 anos, que, a bordo de minúsculos catamarãs – embarcações com dois cascos, propulsão a vela ou motor e sem cabine – atravessou o Atlântico, velejou de Miami a Ilhabela, visitou a Groenlândia e o continente Antártico, só para citar algumas de suas façanhas ao mar.
Grandes feitos de Betão, só comparados, talvez, à criação de marcos da noite paulistana, como os extintos Aeroanta, B.A.S.E. e Lounge, na Rua Amauri. “Sempre gostei de viajar, mas achava que meu destino era ser um empresário de sucesso. Fui estudar administração na PUC e estagiar na Pirelli. Mas vi que aquela não era a minha praia quando comecei a fazer uns bicos como garçom no Clyde’s bar e no 150 Night Club, e ver que aquele negócio era muito mais divertido e rentável”, diz Pandiani. “Fui trabalhar então como barman no Ritz, onde fiquei por três anos. Aí abri o Singapore Sling, um bar que fez história num porão da Alameda Tietê nos anos 1980. Depois vieram outros dois, que também bombaram: o Olívia, na Vila Madalena, e o Aeroanta, no até então abandonado Largo da Batata”, recorda.


No auge disso tudo, porém, Betão começou a refletir se era mesmo aquela a vida que ele queria. Era 1992, e a rotina de empresário, embora lhe rendesse muito dinheiro, o amarrava muito. A satisfação só vinha quando descia até Ilhabela para velejar de hobie cat – o que em geral não podia acontecer aos fins de semana, quando sua presença era super-requisitada nos bares. “Morar em São Paulo é difícil e, fazendo algo que não é o que você ama, torna-se uma missão suicida. Decidi vender a minha participação em todos os negócios e fui com um amigo para uma expedição Entre Trópicos, a bordo de um catamarã que partiu de Miami [no Trópico de Câncer] e chegou em Ilhabela [no Trópico de Capricórnio]”, conta sobre a viagem que demorou 289 dias e teve uma enorme repercussão, já que, em vez de ir apenas pelas ilhas do Caribe e a costa do Nordeste brasileiro, Betão seguiu os caminhos descobertos pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt, subindo o Rio Orinoco, na Venezuela, até chegar ao canal de Casaquiare – que liga a bacia do curso de água venezuelano à do Amazonas. Assim, a expedição desceu os rios Negro, Solimões e Amazonas até retornar ao oceano Atlântico nas proximidades da Ilha de Marajó, no Pará. No caminho, travou contato com índios de várias etnias.


“Depois dessa viagem, voltar a São Paulo foi um choque. Não via a hora de partir para outra aventura, mas tive que retornar aos trabalhos na noite para levantar uma grana. Foi assim que criamos o restaurante de frutos do mar Mr. Fish [na Alameda Lorena], o bar Lounge [na Rua Amauri] e o clube B.A.S.E., de música eletrônica”, explica. Para quem não lembra, este último foi um dos mais lendários points do cenário paulistano. Instalado na sauna do antigo hotel Danúbio, no Centro, recebeu grandes festas e memoráveis apresentações de DJs nacionais e estrangeiros.


Após refazer o caixa, Betão partiu então para uma aventura mais abusada: a Rota Austral, uma viagem do sul do Chile até o Rio de Janeiro, passando pelo agitado Cabo Horn, onde as águas do Atlântico dão de cara com as do Pacífico, em um encontro nada amistoso. Para completar, o clima nunca ajuda muito – nos primeiros 50 dias de viagem, 45 foram embaixo de chuva! Quando finalmente chegaram à Marina da Glória, o velejador ouviu que mais fácil do que fazer essa viagem seria ter ido à Antártica. Com isso em mente, ele pensou: “Boa ideia. Por que não?” Nascia ali o embrião da próxima jornada: a Travessia do Drake, realizada em 2003. Para encarar o pior trecho de mar do planeta, ele encomendou um catamarã especial, feito de kevlar e fibra de carbono, além de contratar um barco polar de apoio, comandado por um navegador europeu ultraexperiente, que por anos operou cruzeiros charter até o continente gelado. “Essa, sim, foi uma velejada heroica! Em um dos trechos, eu e meu parceiro ficamos sem dormir por 82 horas seguidas. Mas conseguimos cumprir exatamente o que havíamos planejado”, relembra.


O passo seguinte foi uma viagem de Nova York à Groenlândia, batizada como Rota Boreal. No total, 90 dias no Atlântico Norte, em 2005, com paradas em remotas ilhas do Canadá e contatos com esquimós, focas e ursos polares. Dois anos depois, foi a vez de uma de suas mais longas expedições: a Travessia do Pacífico, com saída em Viña del Mar (no Chile) e chegada numa praia próxima a Brisbane, no norte da Austrália. Vários velejadores já haviam feito esse percurso, mas nunca em uma embarcação tão pequena, frágil e sem cabine. Ao longo de 137 dias, ele e Igor Bely cruzaram o maior oceano do planeta, ficando longos períodos sem terra à vista. “Só no primeiro trecho, a Ilha da Páscoa, foram 18 dias direto no mar. Quando aparecia um pássaro, uma baleia ou uma tartaruga, era um grande evento para a gente. Foi uma viagem com muito pouca interação com outras pessoas. A observação era só para dentro de nós mesmos. Éramos dois, mas estávamos absolutamente sozinhos no mundo”, conta.


A expedição foi também muito desgastante, principalmente para a embarcação, que sofreu várias avarias. “O material entrou em fadiga. Não é possível colocar um barco em estresse por tanto tempo seguido, sem uma pausa. O nosso corpo até que aguenta, porque a gente consegue dar uma descansada em vários momentos, mas o barco não tem paz um só segundo”, observa Betão, que descobriu da maneira mais dolorosa a receita para construir o barco perfeito. E aproveitando esse know-how adquirido, ele definiu as especificações do catamarã de sua próxima expedição: a Travessia do Atlântico, da Cidade do Cabo a Ilhabela. Em 2013, partiu da África do Sul e, 37 dias depois, aportou no litoral paulista, num tiro só. “Ficamos mais de cinco semanas sem atracar o barco em nenhuma ilha no caminho, e essa foi a nossa grande falha: minhas pernas atrofiaram porque passei muitos dias sem ao menos ficar em pé. Quando voltei a São Paulo, tive de fazer sessões de fisioterapia. Não tinha forças nem para subir a escada aqui de casa. Mas valeu a pena”, rememora.


Sua viagem seguinte seria a Rota Polar, de Vancouver (na costa Oeste do Canadá) até a Groenlândia, em 2014, mas a crise econômica fez com que vários de seus patrocinadores deixassem de apoiar iniciativas como essa, e agora os planos estão em stand by. Enquanto o boeing da economia brasileira não decola, Betão leva a vida fazendo palestras para plateias do universo corporativo. Ele envolve o público com as emocionantes histórias de suas expedições e traduz tais experiências para o dia a dia das empresas, falando sobre temas como “Tomada de Decisões”, “Gestão de Riscos”, “Inteligência Competitiva”, “Logística e Otimização de Recursos”, “Aprendendo com os Próprios Erros”, “Empreendedorismo & Inovação”, “Coragem Gerencial & Ownership” e “Do Planejamento à Execução”. Com cada uma, fatura algo entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. “Costumo fazer muitas analogias úteis para quem acompanha as minhas falas. Veja bem: o meu barco é a empresa, o mar é o mercado, e a natureza funciona como o imponderável, aquilo que temos de enfrentar para obtermos êxito.

Numa embarcação, assim como numa empresa, os resultados positivos são consequências de conhecimento, trabalho em equipe e de relacionamentos eficazes, baseados em confiança, planejamento, integração, informação, cooperação e liderança”, explica Betão, hoje respeitado como um dos maiores velejadores do planeta, e que, em 2009, lançou sua autobiografia O Mar É a Minha Terra, pela Editora Grão.

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